Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Colunas

Masculinismo e supremacismo branco são as únicas ‘ditaduras identitárias’ no horizonte

A ausência de mulheres nas principais chapas presidenciais não é um evento fortuito, mas sintoma de mudanças profundas ocorridas ao longo das duas últimas décadas

Masculinismo e supremacismo branco são as únicas ‘ditaduras identitárias’ no horizonte
Masculinismo e supremacismo branco são as únicas ‘ditaduras identitárias’ no horizonte
Macho alfa. Thiago Schutz não hesita em demonstrar sua “valentia” contra as mulheres – Imagem: Redes Sociais
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A ausência de mulheres nas principais chapas presidenciais não é um evento fortuito, ou a mera exposição de estruturas patriarcais da sociedade brasileira, mas sintoma de mudanças profundas ocorridas ao longo das duas últimas décadas. Há uma aberta influência masculinista na ultradireita brasileira, em boa medida decorrente de velhas crenças – agora toleradas em uma sociedade mais permissiva para falas do tipo –, mas também inspirada em discursos cada vez mais populares globalmente.

Ante o crescimento deste imaginário, aumentam os estímulos a identificar lideranças políticas com certa virilidade masculina, em narrativa que toma as representações ordinárias sobre os homens como sinônimos de virtude. A circulação nas redes de vídeos de candidatos assumindo abertamente seu machismo, como Renan Santos, ou de influencers bolsonaristas atacando o voto feminino e o discernimento político das mulheres, caso de Paulo Figueiredo, não são deslizes ocasionais, mas consequências de um movimento político amplo e articulado. Compreendê-lo é fundamental para explicitar as disputas mais relevantes da política brasileira.

Por vezes, as maiores vitórias não estão em momentos bem delimitados, como nas eleições ou aprovações de projetos de lei, mas decorrem de transformações mais graduais e menos evidentes, que pautam ações políticas futuras. Delimitar o que é ou não disputado, quais são os consensos mais amplos e dissensos abertos, é um dos mais importantes terrenos da política. Quando atos ou discursos antes corriqueiros se tornam algo sobre o qual se temem as consequências, estamos, sem dúvida, diante de um movimento bem-sucedido. Isso vale para grupos à direita e à esquerda. Parte dos avanços da militância feminista ou negra passa não por acabar com o preconceito, mas por aumentar o custo de sua enunciação pública, o que dificulta a reprodução de lideranças, discursos e mesmo a organização de atores para defender certas pautas. 

A construção de um influente campo de ultradireita ao longo das duas últimas décadas vai além de vitórias eleitorais, da formação de coalizões ou do surgimento de novas instituições. Há, por um lado, a normalização do que antes não era tolerado. Discursos há poucos anos tidos como inaceitáveis, ao menos entre boa parte da imprensa e da política institucional, não somente passaram a ser acolhidos como se tornaram corriqueiros. Os limites, em regra, são forçados a partir do cinismo, de modo que se nega de noite a declaração absurda da manhã, que é, por sua vez, retomada sorrateiramente na próxima oportunidade. Por outro lado, tão relevante quanto este fenômeno é o esforço de tornar questionável o que até ontem era rotineiro.

Antes tida como senso comum, mesmo entre os que a ignoravam de fato, a defesa da representatividade passou a ser representada em tons críticos, que vão de menções à ideologia woke até acusações de radicalismo. Tem sido crescentemente questionado o que parecia ser um pressuposto civilizatório do mundo pós-1945: certa ideia de uma igualdade, ao menos no terreno formal. Mesmo os críticos das políticas públicas destinadas a combater a desigualdade, como os neoliberais da Escola de Chicago, não defendiam – ao menos não aberta e constantemente – a superioridade natural de alguns indivíduos. Hoje lidamos com outra direita, que faz das hierarquias sociais um pressuposto e um projeto.

A ofensiva não se resume ao lugar das mulheres. Há uma agenda de semelhante retrocesso em relação à questão racial ou a outras formas de violência de gênero. O tema do presente artigo é, todavia, particularmente didático.


Primeiro pelo número de declarações abertamente contrárias às mulheres, não apenas no Brasil. Um personagem como Peter Thiel, profundamente influente no Vale do Silício e entre as elites trumpistas, responsabiliza o voto feminino pela redução no ritmo do progresso ao longo do último século, em declaração que parecia inaceitável alguns anos atrás. Ele não está sozinho, mas expressa um movimento que vai de lideranças masculinistas ao crescimento de uma sociabilidade misógina, especialmente presente no mundo virtual. Neste ambiente, o elogio à liderança masculina ganha a feição de senso comum, ponto ao qual se chega sem grande esforço.

Pensando no caso brasileiro, surge, porém, uma segunda questão. Aqui, o retrocesso é especialmente evidente quando olhamos para as últimas eleições. Em 2010 e 2014, duas das três candidaturas mais competitivas eram de mulheres, no caso, Dilma Rousseff e Marina Silva. Mesmo em 2018 e 2022 – quando um dos principais candidatos, Jair Bolsonaro, cultivava um discurso abertamente misógino –, havia candidatas a presidente e vice com votações significativas, que, por exemplo, participaram ativamente dos debates televisivos ou tinham algum tempo no horário eleitoral gratuito. O novo cenário da campanha expõe um problema e abre a possibilidade de um futuro ainda mais terrível.

Grande parte da imprensa e da academia é particularmente receptiva a um discurso sobre os excessos do “identitarismo”, espécie de reprodução nacional de uma produção “anti-woke”, bem popular nos Estados Unidos. Em tempos de franco crescimento de um discurso favorável às hierarquias de gênero e raça, talvez seja o momento, ao menos para os preocupados com a continuidade da democracia, de pensar nas consequências e possíveis usos das suas ideias. Afinal, a única ditadura identitária no horizonte é a comprometida com o masculinismo e o supremacismo branco.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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