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O ano que ainda nem começou
Todo fim de ano faço as contas, releio anotações, organizo uma lista enorme de quem morreu e uma pequena listinha de quem veio ao mundo
Sou do tipo que, já na primeira semana de dezembro, sai atrás de calendários. Quero me adiantar e ver os feriados do ano novo, os aniversários, que dia cai o Carnaval, o Natal do ano que vem. Quero logo ver se fevereiro vai ter 28 ou 29 dias pra saber se o cartunista Jaguar vai ter um dia pra chamar de seu no ano novo.
Pequeno, curtia a Folhinha de Mariana. Gostava de conferir o dia de cada santo e os dias de chuva fina, temporal a melhor época para semear e colher, mesmo não sendo do agronegócio.
Gostava também daquele número especial de uma revista que trazia o horóscopo do Omar Cardoso para o ano inteiro. Ficava sabendo que em janeiro ia faltar grana, mas, em compensação, em agosto, mês do meu aniversário, grandes chances de ganhar uma bolada. Quais eram os melhores dias para o amor, para o trabalho, para as realizações, estava tudo ali.
Era desse clima de adeus ano velho, feliz ano novo que eu gostava. Gostava mais do que Papai-Noel, árvore de Natal, amigo oculto, peru, rabanada, panetone, nozes, castanhas, arroz com passas.
Já vivi meio século do século passado e estou quase completando um quarto deste. Idoso, ainda curto folhinha, calendários de bolso, agenda de papel cheirando a novo, mas a revista do Omar Cardoso que eu gostava tanto é coisa do passado.
Todo fim de ano faço as contas, releio anotações, organizo uma lista enorme de quem morreu e uma pequena listinha de quem veio ao mundo, quem chegou para alegrar os nossos dias.
Prometo regimes, voltar a estudar a fundo o inglês, visitar mais minhas tias idosas, não assistir o BBB, não ficar chateado se o América Mineiro cair pra segunda divisão.
Sei lá, não estou botando muita fé no ano de 2022, que ainda está no forno. Aí eu me pergunto:
Será que vamos comemorar o centenário da Semana de Arte de 22?
Será que Chico Buarque vai lançar disco novo?
Será que a inflação vai baixar?
O desemprego vai diminuir?
Será que vamos comemorar os duzentos anos da nossa Independência?
Será que vamos ganhar a Copa do Mundo de Futebol no Catar?
Vai ter terremoto no México?
A Fernanda Gentil vai estrear programa novo?
A Amazônia vai continuar sendo devastada.
O Pantanal vai secar?
Será que a polícia vai continuar matando pretos e pobres?
Será que os homens vão continuar esfaqueando as mulheres?
Será que a pandemia vai passar?
Será que Lula vai ganhar as eleições presidenciais?
Será que vamos nos livrar dessa praga chamada Jair Bolsonaro?
Pensando bem, será que vai ter 2022?
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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