Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

No desgoverno caótico do capitão Bolsonaro, o Executivo vem parando de funcionar

Há muito tempo até a eleição de 2022. Veremos se o sistema político resiste à contaminação que o derretimento de Bolsonaro vai causar

O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/PR
O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/PR
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O sistema político brasileiro tende a um colapso profundo e rápido. O principal motivo para isso é a implosão do Poder Executivo, que já começou. A analogia que vem à mente é o derretimento do núcleo de reatores nucleares. Consiste em um processo, quase sempre resultante de erros humanos, de sobreaquecimento do reator, que conduz à liberação explosiva de material radioativo no meio ambiente e coloca em risco todas as formas de vida. No plano institucional, estamos no limiar de um fenômeno desse tipo. O perigo é real.

No desgoverno caótico do capitão Bolsonaro, o Poder Executivo está parando de funcionar ou não funciona mais. Ele não é apenas o pior presidente de todos os tempos, mas também o que menos trabalha, menos se dedica às suas obrigações. Faz tempo que sua agenda é subordinada a uma única obsessão: a busca da reeleição.

Subordinado a alguém como Bolsonaro, o Poder Executivo não consegue funcionar adequadamente

Não é a primeira vez que, no Brasil moderno, temos um chefe de governo que não sabe ou não consegue governar. Em razão de seus erros, Collor perdeu condições de governabilidade com pouco mais de dois anos de mandato. Dilma sofreu um golpe, no início do segundo, que impediu que governasse. Quanto a Sarney, Itamar e Temer, os três não receberam mandatos próprios e assumiram o governo por impedimento dos titulares, o que sempre limitou a sua autoridade.

O caso do capitão é pior. Nos anteriores, o sistema político conseguiu compensar, pelo menos em parte, a ausência da capacidade governativa pessoal do presidente. Em alguns casos, com sua colaboração: Sarney se apegou à “liturgia do cargo”, Collor tentou um ministério de “notáveis” e Itamar logo promoveu a transição para um novo governo. Sem a sua ação, as crises que enfrentaram teriam sido piores.

Bolsonaro não tem as qualidades de seus antecessores e seu governo é feito com gente sem preparo e respeitabilidade. É impossível esperar dele um gesto de honra e grandeza. Sua equipe é de última categoria. Estão há dois anos e meio à frente do Executivo e não conseguiram fazer qualquer coisa em benefício da maioria.

Bolsonaro é o rosto de um governo responsável por uma catástrofe sanitária, com centenas de milhares de mortes evitáveis. É causador de uma crise na economia que produziu 15 milhões de desempregados, 6 milhões de desalentados e 33 milhões de pessoas subutilizadas. É culpado por um imenso retrocesso nas políticas ambientais, justo quando o mundo afunda em uma crise climática que pode ser terminal. Sob seu comando, a educação foi desorganizada, jogando fora décadas de avanços, e se transformou em séria ameaça ao futuro. E ele só quer saber de como se manter no poder, custe o que custar.

Não bastasse a omissão, seus vínculos com pequenas e grandes corrupções, sua preguiça e incompetência, o capitão não aceita as regras da vida civilizada. Ataca, agride, xinga, dá os piores exemplos, encoraja as pessoas ao desrespeito, à truculência e à violência. Vai perdendo o apoio dos que têm sentimentos normais e fica com o aplauso de uma parcela cada vez menor e mais desequilibrada. Perde autoridade e, sem ela, o poder presidencial passa a ser fundado somente na ameaça. Sem autoridade, o poder não passa de força.

Subordinado a alguém como Bolsonaro, o Poder Executivo não consegue funcionar adequadamente. Com seus desvios de personalidade, caráter e formação, o capitão promove a dissolução, de dentro para fora, do poder que nominalmente chefia. Seu desejo é fazer o mesmo com o Legislativo e o Judiciário. Se aceitarem a subordinação, venham de cabeça baixa. Se quiserem se vender, está disposto a pagar – usando, naturalmente, recursos da coletividade. Se não toparem por bem, que seja por mal: ameaça usar as Forças Armadas e bravateia que dispõe de um exército de policiais dispostos a tudo.

As elites brasileiras, com auxílio relevante de seus amigos no exterior, nos trouxeram até aqui e são responsáveis pelo que Bolsonaro é e ameaça se tornar. A coalizão golpista que permitiu o bolsonarismo está parcialmente desfeita, com a correção de rumo empreendida pelo Judiciário. Os governadores parecem dispostos a assumir o papel que deveriam ter em uma federação. Aqui e ali, a mídia corporativa tenta voltar a ser respeitável. Um pedaço grande do apoio social que o capitão teve em sua escalada foi perdido. Há muito tempo até a eleição do ano que vem. Vamos ver se o sistema político resiste à contaminação que o derretimento de Bolsonaro vai provocar.

Publicado na edição nº 1172 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2021.

Marcos Coimbra

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