Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

Lula é mais aceito pelo establishment internacional do que pelas oligarquias locais

O ex-presidente foi capa da revista americana ‘Time’

Foto: Reprodução
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“Tudo é indefinido, nebuloso e transitório; só a virtude é clara, e não pode ser destruída por nenhuma força.”
Cícero.

À virtude, podemos dar muitos nomes: são muitos os adjetivos que se aplicam a uma pessoa virtuosa.

Podemos indagar: na nossa origem não está a virtude da diferenciação, de sermos únicos, mesmo continuando a ser partes de um todo?

Com efeito, se há algo que nos identifica são nossas diferenças, mesmo físicas: de impressões digitais, traços faciais e íris dos olhos, entre outras características, diversas em cada um de nós.

De fato, ao “penso, logo existo” do iluminista René Descartes, talvez pudéssemos agregar “sou diverso, logo existo”.

Nesse sentido, que função teríamos sendo iguais, dobrados, repetidos?

Claramente, a mãe natureza quis e quer-nos diversos, para funções e missões complementares.

Descobri-las pode ser o sentido da vida.

Em “Mitologias Arquetípicas” (editora Vozes), Gustavo Barcellos, cita W.H. Auden sobre a dificuldade de identificarmos nossas estradas, nossos caminhos e metas. Diz o autor anglo-estadunidense: “Nós somos vividos por poderes que fingimos entender.”

Quão difícil é para os humanos não apenas entender as diferenças, compreendê-las e até valorizá-las!

Essa dificuldade perpassa as diferenças de habilidades, raciais e étnicas, entre outras, incluindo as sexualidades e as identidades de gênero, amplíssimas em suas variedades.

Na obra citada, Barcellos também menciona o criador da psicologia analítica, Carl Justav Jung, recordando que: “…a alma é teleológica…ela tem um telos, uma finalidade.”

No intento de compreender essa finalidade, Barcellos faz referência ao mito de Apolo, que busca no distanciamento, no destacar-se do objeto a ser compreendido, um método para sua apreensão. Agrega o autor: “Uma das lições de Apolo é justamente essa: o distanciamento que provoca o conhecimento. Há um conhecimento que é nítido, claro, objetivo, completo, a poética da racionalidade, que só pode ser atingida se houver distanciamento.”

Nesse sentido, a capa da revista “Time”, recém-saída, trazendo a foto do presidente Lula demonstra que é mais fácil para o establishment internacional aceitá-lo do que para as próprias oligarquias locais.

Com efeito, a política não é quadro que se possa olhar de perto, sob o risco de nada ver, ou de se identificarem apenas traços, não o quadro completo ou sequer suas formas ou contornos.

Gustavo Barcellos vai mais além na obra de referência. Ele condiciona a própria existência da pessoa à do outro. Aduz o autor: “Uma das grandes lições aqui é a tolerância, e acho que essa lição está no politeísmo grego em função de Ártemis e de Dionísio, claro mas mais intensamente Ártemis, porque ela representa a xéne, a estrangeira, pois ela está à margem, está fora da polis…eventualmente ela vem à cidade para ajudar as meninas a virarem mulheres, e os meninos a se tornarem homens – mas ela é uma deusa das margens, fundamentalmente “estrangeira” à vida da polis. A ideia da hospitalidade, da importância da recepção civilizada do outro, é uma ideia artemisiana, porque as civilizações pré-helênicas não entendiam isso; quando um estrangeiro entrava eles o matavam. Segundo os historiadores, não existe a ideia de hospitalidade antes dos gregos…eles entenderam profundamente a importância da ideia e da prática da hospitalidade porque perceberam essa função: se não houver o outro, não posso continuar sendo eu mesmo. Se não houver alteridade não há ipseidade” (características que nos diferenciam uns outros).

O autor aprofunda ainda mais essa inter-relação vital entre eu e o outro: “…o Eu precisa do outro para continuar sendo o Eu. Os gregos entenderam ‘o outro como elemento constituinte do mesmo’. Foram os primeiros a perceber isso profundamente: a partir do Outro que se institui o Mesmo. É uma verdade psicológica que está sendo colocada aqui: a lição do mito aqui é que eu só consigo permanecer o mesmo se eu aceitar o outro. Se eu não aceitar o outro, eu deixo de ser eu mesmo. Sem a alteridade, a ipseidade, como um processo contínuo, fica comprometida. E a ipseidade também é uma tarefa importante, também é um mistério: a arte de permanecer eu mesmo, ter uma identidade. A ipseidade é uma tarefa mítica, arquetípica, e ela depende da alteridade.”

Na semana passada, em Porto Alegre, durante o Fórum Social, a bancada negra de vereadoras e vereadores de Porto Alegre criou uma plataforma comum de luta contra o racismo, a homofobia e todas as outras formas de discriminação. Virtuosa iniciativa suprapartidária que pode servir de inspiração para a campanha presidencial que se aproxima, em que deveremos derrotar o fascismo, oposto de toda e qualquer virtude, desrespeitando as diferenças, a alteridade e a própria vida, em última instância.

Para a vitória, adotemos o método da participação popular, o método “como fazer algo”, pois como recorda Barcellos: “Método, em grego meta+hodos, indica ‘caminhos’, jeitos de se fazer alguma coisa, pois a palavra grega para ‘estrada’ é hodos.”

A estrada da democracia popular nos chama: trilhemos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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