Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

Milton Rondó: Das pontes e dos muros

A história é implacável com os tiranos, os que enganam o povo, os que vendem a pátria

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“Quem constrói muros, permanece prisioneiro deles. Os construtores de pontes vão avante.”

Papa Francisco, na volta da visita dele ao Marrocos

Prosseguindo na série “diplomatas natos”, o Papa Francisco – que conseguiu restabelecer as relações diplomáticas entre Cuba e EUA – nos dá outra lição: muros, de qualquer natureza, não devem ser defendidos, construídos ou idolatrados.

 

A mensagem casa-se perfeitamente com a excelente e – para mim – insuperável definição de ideologia por Paulo Freire: todos temos uma ideologia, resta saber se a que defendemos é inclusiva ou excludente.

Por exemplo: quando enuncio algo que os demais 7,5 bilhões de habitantes do planeta sabem ser mentira (deixo uma margem generosa e aproximada de 100 milhões de mentirosos, pois o total da população mundial seria de aproximadamente 7,6 bi) estou sendo inclusivo ou excludente? No caso concreto, refiro-me ao fato de se tentar negar que o nazismo e o fascismo foram e são ideologias de extrema-direita ou que o golpe de 64 não representou ruptura do estado de direito.

Nos primeiros casos – do fascismo e do nazismo – basta lembrar que os nazistas travaram a guerra mais sangrenta de que se tem notícia contra a União Soviética; assassinaram os comunistas em todos os territórios ocupados pelos nazistas e fascistas na Europa; além de massacrarem milhões de judeus; homossexuais; ciganos e Testemunhas de Jeová, entre outros grupos, inclusive cristãos.

Negar as gêneses do fascismo e do nazismo é tentar impedir a compreensão daquele flagelo; trata-se de negacionismo, crime, tipificado em muitos países.

Com efeito, a verdade, que – para os cristãos – libertará, é uma experiência coletiva. Uma “verdade” unicamente minha não pode, por definição, ser “verdade”; talvez, alucinação, delírio ou até crença, fundamentalista.

(Foto: Alberto Pizzoli)

De fato, a verdade requer ponte, diálogo, troca, como bem perceberam, enunciaram e pregaram Francisco (o Santo e o Papa) e Paulo Freire. A verdade difere do dogma, que é indiscutível; trata-se de construção, estrutura que requer mais de uma visão; tem a forma de escultura que para ser corretamente observada requer mudança de ângulo de visão. Vemos o mundo de diferentes pontos de vista, conforme sejamos pobres ou ricos; brancos ou negros; gays ou heterossexuais, para citar uns poucos referenciais.

A democracia está baseada nesse princípio: construção coletiva que respeita as diferenças e se aprimora na medida em que mais visões são incluídas no planejamento, na execução, no monitoramento e na avaliação das políticas públicas.

Nesse sentido, vale a pena refletir sobre a dolorosa e excludente – ao extremo – experiência do nazismo e do fascismo. Muito se pesquisou, escreveu e filmou a respeito, mas eu gostaria de recomendar o imperdível documentário: “Arquitetura da Destruição”, do diretor e roteirista sueco Peter Cohen.

Nele, Cohen busca explicar como um cabo do exército (a semelhança é evidente demais para que não se tente esconder de todas as formas) pôde chegar à chefia suprema da nação alemã, uma das mais cultas da Europa, levando a Alemanha, a Europa e todo o mundo à tragédia por demais conhecida.

Não me permito fazer uma resenha do riquíssimo documentário. Entretanto, devo dizer que, para mim, o fio condutor da catástrofe foi justamente a exclusão, de que falaram o Papa e Paulo Freire. Uma exclusão que se materializa em confinamento e, derradeiramente, em morte.

Uma ideologia que vai pregando a superioridade, a supremacia e, consequentemente, o aniquilamento do outro, do diferente, da alteridade.

 

Livros são queimados (aqui, reescritos); memórias apagadas (vídeos expedidos pelo próprio poder público); opositores são presos (Lula completou ontem, dia 7 de abril, um ano de cárcere sem prova alguma de crime).

O documentário de Cohen, lançado em 1989, foi profético ao demonstrar como o mal ascende em uma sociedade: de forma gradual. No início, os nazistas miraram os doentes mentais (aqui, já se anuncia a volta aos manicômios e ao eletrochoque). Ambulâncias passaram a ter vidros pintados (lembrando as famosas caminhonetes de um importante diário brasileiro nos anos 70, que transportavam presos políticos, opositores do golpe de 1964): os pacientes passaram a desaparecer. Evidentemente, o grupo dos doentes mentais não foi escolhido ao acaso: tinha menor capacidade de defesa e aqui um primeiro traço identificador do nazismo, do fascismo e da ditadura de 64: a covardia, as trevas, jamais à luz operaram, precisavam do engano, da confusão, do desconhecimento.

Por isso, após denunciar no parlamento italiano os crimes cometidos pelos fascistas, o deputado socialista Giacomo Matteotti foi sequestrado e barbaramente assassinado, a punhaladas, em 10 de junho de 1924. O corpo só foi encontrado quase dois meses depois, preanunciando a macabra crueldade das ditaduras latino-americanas, notórias em ocultarem crimes e corpos. Nada sob a luz do sol, mas às escuras, como ainda acontece com tudo o que diz respeito à elucidação do assassinato da vereadora Marielle Franco, covardemente morta há mais de um ano, sem que se conheçam os mandantes do crime que também vitimou o motorista Anderson.

 

Sobre o deputado e filósofo político Antônio Gramsci, encarcerado pela ditadura fascista que igualmente o levou à morte, Mussolini disse: “É preciso que essa cabeça deixe de pensar”.

Porém, às trevas, se sucede a luz, como a bonança à tempestade. A história é implacável com os tiranos, os que enganam o povo, os que vendem a pátria. Assim como o tempo é implacável com os omissos, com os que atravessam a rua ao ver um irmão ou irmã caídos; com os que querem fazer crer que o modelo neoliberal é a panacéia, quando na Argentina um terço da população urbana já está na miséria. Então, os prestidigitadores de aldeia tentam fazer crer que a crise humanitária está ao Norte, não ao Sul, ou neste país com índices de desemprego que já atingem mais de 14 milhões de chefes de famílias.

Não, o neoliberalismo não é ponte para nada, quando muito para o medo, o esquecimento, a morte por estafa, fome e inanição: um verdadeiro muro, de lamentações, a separar opulentos e miseráveis, centro e periferia, vida e morte, em última instância.

Milton Rondó

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