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Mourão se pintou para a guerra, resta saber como Bolsonaro irá enfrentá-lo

Opinião

Na semana passada, depois de o presidente Bolsonaro lançar impropérios ao jornalismo da Globo, o vice-presidente Mourão deu uma entrevista exclusiva à GloboNews. Algo inusitado, mas que estabeleceu limites precisos de atuação e de sua inserção nos cenários políticos que se avizinham.

Mourão, sempre polido, e tentando se mostrar afável, fez um contorcionismo inenarrável para definir que o general da ativa Eduardo Pazuello, ainda que esteja no topo das promoções de sua carreira militar,  não é o Exército, e que o Exército não é Pazuello. Disse ainda, que está excluído das ações do governo e que não tem participado de qualquer reunião de tomadas de decisões.

Outra coisa crivada de simbolismo foi sua afirmação de que o governo falhou no combate ao Covid, principalmente por não definir ações efetivas que mostrassem à população medidas de proteção contra uma pandemia tão letal.

Essa aparição de Mourão, como sempre um interlocutor comedido, com palavras pausadas e com os cabelos impecavelmente tingidos e ordenados, dá indícios seguros dos passos traçados rumo a um possível impeachment de Bolsonaro. Mourão se apresenta como conservador, mas que está em consonância com aspectos da modernidade, e cita em vários momentos o domínio e conhecimento das ferramentas virtuais e dos recursos existentes para se fazer do Brasil um país moderno.

Assim como outros militares trazidos para o seio do governo, Mourão igualmente foi humilhado por Bolsonaro. A maneira como foi escanteado é constrangedora e simplesmente causa repulsa até mesmo em seus adversários políticos. O general só não foi defenestrado como outros militares por ter cargo eletivo – sua exclusão, portanto, não é da alçada de Bolsonaro.

Difícil crer que essa aparição de Mourão na GloboNews seja uma atitude isolada. Talvez até mesmo o presidente da Câmara, o notável Artur Lira, se sensibilize para aceitar um dos inúmeros pedidos de impeachment que dormitam em suas gavetas. Afinal, Lira talvez seja sensibilizado pela pressão do empresariado que patrocina suas candidaturas e aventuras eleitorais. Empresariado que precisa de paz social para produzir, e não da intemperança emocional de Bolsonaro. A iminência de sua derrota eleitoral pode, inclusive, provocar novos embates sociais.

O modo como Bolsonaro está reagindo em suas aparições públicas é indício de que pressente algo sendo articulado em seu entorno.

Mourão está tentando se mostrar confiável e preparado para assumir a Presidência, e a médio prazo, em nova eleição presidencial como possível candidato da chamada terceira via, pois cada vez mais setores da economia, do Judiciário, e do próprio Exército estão se mostrando insatisfeitos com os desmandos de Bolsonaro. Setores, ressalteasse-se sempre, que, se não querem mais a presença de Bolsonaro na presidência da república, igualmente não desejam a volta de Lula para esse mesmo cargo.

Mourão se pintou para a guerra, resta saber como Bolsonaro irá enfrentá-lo nessa empreitada. O Brasil assiste atônito mais esse desvario. Traição de vices não é novidade no Brasil, mas essa maneira como Mourão explicitamente está se posicionando é inédita. E o mais incrível nisso tudo é saber que Bolsonaro ainda ostenta 27% de aprovação em seu mandato.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É psicoterapeuta existencial. Lecionou em cursos de pós-graduação em Psicologia da Saúde na PUC de São Paulo e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Autor com o maior número de livros publicados em psicologia no Brasil, adotados nas principais universidades da América Latina e Europa.

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