Lorena Muniz, o SUS e os corpos descartáveis

O silicone, para muitas trans e travestis, não é meramente estético. A luta pelo Processo Transexualizador no SUS vem de encontro a isso

Lorena Muniz/Divulgação

Lorena Muniz/Divulgação

Opinião

Lorena Muniz, 25 anos, maquiadora, casada, amante da cultura popular nordestina, saiu de Pernambuco com destino a São Paulo para realizar o desejo de fazer uma cirurgia para colocar implantes de mama.

Houve um incêndio na clínica em que realizava o procedimento. A jovem, ainda anestesiada, foi deixada no local inalando fumaça, ainda desacordada. Segundo o prontuário médico do Hospital das Clínicas, Lorena ficou sem oxigenação no cérebro e teve o nariz e orelha queimados.

A morte prematura de Lorena Muniz faz parte das vulnerabilidades às quais as pessoas trans estão submetidas. É um longo ciclo que leva ao risco constante em busca de sobrevivência numa sociedade que nos descarta. O fato de você, leitor, ver mulheres trans e travestis apenas nas ruas trabalhando com prostituição diz respeito a isso.

 

Nenhuma estatística no mundo seria capaz de provar porque um determinado grupo de pessoas está massivamente presente num determinado recorte de trabalho, salvo quando analisamos este dado junto a outros indicadores de raça, gênero e classe social. Nós, pessoas trans, que nem consideradas gente somos, aglutinamos um conjunto de abjeções. São necessários muitos outros artigos para descrever essa realidade.

Por que uma pessoa foi deixada sedada na maca enquanto havia um incêndio?

O fato é que somos empurradas de maneira compulsória a toda sorte de vulnerabilidades, desde a expulsão do lar, do trabalho, educação, acesso à saúde e todos os ambientes de sociabilidade saudáveis. Sobre isso, indico o relatório da Antra: Dossiê dos assassinatos e da violência contra pessoas Trans em 2020.

Ao conversar com um médico amigo, também cirurgião, ele me repetiu uma máxima do seu ofício: que um profissional da medicina tem como regra “o paciente em primeiro lugar”. Disse também que, assim como quem capitaneia as embarcações, os doutores são os últimos a abandonar o barco. Esta reflexão suscita o que deve ser o principal questionamento deste caso: por que uma pessoa foi deixada sedada na maca enquanto havia um incêndio?

Durante a pandemia houve uma paralisação de cerca de 70% nas cirurgias e atendimentos previstos para a saúde específica das pessoas trans

O silicone, para muitas mulheres trans e travestis, não é um procedimento meramente estético. É, principalmente, uma possibilidade de exercício de nossas identidades. No decorrer da história, fomos buscando meios para nos garantir um mínimo de conforto com a autoimagem. Qualquer menção a “escolha” é injusta e transfóbica.

A luta pelo Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde existe desde 2008, e vem de encontro a isso. Compreender a importância desse processo é garantir um acesso de qualidade para todas as pessoas trans. Nossas especificidades devem ser vistas, assim como de outros cidadãos e cidadãs. E o Sistema Único de Saúde deve ser mediador e responsável pelo o acesso à integralidade de nossa saúde.

No entanto, sabemos que há uma fila de espera de anos para o acesso aos procedimentos previstos no SUS, que enfrenta dificuldades pela falta de investimentos e pelos congelamentos dos gastos em saúde, onde não há profissionais, hospitais e ambulatórios suficientes no País.

Durante a pandemia, por exemplo, houve uma paralisação de cerca de 70% nas cirurgias e atendimentos previstos para a saúde específica das pessoas trans.

Não pretendo criar disputas entre as necessidades em saúde porque, inclusive, como gente que somos (embora duvidem), precisamos de todo atendimento que não se aplica ao processo transexualizador. Acreditem, nós temos rins, fígados, coração, cérebro, pele… Lorena, tinha uma vida, marido, mãe, avó, tias, primos, amigos e sonhos, muitos sonhos.

O que quero também chamar atenção é para a ideia corrente de que este processo é supérfluo, um capricho. Quem assim pensa não sabe o que é saúde mental, tampouco desconhece os procedimentos precários com silicones industriais e ingestão de medicação sem acompanhamento, entre outros.

Ora, se fazemos parte deste mundo, como seres viventes, temos o direito assim como todos os outros de termos nossas realidades previstas como parte das singularidades de cada grupo quando se trata de acesso à saúde.

Ou então, assumam de uma vez por todas que nossas vidas não importam!

O que nos leva a procedimentos em locais inadequados é uma soma de fatores que, infelizmente, fazem parte na vivência de uma pessoa trans no Brasil. É um projeto de desumanização.

Me indigna ver pessoas que vivem fazendo todo tipo de procedimento cirúrgico e estético acharem-se no direito de falar o que é certo e errado quando se trata do corpo alheio.

Embora a fila de tratamentos estéticos de diversas ordens no Brasil – que faz do país o campeão de cirurgias plásticas no mundo – seja encabeçada por pessoas cisgênero (ou seja, não trans), por que quando se trata dos nossos corpos, isso  torna algo bizarro? Isso, na realidade, é só a velha transfobia de sempre!

O SUS é um patrimônio incalculável do povo brasileiro. Deve ter amplo investimento e responsabilidade na gestão.

Nós, pessoas trans, devemos fazer parte disso.

Lorena Muniz foi sepultada no dia 26 de fevereiro de 2021 no Cemitério São José, na cidade de Paulista, região metropolitana de Recife (PE). O Ministério Público do Estado de São Paulo, a Defensoria Pública e a OAB seguem averiguando o caso. À família de Lorena, à Lorena e a todas as vítimas dessa sociedade violenta, meus profundos sentimentos.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Pernambucana, artista e educadora. Mestra em Estética e História da Arte, tornou-se a primeira deputada estadual trans eleita no Brasil, em 2018.

Compartilhar postagem