Política
Voto feminino sob ataque
A machosfera inventa teorias esdrúxulas para naturalizar o avanço contra um direito consolidado
Já virou clichê entre as feministas a frase que a filósofa, escritora e ativista feminista francesa Simone de Beauvoir disse à também escritora francesa Claudine Monteil, quando a amiga celebrou a conquista do direito ao aborto em 1974: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que nossos direitos sejam questionados. É preciso continuar vigilante a vida inteira”. E a todo momento a sociedade faz questão de mostrar que Beauvoir tem razão. O direito consolidado sob ataque no momento é o sufrágio feminino e o inimigo é a chamada “machosfera”, os grupos online onde homens machistas e misóginos se unem para destilar ódio de gênero. Em 87% das mensagens sobre voto feminino compartilhadas em grupos do Telegram, os comentários são de aniquilação, revela um estudo do Desinfopop, laboratório de pesquisa sobre desordem informacional da Fundação Getúlio Vargas. Entre os usuários há um “consenso” de que o voto feminino é “uma das maiores desgraças da humanidade”. Para especialistas, o mais preocupante é que esse discurso não permanece no submundo da internet e contribui para naturalizar esse tipo de opinião na sociedade.
A pesquisadora do Desinfopop Julie Ricard revela que não foi a quantidade de mensagens que preocupou a equipe, mas a unanimidade de opinião. “É inacreditável que em pleno 2026 estejamos vendo um movimento desses contra um direito consolidado”, se alarma. Por mais grave que o discurso seja, ele não está restrito aos masculinistas. Recentemente, a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi declarou, em um quadro de perguntas e respostas no YouTube, ser contra o voto feminino. O episódio rapidamente viralizou nas redes sociais, gerando reações.
O estudo demonstra que os argumentos para impedir o voto feminino apoiam-se em dois pilares. O primeiro diz respeito à essencialização das mulheres, que atribui a elas características supostamente biológicas, ora paternalistas, como o excesso de sentimento, ora abertamente hostis, como o egocentrismo e psicopatia, das quais se deduz inaptidão para o juízo político. O segundo é o aspecto político, criando-se uma crença de que as mulheres votam mais à esquerda, o que seria um problema. Para Ricard, os dois argumentos ameaçam a democracia. A essencialização, no entanto, é extremamente “perigosa”, avalia, porque “elimina qualquer possibilidade de diálogo”. “Se esses usuários acreditam que existe uma natureza feminina inapta à política, seja por excesso de sentimentos ou por serem psicopatas, a exclusão do direito de voto torna-se algo inquestionável e permanente.”
Em qualquer comunidade diversa, uma posição tão extrema geraria pelo menos alguma réplica, avalia Vera Vieira
Ao longo de dois anos monitorando os grupos, os pesquisadores identificaram grande influência da extrema-direita norte-americana no posicionamento contrário ao voto feminino. O impacto externo é tamanho que o pico de mensagens na plataforma foi em agosto de 2025, quando o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, compartilhou em suas redes um vídeo do pastor Doug Wilson defendendo o fim da emenda constitucional que garante o voto feminino nos EUA. “Existe um repertório que se alimenta de fatos e declarações de autoridades, seja do Brasil, seja de outros países, para dar legitimidade a esse tipo de discurso.”
O mais grave dessa postura é mover a “fronteira do dizível”, explica Mário Aquino, professor da FGV e coordenador do Desinfopop. “Existe a redução de um custo discursivo de defender posições que até bem pouco tempo seriam consideradas politicamente indizíveis”, explica. Ou seja, esse é o primeiro passo para questionar “quem merece ser cidadão”. “O discurso começa contra as mulheres, mas rapidamente vai conectar essa legitimidade eleitoral a outras condições, como a prestação do serviço militar, pagamento de impostos e recebimento de benefícios sociais.”
Um bom exemplo foi a participação do deputado federal Paulo Bilynskyj, do PL, em um podcast, no ano passado, no qual ele ataca o direito ao voto de beneficiários de programas sociais: “Quem recebe dinheiro do governo não tem liberdade para votar. (…) Se você quer viver do dinheiro dos outros, você não tem direito de escolher o futuro da nação”, afirmou. Aquino qualifica como “um grande mal” líderes políticos ecoarem no debate público opiniões “que não deveriam fazer parte da discussão porque são inaceitáveis”. Nas eleições deste ano, novamente as mulheres são maioria do eleitorado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, elas representam 52,84% do total nacional. Além disso, costumam ser mais participativas no processo democrático, revela o professor Emerson Urizzi Cervi, coordenador do grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública da Universidade Federal do Paraná. “O voto feminino é mais presente, e as mulheres também justificam mais quando precisam se ausentar das urnas.” O processo decisório das mulheres é mais retrospectivo, explica o especialista. “Isso quer dizer que elas costumam avaliar o governo antes de decidir pela continuidade ou mudança.” E os quesitos estão diretamente ligados à entrega de políticas públicas. “Elas querem saber a qualidade da merenda do filho na escola, se há remédios na farmácia do posto de saúde, se as ruas estão bem iluminadas.”
Diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, a doutora em Comunicação e Feminismo pela USP Vera Vieira considera o Telegram “uma das principais arenas da chamada machosfera, que agrega comunidades de incels, redpills e influenciadores que monetizam o ódio às mulheres”. Esse ataque ao voto feminino, alerta, é o primeiro passo para a violência política de gênero, considerada crime no Brasil desde 2021. O conteúdo debatido nos grupos não é exatamente o problema, analisa Vieira, porque “a misoginia extrema já existe há muito tempo”. O mais grave é a ausência completa de discordância. “Em qualquer comunidade minimamente diversa, uma posição tão extrema geraria pelo menos alguma réplica, ironia, debate. Quando isso não acontece, significa que o grupo já passou por um processo de filtragem. O que resta é um ambiente onde a posição extrema não parece mais extrema, pois se transforma em senso comum local.” Para o discurso de ódio subir à “superfície” da internet, é apenas questão de tempo, explica a socióloga Bruna Camilo, autora do livro Machosfera: Quando a Misoginia Vira Política (Editora Dialética, 2026). “Esses usuários radicalizados não se comportam da mesma forma nas redes sociais abertas, eles mudam o tom, mas o conteúdo de ódio é o mesmo.” Não é tolerável defender o fim de direitos, portanto, a radicalização é apresentada com humor, explica. A regulamentação das redes é o caminho mais sólido para coibir essas práticas, defende. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Voto feminino sob ataque’
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