Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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Lula está certo: o campo progressista sucumbiu ao neoliberalismo

E sucumbirá em eleições se não atentar para o fato histórico, inegável, irreprimível, incontestável, de que a luta de classes é inerente ao capitalismo

Lula está certo: o campo progressista sucumbiu ao neoliberalismo
Lula está certo: o campo progressista sucumbiu ao neoliberalismo
O presidente Lula (PT) durante a 1ª Cúpula Brasil-Espanha. Foto: Oscar Del Pozo/AFP
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Em discurso no encerramento da reunião da Mobilização Progressista Global, no último sábado 18, em Barcelona, o presidente Lula foi implacável com a social-democracia, que cresceu no pós-Segunda Guerra Mundial a partir da Europa e hoje se vê, em todo o mundo, disputando espaço e suas bases políticas tradicionais com a extrema-direita.

Para Lula, a esquerda capitulou: “O campo progressista conseguiu avançar na pauta dos direitos (…) mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos ao neoliberalismo.”

“Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em favor da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema”, disse Lula.

“A extrema-direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras.”

O diagnóstico está mais do que correto e, evidentemente, Lula não se poupa, nem ao seu partido. A luta de classes tem lado, e a esquerda não é esquerda se está do lado do capital, teria dito o velho Karl Marx aos partidos ditos social-democratas do mundo, se vivo fosse. A inflexão do socialismo, na proporção direta da ascensão do neoliberalismo, diluiu a identidade daquele espectro ideológico.

Os governos social-democratas incorporaram a máxima de que não havia saída fora do liberalismo econômico e que nenhum país poderia sobreviver sem se curvar ao capital financeiro internacional, que acumulava riquezas e adquiria poder de vida e morte sobre as economias nacionais.

Dos anos 80 até hoje, o capital financeiro foi visto como um sujeito etéreo, impalpável, sem rosto – e hoje os rostos que mostram são os de oligarcas, os dos plutocratas que embolsaram a maior parte da riqueza mundial e financiam a ascensão de regimes de extrema-direita em todos os cantos do planeta. Com a perspectiva de escassez global de matérias primas, investem também na tomada de territórios por meio de guerras, quando a semeadura de regimes dóceis a eles não dá frutos.

No caso brasileiro, as políticas de distribuição de renda, de combate à fome, de redução das diferenças regionais; as políticas educacionais que permitiram a ascensão social nas camadas mais pobres; a universalização do acesso ao sistema de Saúde; todas elas conviveram com políticas de austeridade fiscal que serviram principalmente para garantir (e expandir) a participação do capital financeiro na riqueza do País, aumentar a concentração de renda e manter o controle deste setor sobre as decisões macroeconômicas.

O malabarismo de manter juntos, no mesmo governo, classes que se opõem não deu nenhuma garantia de estabilidade aos governos petistas. Lula sobreviveu porque tinha liderança, boa parte dela advinda da confiança que a população depositava num seu igual – um homem de origem pobre, ex-operário, sindicalista e político que lutou por eles. Dilma Rousseff sucumbiu ao impeachment que a expeliu do governo no meio do seu segundo mandato.

As concessões feitas pelos governos petistas garantiram apenas uma governabilidade frágil, aquela que sucumbe a um sopro. O capital financeiro não troca vantagens por ideologia, não abandona preconceitos nem compartilha causas como redução da pobreza.

Passados o impeachment de Dilma, em 2016; os 580 dias em que Lula ficou preso, a partir de abril de 2018, por uma artimanha judicial para impedi-lo de se candidatar novamente à Presidência; um mandato de extrema-direita (2019-2022) e uma tentativa de golpe de Estado logo após a posse de seu terceiro mandato (em 8 de janeiro de 2023), o que ficou foi um aturdimento, uma incompreensão sobre o que aconteceu com um eleitorado que morreu como mosca na pandemia e viu o País empobrecer de novo no governo Bolsonaro, mas milita contra seus próprios direitos nas redes sociais e nas mobilizações chamadas pela extrema-direita para protestar contra os direitos adquiridos por sua própria gente. E, além disso, destila ódio contra um partido e governantes que, a partir de 2003 e até 2016, e durante os anos do atual mandato de Lula, melhoraram suas vidas.

Internacionalmente, uma extrema-direita declaradamente a serviço da plutocracia, que mantém uma atuação complementar aos serviços de inteligência do país imperialista e é altamente financiada, promove líderes locais sob o compromisso deles de abertura dos cofres e das riquezas de seus países ao saque do capital internacional, em caso de vitória eleitoral. O país dominante, os Estados Unidos, comandado por um oligarca senil, usa as armas para conter os países que resistem às ameaças contra suas soberanias. E os partidos de esquerda não sabem como sobreviver a esta guerra movida também nos bastidores de um mundo virtual, financiada pelos mesmos oligarcas financeiros que espalham mentiras, atiçam o ódio e capturam um público que deveria, historicamente, lutar contra o grande capital.

A esquerda brasileira não consegue entender como a extrema-direita abocanhou uma parte significativa dos jovens e dos trabalhadores que foram diretamente beneficiados pelas políticas petistas e severamente afetados pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro – que explodiram os índices de desemprego, colocaram a perder as conquistas das políticas contra a fome dos governos petistas e praticamente acabaram com as garantias trabalhistas.

É certo que fake news cumprem o papel de desqualificar as demandas sociais, as políticas governamentais e a imagem de Lula. É certo também que, nesse meio tempo, as igrejas evangélicas emergiram com uma força política rara e se tornaram células políticas da extrema-direita. Mas é necessário reconhecer que o PT e Lula perderam suas qualidades mobilizadoras. O discurso de campanha, ou os pronunciamentos de seu grande líder, não são suficientes para o engajamento dessa massa que agora se joga nos braços da extrema-direita. Palavras geram a adesão apenas dos iniciados em política, dos que carregam a memória dos governos ditatoriais e da origem do PT. Não à toa, o eleitorado em que Lula ainda reina, segundo as pesquisas, é o de idosos.

A consciência de classe não funciona no modo automático. Tem um interruptor. Ele tem de ser acionado de alguma forma. Num mundo que mascarou o fato histórico e inegável de que o capitalismo é dividido em classes, é preciso mais do que afinidade com os anseios da classe trabalhadora para conseguir seus votos. É preciso convencer a ela de que é parte do processo. A consciência começa quando um indivíduo passa a ser tratado como um igual, como parte da luta, não um mero objeto de políticas sociais. É a sensação de pertencimento que leva um evangélico a seguir o pastor, mesmo contra os seus interesses. Um partido tem de ser visto da mesma forma.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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