Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

Lula acerta

Nesta campanha, até agora, o ex-presidente aplicou o que sabe sobre o Brasil e a política, o que não é pouco

O ex-presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert
O ex-presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert
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À medida que nos aproximamos da eleição, só aumenta o número de brasileiros que acreditam que Lula vai ganhar. Do bilionário ao cidadão comum, quase todo mundo acha que Jair Bolsonaro já era, para a alegria da maioria, que se verá livre de uma coisa ruim. No dia 1º de janeiro de 2023, quando o capitão estiver de volta ao Vivendas da Barra, o País vai respirar aliviado.

A esta altura da campanha, poderíamos estar mais satisfeitos ou, no mínimo, mais conformados. Quem vai votar em Lula, certo de haver escolhido o melhor. Quem não vai, sem medo do que o futuro reserva. Ambos esperançosos, ainda que em graus diferentes. Mas não estamos. Em grande medida porque a nossa elite, diretamente ou por meio de seus porta-vozes, se recusa a admitir um fato óbvio: é por suas qualidades e méritos, assim como aqueles do PT, que Lula lidera as pesquisas e, ao que tudo indica, será o próximo presidente. Mantém sua ligação com o povo. Montou uma boa campanha que, em seu conteúdo e ritmo, é adequada ao momento em que vivemos. Divide a chapa, a melhor e mais forte do ano, com um sujeito de bem. Organizou uma coligação com partidos respeitáveis, sólida e funcional.

Na versão que corre por aí, parece, no entanto, que não é Lula que está vencendo a eleição, é o capitão que a está perdendo. Como se esse personagem patético, com seu séquito de picaretas e incompetentes, estivesse deixando a vitória escapar. Acham, talvez, que ganharia se fosse menos burro.

Isso fica evidente no tratamento que os ricos, o meio político e a mídia corporativa dão à mais recente pesquisa do ­Datafolha, uma espécie de instituto oficial da elite. Ao discuti-la, ninguém reconheceu a principal conclusão que se pode tirar de suas tabelas: que Lula acertou.

Parece que nossa elite não acredita que a preferência por Lula e a disposição de votar em seu nome resultem de decisões racionais, tomadas por eleitores inteligentes. Como disseram em 2014, a propósito daqueles que, no Nordeste, votaram em Dilma Rousseff: “Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”, estimulando o racismo e o supremacismo latentes em nossa sociedade.

Ao longo dos dois governos de Lula, sua popularidade sempre foi menosprezada, como se proviesse de incapazes. Vice-versa, mostrava-se a reprovação como natural entre aqueles de alta escolaridade, que não se deixavam iludir com quinquilharias ou comprar com afagos populistas (como o Bolsa Família). Nossa elite e seus funcionários nunca gostaram dos pobres e, menos ainda, dos políticos e partidos que os representam e promovem.

Nesta campanha, Lula aplicou o que sabe de Brasil e de política, o que não é pouco, considerando que é a maior liderança de nossa história. Para repetir o que ninguém ignora e de onde se deveriam tirar lições: venceu duas eleições presidenciais, mais duas com Dilma, roubaram-lhe a quinta em sequência, e está muito perto de consegui-la agora. Nessa trajetória, nunca recebeu o endosso e o patrocínio da elite brasileira, e sempre enfrentou seus candidatos.

Lula acertou desde quando recuperou os direitos políticos. Com ele acertou o PT, que mostrou a importância de um verdadeiro partido político para alcançar objetivos compartilhados, com a articulação de lideranças, militância, capacidade de organização e mobilização. Desde o início de 2021, o PT dá exemplos diários de foco e disciplina.

Ao contrário do que ocorre normalmente em nossos partidos, amorfos e personalistas, muita gente no PT aceitou sacrificar carreiras e projetos pessoais, admitiu teses de que discordou no passado, não se recusou a desempenhar missões e, às vezes, a permanecer em papéis não merecidos. Assim como durante o período mais difícil que Lula atravessou, o partido foi fundamental ao longo do último ano para que ele chegasse onde está.

Cômico é ver o que nossa elite tem a dizer desses acertos. Nunca faltou alguém para denunciar “os erros de Lula”, os “erros do PT”, as “artimanhas petistas”, as “declarações polêmicas de Lula”. Parece que quem sabe ganhar eleições no Brasil são as redações de alguns jornais ou certos escritórios na Faria Lima.

Confirmada a vitória de Lula, é bom que aprendam a respeitá-lo, a seu partido e aos brasileiros que confiam e votam nele. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1211 DE CARTACAPITAL, EM 8 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Lula acerta”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Marcos Coimbra

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