O apagão do Facebook pode ser a nossa luz no fim do túnel

Nunca antes se teve um ambiente tão favorável a mudanças substanciais no modus operandi das 'big tech'

Mark Zuckerberg. Foto: Mandel Ngan/AFP

Mark Zuckerberg. Foto: Mandel Ngan/AFP

Opinião,Tecnologia

Na semana passada, dois eventos estremeceram o Facebook. Primeiro, no dia 4 de outubro, um problema técnico que afetou todas as plataformas da empresa e as deixou inoperantes por seis horas.  E no dia seguinte, as denúncias de Frances Hauges, uma ex-cientista de dados do time de integridade cívica da empresa, perante o congresso estadunidense.

Apesar de o Facebook ter sempre conseguido contornar suas crises, dessa vez não será tão fácil. Há cobranças não apenas de seus usuários, mas também de parlamentares e investidores. O apagão do Facebook, que expôs suas falhas morais e técnicas, pode ser a nossa luz no fim do túnel.

Naquele 4 de outubro, uma mudança nas configurações dos servidores do Facebook deixou tanto a sua rede social principal, quanto o Messenger, Instagram e WhatsApp inacessíveis. Essa falha técnica provocou muito que a frustração, ela nos mostrou como países como o Brasil se tornaram reféns da empresa de Mark Zuckerberg. Nos primeiros minutos do apagão, o termo wi-fi foi para os trending topics (assuntos mais comentados) do Twitter. Eram diversos os relatos de pessoas que reiniciaram seus celulares ou roteadores sem fio achando que o problema era a conexão da internet, e não as redes sociais de Zuckerberg. Por mais que os memes tenham sidos divertidos, isso expõe um seríssimo problema: a percepção que a internet se reduz ao Facebook e seus aplicativos.

Essa percepção não é obra do acaso, e sim um dos maiores objetivos do Facebook.

O Facebook é conhecido por promover projetos de zero rating, ou navegação sem custo. Funciona assim: as operadoras de telefonia móvel oferecem navegação sem cobrança a seus clientes exclusivamente nas plataformas do Facebook. O foco do zero rating são países em desenvolvimento, e por isso a prática ficou conhecida como colonialismo digital. Desde 2014, essas iniciativas são oferecidas no Brasil, promovendo assim uma rápida difusão e a dependência dos usuários brasileiros aos serviços de Mark Zuckerberg.

O WhatsApp possui cerca de 130 milhões de usuários ativos no Brasil, e é o principal meio de comunicação de 96% deles. São contatos com familiares e amigos, escola, trabalho, compras e vendas, agendamento de exame de Covid-19… Ou seja, o WhatsApp não é apenas um aplicativo, ele é um utilitário. O apagão deixou ainda mais claro que o Facebook conquistara algo muito próximo de um monopólio no país — e mesmo com tamanha dependência e demanda, a empresa não tem nenhuma obrigação legal que requisite a prestação de seus serviços.

Ainda se recuperando do apagão de seus serviços, no dia seguinte, o Facebook recebeu um outro duro golpe: Frances Haugen depôs perante o congresso estadunidense e fez graves acusações sobre as políticas praticadas pela empresa. Em resumo, de acordo com ela, há um sério conflito entre o que é bom para o Facebook e o que é bom para a sociedade. O que é bom para o Facebook tende a ser ruim para o mundo. Ela acusou os algoritmos do Facebook de serem perigosos, disse que os executivos do Facebook estavam cientes da ameaça, mas colocaram os lucros antes das pessoas.

O WhatsApp possui cerca de 130 milhões de usuários ativos no Brasil, e é o principal meio de comunicação de 96% deles

Haugen não é a primeira ex-funcionária do Facebook a denunciar a empresa. Em abril desse ano, Sophie Zhang fez o mesmo, porém não recebeu a mesma atenção — e o porquê dessa diferença é chave para entender como que Haugen conseguiu a atenção do Wall Street Journal, onde as primeiras denuncias foram publicadas anonimamente, do programa de TV mais tradicional dos EUA, o 60 Minutes, e finalmente do congresso.

Como explica o professor e meu colega Siva Vaidhyanathan, Haugen trouxe um problema que preocupa muitos (senão a maioria) – dos pais no mundo desenvolvido: a influência do Instagram na prevalência de distúrbios alimentares, automutilação e suicídio entre meninas adolescentes. Temas que são de muita preocupação entre os americanos. Zhang, em contraste, levantou questões com as quais os americanos tendem a não se preocupar: que era como o Facebook e suas plataformas prejudicavam pessoas fora dos Estados Unidos. Zhang mostrou como países como Azerbaijão e Honduras não são importantes o suficiente para o Facebook limitar a disseminação de contas falsas que estimulam líderes autoritários. Em outras palavras, o povo do Azerbaijão vale algo para o Facebook apenas por seus cliques.

