Mulheres negras fazem transformação ética e estética na política

A brutalidade colonial, atualizada pelo racismo cotidiano, ameaça as condições de vida das mulheres negras. Mas não farão política sem nós

Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, em 2019. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, em 2019. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Frente Ampla,Opinião

Em 1992, as mulheres filhas da diáspora reunidas no 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas na República Dominicana decidiram pela criação do Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha a ser rememorado em 25 de julho. Em 2014, o dia 25 de julho passou a ser uma efeméride oficial brasileira como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza, que foi escravizada, liderou por 20 anos um quilombo exemplo de resistência política e afetiva, até que em 1770 colonizadores invadiram seu território e destruíram todo o trabalho organizado e gestado por ela. Em 2017, Marielle Franco assumiu como vereadora no Rio de Janeiro, tendo sido a 5ª parlamentar mais votada (46.502 votos) e foi assassinada pouco mais de um ano depois.

 

 

O histórico nos faz perceber que a repetição da brutalidade colonial, atualizada pelo racismo cotidiano, ameaça as condições de vida das mulheres negras. Pesquisa do Instituto Marielle Franco aponta que os dados da violência política são alarmantes: 78% das mulheres negras entrevistadas sofreram violência virtual, 63% violência psicológica e moral, 55% violência institucional, 42% violência física, 32% violência sexual e 28% violência gênero e/ou LGBTQIA+ .

Hoje, 250 anos depois da morte de Tereza, ainda temos muito caminho a ser construído. Lutamos contra um Estado genocida que está matando a população pobre de fome, de Covid por falta de vacina e a tiros.

Cleonice Gonçalves, uma mulher negra trabalhadora do serviço doméstica do Rio de Janeiro foi a primeira vítima fatal de Covid no estado. Mirtes Souza, mãe preta do menino Miguel morto ao cair de um prédio de luxo em Recife, também trabalhadora do serviço doméstico, perdeu o filho devido ao descaso de sua patroa. Neste ano, às vésperas do Dia das Mães, 29 jovens foram mortos no Jacarezinho, na maior chacina da história do Rio de Janeiro, e há pouco mais de 1 mês, Kathlen Romeu e o bebê foram mortos em mais uma das tantas ações policiais em favelas que ocorreram nesta pandemia, mesmo as ações estando restritas por determinação STF.

Carolina Maria de Jesus, certa vez, disse que “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome, porque a fome também é professora”. De fato, o Brasil precisa ser governado por quem sabe a diferença que faz o preço do gás e da passagem de trem. Por quem sabe o que é lavar o chão da patroa com a geladeira vazia em casa. Exigir maior participação das mulheres negras na política não é apenas reparação histórica, é também uma das melhores formas de garantir a democracia e combater as desigualdades.

Ao ocuparem a política, as mulheres negras, que compõem o estrato mais baixo da pirâmide social brasileira, movem as estruturas e reescrevem o que significa fazer política que é uma transformação ética e estética. Quando a mulher negra também fala de economia, fala de gerar emprego e renda; quando fala de orçamento, fala de rever prioridades como por exemplo combater a pandemia ao invés de comprar mais blindados e armamentos; quando fala de saúde de diminuir mortes da população negra, de mães, bebês e crianças; quando fala de política pública, fala de combate às desigualdades.

Estamos num momento importante de debate sobre o orçamento do Estado. Radicalizando a democratização da política, reunimos mais de 120 mulheres em plenárias populares para construir propostas e encaminhamentos. A nossa prática política é a de manter o olhar na ancestralidade para firmar terreno sólido de transformação social e aquilombamento. Entendendo que raça, gênero, sexualidade e classe impactam de diferentes maneiras a vida das pessoas e que, por isso, precisamos pensar a política para todas as pessoas. Por acreditar que é possível, eu, Mônica Francisco, parlamentar eleita com 40.631 votos, cria da favela do Borel, que fui trabalhadora doméstica, cotista na UERJ e hoje cientista social, digo: Não farão política sem nós!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Deputada estadual pelo PSOL-RJ e presidente da Comissão do Trabalho, Emprego, Renda e Seguridade Social da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

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