Na pandemia, vivemos a matemática do inferno

'Choro por todos os mortos, mas as minhas lágrimas são de raiva. Muitos deles foram mortos por quem os deveria proteger', escreve Solano

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Opinião

Cem mil mortos, 200 mil, 300 mil… Quando esta coluna chegar às suas mãos, caro leitor, estaremos perto das 400 mil mortes em decorrência da Covid-19. É a matemática do inferno.

400 mil mortes.

400 mil montanhas de lágrimas.

400 mil famílias destruídas no governo daquele que dizia cuidar da família brasileira.

400 mil vidas arrasadas, mas a Bíblia e o crucifixo continuam firmes em Brasília. E os bispos continuam a abençoar o monstro, em nome de Jesus. Deus acima de tudo.

400 mil cadáveres, mas o importante é garantir cargos, emendas parlamentares, arrancar pedaços de poder com unhas e dentes. 400 mil nomes sem futuro, e só vejo abaixo-assinados. Que ousadia. Porque todos sabem que os abaixo-assinados devolvem as vidas daqueles que foram embora e os sorrisos àqueles que ficaram.

400 mil vacinas que não chegaram aos braços de alguém. Quantas delas teriam chegado a tempo sem o monstro no poder?

Seguimos. Tentamos não soltar a mão de ninguém, mas quem deveria apertar a nossa com força a soltou faz tempo.

Às vezes escuto que o vírus é democrático. A Covid-19 também mata quem mora nos Jardins e no Leblon. Eu tenho vontade de matar ao ouvir esse argumento. No ano passado, o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, da PUC do Rio de Janeiro, confirmou que 55% de pretos e pardos morreram por causa da pandemia, enquanto, entre os brancos, o porcentual ficou em 38%. Entre aqueles sem escolaridade, as taxas de mortes foram três vezes maiores (71,3%) do que entre quem tem nível superior (22,5%). Quando se cruza escolaridade com raça, temos o porcentual do horror: pretos e pardos sem escolaridade registraram 80,35% das mortes, ante 19,65% dos brancos com ensino universitário.

Outro dado para quem diz que a doença é democrática: a Associação de Medicina Intensiva Brasileira aponta que a mortalidade por Covid-19 na rede pública é praticamente o dobro daquela da rede privada. O coronavírus é tão democrático quanto o Brasil. Bala perdida tem endereço, CEP, nome e sobrenome. A doença também tem. Branco fica, negro sai.

400 mil mortos e os “ilustrados arrependidos” de terem votado em Bolsonaro escrevem colunas nos jornais pedindo perdão. Quem perdoa é santo. Nem perdoo nem esqueço. 400 mil mortos e ainda temos de ler editoriais alertando sobre o perigo dos dois extremos e a catástrofe que seria para o Brasil ter de escolher entre Lula e Bolsonaro. 400 mil mortos, mas o “isentão” continua vivo.

Há os que morrem e há os que vivem ou sobrevivem. Há as mães, esgotadas, colapsadas, esquecidas, invisíveis. As crianças, que há mais de um ano permanecem trancadas em casa. Mas as crianças também são invisíveis. Os profissionais de saúde, chorando perdas nas UTIs, extenuados, e que, ao sair do hospital, são obrigados a suportar as baladas de jovens sem máscara e a turma a se aglomerar na praia. Há os desempregados que desistiram de procurar emprego. Só tem derrota. A pandemia levou embora o presente e o futuro.

Há os que não morreram de coronavírus,­ mas estão perto de morrer de fome. Só que a fome é mais dissimulada ainda do que a doença. A fome não recebe manchetes, a fome não é procurada por fotógrafos e holofotes. Há tantas vítimas sem rosto, sem credenciais, das quais nunca saberemos sobre a sua dor.

A gente sabia que o Brasil era um país letal. Armas de fogo matavam. Agora não só: mata o vírus, mata o estilo fascistoide, mata a incompetência de muitos, mata a ganância de outros.

400 mil. Não tem vaga na UTI, não tem vaga no cemitério. Os corpos se amontoam.

A vida parou e ninguém parece saber reagir à altura. Se a vida parou, não se deveria parar tudo também? Não deveríamos deixar de trabalhar? De consumir? Não deveríamos dar um “basta” gigante, histórico, coletivo? Para tudo. Ninguém faz nada neste País, pois nada mais faz sentido. Mas seguimos a produzir, a comprar, a vender… Seguimos, embora não tenhamos capacidade para seguir. A roda continua e continua. Quem for massacrado terá (ou não) seu luto. Os demais não podemos parar.

400 mil, mas, para alguns, a única coisa que importa é garantir seu lugar em 2022. A política não para. O show deve continuar.

O mundo está em suspenso. A vida está em suspenso. O Brasil está em suspenso. Aliás, há tempo que estamos em suspenso, aguardando um futuro que se empenha em ser cada vez mais doentio.

Talvez sejam 400 mil quando vocês lerem esta coluna, mas, quando escrever a próxima, serão mais e mais. A matemática do terror não para. As montanhas de lágrimas se acumulam.

Choro por todos os mortos, mas as minhas lágrimas são de raiva. Muitos deles foram mortos por quem os deveria proteger. Só sinto ódio desta política que mata.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Compartilhar postagem