Rita von Hunty

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Opinião

Leite branco, morno e semidesnatado

É preciso ressaltar o oportunismo político e midiático da saída do armário do governador Eduardo Leite

O ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB). Foto: Itamar Aguiar/ Palácio Piratini
O ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB). Foto: Itamar Aguiar/ Palácio Piratini
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Reivindicar-se gay em rede nacional, ocupando uma posição de destaque no Poder Executivo sem nunca ter lutado por políticas de acesso e melhora das condições de vida para população LGBTQIA+ é, no mínimo, oportunismo midiático.

À medida que o bolsonarismo rui, oportunistas abandonam o barco. Não é novidade, convenhamos: que Bolsonaro era um torpe, inábil, corrupto e imbecil todos sabíamos. Que era perverso, cruel e incapaz, também, mas era útil aos interesses do grande capital, que o manobrou a fim de que operasse, juntamente com sua corja de abjetos milicianos, uma agenda de reformas em ofensiva contra a classe trabalhadora. 

Talvez o mais flagrante dessa manobra interessada resida em dois fatos absurdos do cenário político brasileiro atual. Primeiro, que o calhorda siga, há mais de um ano e meio, sem partido político, comprando o apoio dos setores que fazem política em troca de cargos, vagas, indicações e posições. Segundo: mesmo após uma série de crimes de responsabilidade (praticamente todos aqueles previstos na Constituição), Rodrigo Maia, que conseguiu a façanha de ser expulso do DEM, e Arthur Lira (PP) tenham seguido com condutas indiferentes em relação aos 120 pedidos de impeachment.

Outro ponto na análise da conjuntura em que o governador gaúcho Eduardo Leite “se assume” publicamente é o rumo da CPI que investiga por que o País teve uma das lidas com a pandemia mais desastrosas e letais do mundo. É um ponto importante de desnudamento dos absurdos da gestão criminosa bolsonarista, na qual há muita corrupção, prevaricação e descaso. Mas nada disso é, reitera-se, novidade. Não esqueçamos que o à época vice-líder do governo, senador Chico Rodrigues (DEM), foi detido com 33 mil reais na cueca desviados da Saúde. Curioso é notar que à medida que nos aproximamos do fim do desgoverno Bolsonaro, seja cronologicamente, seja devido ao desgaste político e achincalhamento público que três meses de CPI gerarão (isto se não for prorrogada, ou se não conduzir inevitavelmente à abertura de um processo de impeachment), sintomas mórbidos começam a aparecer.

Que um homem desempenhando a função de governador de um dos estados mais machistas e reacionários do Brasil se assuma gay poderia ser motivo de orgulho, mas apenas em análise superficial e despolitizada. Ao olharmos atentamente para o cenário político, não é difícil perceber o oportunismo da declaração, ao passo que setores da burguesia conclamam uma “terceira via” para 2022. Se o ex-presidente Lula, indesejável para esses setores, começa a despontar com vantagem nas pesquisas e o também indesejável Bolsonaro começa a ruir, é apenas natural que observemos, nos próximos meses, tentativas de se “construir” um candidato para as opiniões públicas. Leite pode ser um desses investimentos. E sua “saída do armário” deve ser recebida de forma crítica, uma vez que ele foi apoiador do desgoverno que vivemos, inclusive declarando esse apoio antes das eleições de 2018. Seu partido, o PSDB, tem atuação parlamentar na Câmara com quase 100% de alinhamento com o bolsonarismo. Isto se parece com um aliado? 

Embora esperássemos que a resposta óbvia e de pronto fosse um sonoro e nítido “não”, o momento despolitizado, superficial e imediatista que atravessamos mostrou o episódio como um acúmulo de capital político para o governador. Isto sim é o que se pode chamar de “identitarismo”. A “identidade” de Leite não é, por si só, política, mas os usos que dela são feitos com certeza são. Em paralelo pode-se pensar em outros, de grupos minorizados que atuam politicamente não a favor desses grupos, mas contra eles. É o caso de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, negro que declarou recentemente em suas redes sociais que não existe racismo no Brasil, ou da ministra Damares, marcadamente reacionária no que diz respeito às pautas emancipadoras das mulheres. 

Não bastasse o apoio a Bolsonaro, a origem e a atuação política, Leite também se expressa de maneira contraproducente para a comunidade LGBTQIA+. Ao defender que gostaria de ser pensado como um governador gay e não um “gay governador”, ele inverte sujeito e predicado. Leite não “é” governador, ele apenas exerce esse cargo nesta fase de sua vida. Leite “é” gay, ao menos que possa assumir outra identidade sexual, e deveria lutar em nome daqueles que, como ele, sabem o que essa identidade implica na vida em sociedade no Brasil. Leite também parece alheio ao fato de que tal inversão é um privilégio apenas possível para homens cis, brancos de classe média que podem passar despercebidos em suas homossexualidades. Ao aproximar-se tanto da posição normativa de poder, o tucano parece ignorar que a política não é feita no campo das abstrações sintagmáticas, mas na realidade violenta e impiedosa à qual sua comunidade está submetida.

Publicado na edição nº 1165 de CartaCapital, em 8 de julho de 2021.

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