Colunas

Nem a inconsciência de Trump e Netanyahu pode vencer um povo consciente

Não são as armas, mas a consciência, a principal barricada de um país, de um povo, de uma nação

Nem a inconsciência de Trump e Netanyahu pode vencer um povo consciente
Nem a inconsciência de Trump e Netanyahu pode vencer um povo consciente
Trump ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Apoie Siga-nos no

“O que o futuro poderia trazer, só os céus sabiam. A mudança não dava trégua; talvez jamais desse trégua. Antigas muralhas de pensamento, hábitos que pareciam duráveis como pedra, desabavam como sombras ao toque de outra mente, deixando no lugar um céu limpo, todo salpicado de novas e cintilantes estrelas” – Do Orlando, de Virginia Woolf

Diante do projeto de lei de Tabata Amaral que visa, falsamente, assimilar antissionismo a antissemitismo, cabe a pergunta: por que a oposição não apresenta um PL que criminalize o sionismo, uma vez que se trata de ideologia imperialista, racista e — em sua vertente atual — francamente genocida?

Com efeito, o sionismo se transformou em nazisionismo, sob a batuta da extrema-direita israelense, praticando atrocidades similares àquelas perpetradas pelos seguidores de Adolf Hitler.

De fato, essa vertente política israelense dilui os horrores do Holocausto, ao legitimar práticas semelhantes contra a população originária palestina.

Ao banalizarmos tais atrocidades, não estamos participando delas, cometendo o mal, conforme a concepção de “banalidade do mal”, da judia Hannah Arendt?

Vale notar que a depravação moral da extrema-direita estadunidense e israelense foi trazida à luz pelo Papa Leão XIV, o homem certo, no lugar certo, na hora certa.

Deixou claro que não existem guerras santas e tirou os sapatos para orar com os irmãos muçulmanos, também eles filhos de Abraão.

Em meio ao horror da guerra de agressão promovida por Israel e pelos EUA contra o Irã, surgem novos atores diplomáticos, notadamente o Paquistão.

Trata-se de potência nuclear com grande capacidade de mobilização junto ao mundo árabe, com o qual comparte o conhecimento do Livro Sagrado, lido e orado em árabe, embora a língua oficial do país seja o urdu.

À timidez do BRICS sobrepôs-se a iniciativa de paz paquistanesa, demonstrando que a nova arquitetura internacional, para ser efetiva, deverá ser democrática e que a reforma do Conselho de Segurança nos moldes defendidos pelo Brasil, com o ingresso do próprio, do Japão, da Alemanha e de um país africano, como membros permanentes, está, de certa forma, superada (em bom tempo).

O mundo demonstra estar mais complexo — e isso, se compreendido, não é mau.

Entretanto, não se pode perder de vista que a defesa do Irã foi feita primordialmente por seu povo, demonstrando que não são as armas, mas a consciência, a principal barricada de um país, de um povo, de uma nação.

Por aqui, assistimos a ilustres diplomatas — e filhos — defendendo o rearmamento nacional, em um país em que Mourão e Pazuello são generais — e até Bolsonaro é capitão. Quase uma receita de suicídio… Parece que pouco aprendemos com 21 anos de trevas…

A resistência iraniana deixou claro que não se pode vencer um povo consciente, e que mesmo a inconsciência de Donald Trump e Benjamin Netanyahu não pode vencê-la.

No entanto, como é perigoso um povo consciente: sabe demandar, deseja participar, não aceita ser infantilizado.

Como já dissera Paulo Freire: “O sistema não teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar”.

A Rússia também se favorece com o conflito, na medida em que seu petróleo se torna alternativa de abastecimento, razão pela qual Trump suspendeu parcialmente as sanções sobre as exportações de óleo russo.

Nessa toada, o jornal dos Sirotsky, a Zero Hora, pasquim hegemônico no RS, passou a dedicar meia página (e última) aos temas internacionais. Povo ignorante pode até aceitar em suas páginas entrevista de Paulo Skaf, notório golpista, defendendo a candidatura de Flávio Bolsonaro, aquele que condecorou e empregou em seu gabinete na Alerj a mãe e a ex-mulher do chefe do escritório do crime no Rio de Janeiro Adriano da Nóbrega.

Como diria minha avó (se falasse inglês): “Birds of a feather flock together” (pássaros de mesma plumagem voam juntos).

Por falar na vestimenta dos passarinhos, cabem duas citações apropriadas também do Orlando de Virginia Woolf:

“Por mais que pareçam vãs ninharias, as roupas têm…funções mais importantes do que a de simplesmente nos manter aquecidos. Elas mudam nossa visão do mundo e a visão que o mundo tem de nós…Há, assim, muitos argumentos em apoio da opinião de que são as roupas que nos vestem, e não nós a elas; podemos moldá-las ao nosso braço ou ao nosso peito, mas elas moldam nossos corações, nossas mentes, nossas línguas ao seu bel-prazer.”

Importa lembrar que o ideólogo do pan-africanismo, o jamaicano Marcus Garvey, pregava que os pretos deveriam vestir-se não para si, mas para o outro, demonstrando assim pelas meras roupas o respeito pela alteridade.

Em senso contrário, vemos os estadunidenses descerem para o café da manhã em chinelos de dedo e pijamas — e falando alto como se estivessem em suas próprias casas.

O confronto de ideologias tão diversas — até em temas aparentemente secundários — resultaria no assassinato de Martin Luther King e Malcom X, ambos impecáveis no vestir, vale lembrar.

Busquemos a paz, pois sem ela não há mudança — e nossas penas não nos condenam; ao contrário, a muda delas é tanto possível quanto desejável.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo