Lembrem-se: às vésperas de 64, João Goulart tinha cerca de 70% de aprovação

Quando se precisa afirmar mensalmente que as instituições estão funcionando e não há perigo de golpe, nada está funcionando como deveria

A essa altura não há blefe, mas investida (Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo)

A essa altura não há blefe, mas investida (Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo)

Opinião

A quinta-feira começou com uma notícia corriqueira na nossa nova normalidade política e (anti)democrática: um outro general teria mandado um recado golpista, via interlocutor, ao presidente da Câmara Arthur Lira. Segundo o Estadão, o general Walter Braga Netto, ministro da Defesa, teria feito Lira saber que só haveria eleições em 2022 com voto impresso. Uma clara demonstração, para quem ainda precisava de uma, de que as ameaças feitas pelo presidente não são arroubos idiossincráticos de um aloprado solitário. 

Há algumas semanas, escrevi para CartaCapital uma lista relativamente extensa com a quantidade de vezes em que militares de alta ameaçaram e emparedaram as instituições com ameaças golpistas nos últimos anos. Não precisarei revistar aqui, portanto, as evidências de que Jair Bolsonaro não é um lunático, muito menos solitário, mas parte de um projeto de poder militar que é antidemocrático em seu nascedouro.

Como já de praxe na comunicação bolsonarista, Braga Netto reagiu à notícia com um nota superficial, escapista e tergiversante. Muitos veículos e comentaristas a consideraram uma negação de que tenha havido o episódio relatado pelo Estadão. Não é. O ministro da Defesa apenas afirmou que não usa interlocutores para se comunicar com os chefes dos Três Poderes. E reforçou, ao final, sua defesa do voto impresso. Seguiu a cartilha bolsonarista mais básica: no primeiro ato, faz-se uma ameaça; no segundo ato, diz que a ameaça não foi uma ameaça, para reforçar o teor da ameaça; o terceiro ato, que certamente virá, é uma nova ameaça. 

 Eu compreendo o ceticismo e confesso adorar a bravura das bravatas que desafiam os golpistas. Mas temo que as coisas não sejam tão simples. Por duas razões. 

Arthur Lira, por sua vez, não confirmou nem desmentiu o ocorrido. Deu de ombros e se dedicou a rezar uma prece já tão comum quanto desvairada: as instituições estão funcionando, as eleições de 2022 acontecerão e a vontade da maioria, aferida pelos votos, será respeitada. Ora, quando um País precisa afirmar ao menos uma vez por mês que as instituições estão funcionando, que não há perigo de golpe e que as eleições acontecerão num estado de normalidade, é porque nada está funcionando como deveria. O futuro desses eventos é  para ser um pouco otimista no mínimo, incerto. 

Na contramão desse torrente de ameaças, tem crescido a quantidade de pessoas que, com justificada impaciência, alegam que os arroubos golpistas do presidente e militares são puro blefe. Não existiriam condições para um golpe, porque não há apoio social e respaldo internacional. Também duvida-se de como seria “o depois” desse golpe. Ou seja: golpear seria fácil, o problema seria a continuidade.

 Eu compreendo o ceticismo e confesso adorar a bravura das bravatas que desafiam os golpistas. Mas temo que as coisas não sejam tão simples. Por duas razões. 

Primeiro porque não estamos falando de um aventureiro. Jair Bolsonaro não é um bufão com apoio frágil e de conveniência como foi Fernando Collor de Mello. Bolsonaro é um projeto militar, um presidente que não é causa de nada, mas consequência do apetite pelo poder de amplos setores das Forças Armadas, que não engoliram as duas décadas de tutela política enfraquecida sobre a nossa democracia. 

A segunda se deve ao fato de não estarmos falando, exatamente, de uma aventura, mas de um tapete que já vem sendo bem tecido, ao menos desde 2016, quando o Brasil resolveu fazer um brincadeirinha com a democracia derrubando, fraudulentamente, uma presidente eleita com menos de 2 anos de mandato cumprido e mandando em cana, em 2018, sob aplausos da opinião pública, o favorito na corrida presidencial. Se hoje falamos quase que semanalmente da possibilidade de golpe, exposta com cada vez menos  pudor, é porque golpe deixou de ser novidad. Tem precedente, e bastante recente. 

 

Encerro esta coluna propondo um pequeno exercício de imaginação: Fim de 2022. Voto impresso ou eletrônico. Não importa. Dá no mesmo e já expliquei aqui o porquê. Jair Bolsonaro perde as eleições após a apuração das urnas. Agravemos o cenário: perde para Lula. O presidente faz um pronunciamento à Nação e diz que não perdeu. Que tem provas de fraude. Diz que não vai sair e que continuará governando para o povo, pela liberdade dos brasileiros, em defesa da democracia, respeitando a soberania popular e lutando para que o Brasil tenha uma eleição limpa, justa e sem fraude. 

Jair Bolsonaro sabe que não precisa provar nada. Não precisou até agora. Não deixou de insistir na acusação de fraude. E nunca teve que responder por isso. Basta ter uma quantidade relativamente grande de relatos de problemas com urnas ou contagem de votos circulando pelas redes para criar um clima de opinião, se não favorável, ao menos controverso ao ponto de gerar dúvidas e ceticismos. Assim como para mobilizar suas bases, principalmente a armada. 

O atual presidente e seus militares sabem que, chegando a esse cenário em 2022, não precisariam de apoio amplo e majoritário a um golpe. Basta convencer, talvez, aquela faixa da população que importa, os que possuem algum tipo de poder na sociedade brasileira. Lembrem-se: às vésperas de 64, João Goulart tinha cerca de 70% de aprovação. Quantas pessoas estavam na Marcha da Família com Deus pela Liberdade? Certamente não havia a maioria que alegam necessária para os militares e Jair Bolsonaro tocarem seu projeto de virada de regime. 

 

Creio que são as respostas a essas perguntas que importam para pensarmos na viabilidade de um golpe  – que será vendido como uma medida corretiva contra investidas antidemocráticas por meio de fraude eleitoral. Quantos ministros ficarão nesse barco? Quais pularão fora? Quantos militares? Quantos policiais? Quantos representantes do “mercado? Quantos empresários? E na opinião pública? De quantos Lacombes, Sikêras, Copollas, Alexandres, Ledas, Ratinhos precisa essa empreitada? Quantas Record e RedeTv? Quantos sites, blogs, blogueiros, páginas e influencers de redes digitais? De quantos grupos no WhatsApp e Telegram? 

De quantas instituições frágeis e passivas que apostam na domesticação de um projeto golpista declarado precisa Jair Bolsonaro para chegar em 2022, numa posição eleitoralmente desfavorável, para se recusar a deixar a cadeira presidencial? Ainda mais se for para dar lugar ao ex-presidente Lula? Eu respondo: precisa apenas destas que nos acompanham e que se especializaram em soltar notas de repúdio, convocar presidente para fazer uma reunião de armistício para dizer o que a Constituição já diz literalmente e para vender a farsa de que o nosso futuro é de alvissareira normalidade. Basta, igualmente, ter o monopólio do uso da força e da violência do Estado ao seu lado e a serviço de um projeto de poder militar que o transcende. 

A essa altura não há blefe, mas investidas. Ignorar a gravidade desse momento e os desafios que já estão postos é subestimar o bolsonarismo mais ou menos como foi subestimado até 2018. Eis onde chegamos.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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