Uma outra diferença: Haugen trouxe relatórios diretamente da divisão de pesquisa do Facebook, relatórios esses que ajudam a guiar as políticas da empresa. Esses documentos mostram que o Facebook não se importava com a saúde das adolescentes, e não queria fazer grandes mudanças internas para conter o fluxo de desinformação antivacinas. Eles revelam que o algoritmo do Facebook mostra intencionalmente conteúdo aos usuários que os deixam com raiva, e assim partidos políticos na Europa veicularam anúncios negativos porque era a única maneira de alcançar as pessoas no Facebook. Esses documentos, como afirma Siva Vaidhyanathan, mostram que os executivos do Facebook sabiam de todos esses danos e até que ponto o Facebook contribuía para isso. Isso tornou a campanha de Haugen mais bem sucedida do que a de Zhang, mesmo antes de alguém ter ouvido falar de Haugen.

No dia seguinte o depoimento de Haugen, Zuckerberg eviou uma mensagem aos funcionários do Facebook desqualificando as acusações e defendendo a empresa: “O argumento de que promovemos deliberadamente conteúdo que deixa as pessoas com raiva pelo lucro é profundamente ilógico”, declarou. Porém, não foi isso que Haugen disse — e a diferença está na palavra deliberadamente.

Ela disse: “A própria pesquisa do Facebook está mostrando que conteúdo que é odioso, que causa divisão, que é polarizador, é mais fácil inspirar as pessoas à raiva do que a outras emoções. O Facebook percebeu que, se mudarem o algoritmo para ficar mais seguro, as pessoas passarão menos tempo no site, clicarão em menos anúncios e ganharão menos dinheiro.” Ou seja, a plataforma é desenvolvida para priorizar conteúdos odiosos pois esses conteúdos geram mais engajamento (compartilhamentos, reações, curtidas, comentários) que outros conteúdos.

Diante desse blackout técnico e moral, muita gente promete deletar suas contas do Facebook. Mas, por mais que uma debandada do Facebook beneficie a saúde mental das pessoas, ela não resolve o problema. Na verdade, pode até prejudicar a situação. A própria plataforma do Facebook pode servir para que as pessoas se conectem e organizem ações contra ele, além de ser um meio para demandar ações de governantes. Além disso, é importante lembrar, a plataforma serve a muita gente como o único meio para se comunicar com familiares, amigos e fazer negócios. A percepção generalizada é de que o Facebook é na verdade a internet.

Outras pessoas pediram a quebra do monopólio do Facebook, ou seja, desmantelar as diferentes plataformas. Porém apenas isso também não resolveria: os problemas causados pelo Facebook são os mesmos provocados por outras empresas do Vale do Silício, como o Google, Twitter e Snapchat. Enfraquecer o Facebook só abrirá mais espaço no mercado para que as demais big tech façam exatamente o que o Facebook já fazia.

A saída para esse problema demanda uma miríade de regulações e novas políticas. Além de políticas antimonopólio e que regulem os zero ratings, precisamos de leis que limitem o poder das big tech na exploração de dados dos usuários e protejam sua privacidade. Como dito por Haugen, “enquanto o Facebook estiver operando no escuro, ele não prestará contas a ninguém”. Precisamos ter acesso à “caixa preta” dos algoritmos para entender como eles manipulam a distribuição de conteúdos, assim como ter acesso aos dados do Facebook para pesquisas independentes e não conduzidas pela empresa.

E onde está, então, a luz no fim do túnel?

Com os documentos em mãos, Haugen usou seus advogados para registrar queixas na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Ela entendeu que o Facebook tem mentido, ou pelo menos omitido, os riscos para o negócio e as externalidades negativas das ações da empresa em todo o mundo. Isso coloca o Facebook em uma posição inédita de risco legal.

Também há pedidos para que a Comissão Federal de Comércio dos EUA investigue as denúncias de Haugen. Por último, o advogado Jonathan Kanter, um crítico ferrenho das big techs e defensor antitruste, provavelmente será confirmado como chefe da divisão antitruste do Departamento de Justiça — o que não seria nada bom para Mark Zuckerberg.

O Facebook nunca esteve sob tantos olhos críticos como agora. Nunca antes se teve um ambiente tão favorável a mudanças substanciais no modus operandi das big tech. Assim, começa a surgir uma luz no fim do túnel diante de todo esse apagão.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Antropólogo e cientista da computação. É professor no departamento de estudos de mídias da Universidade da Virgínia e autor de 'Technology of the Oppressed' e 'Favela Digital'

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