Mino Carta: Jair Bolsonaro quer o povo armado. Contra quem?

O projeto bolsonarista parece, contudo, ter assumido uma complexidade maior, bem como a ambição de poder do ex-capitão

Mino Carta: Jair Bolsonaro quer o povo armado. Contra quem?

Opinião

A capa traz à ribalta aquele que ao governar o Brasil descasca um abacaxi. Pergunto-me se este pensamento explicitado mais de uma vez se afina com o propósito de convocar o povo brasileiro a se armar para sustar no nascedouro qualquer veleidade golpista, conforme o apelo mais recente. De onde vem a ameaça não está claro. A chance de o ex-capitão ser apeado pelos generais já arrepiou os comentaristas, embora significasse o tombo da panela para a brasa. O projeto bolsonarista parece, contudo, ter assumido uma complexidade maior, bem como a ambição de poder do ex-capitão.

Jânio Quadros, ao renunciar em agosto de 1961, apostou na revolta popular que o levaria de volta ao poder exercido por uns escassos meses, como no caso de Bolsonaro. JQ pertencia à categoria daqueles que não conhecem seu próprio país. Naquele fatídico dia, o Santos de Pelé jogava em Montevidéu e a renúncia dissolveu-se no gooool. O ex-capitão vai aparentemente direto ao ponto: percorre em sentido contrário quanto Chávez fez na Venezuela. Insisto no advérbio, aparentemente. O jogo de Bolsonaro é atrabiliário e peripatético, o que diz hoje está sempre sujeito a mudanças repentinas amanhã.

Isso tudo cabe à perfeição na demência bolsonarista, mas não é árduo entender o significado de uma convocação do povo, diretamente visado. Foi esta, de certa maneira, a forma da pregação bolivariana, de sorte a permitir que Chávez se erguesse acima das instituições, dos poderes republicanos, para assumir o comando absoluto pelo tempo que bem lhe aprouvesse. Seria a esta confortável, ditatorial situação que Bolsonaro aspira? Recomenda-se levar em conta que a ideologia chavista, a favor dos pobres, é oposta à manicomial-bolsonarista e que a Venezuela não é o Brasil. Aviso aos torcedores: as considerações acima não se revestem da mais pálida relação com a refrega futebolista da noite de terça 18.

A Venezuela vive hoje em estado de guerra civil e as forças envolvidas estão sempre prontas a se engalfinhar em praça pública. A Venezuela nasceu de uma guerra de independência e seu herói é Simón Bolívar, cuja sombra se alastra sobre toda a América Latina hispânica. Por aqui, a maioria nem percebeu que a independência resultava de uma disputa dentro da corte portuguesa e nada ganhou concretamente com o gesto de Pedro I. O eco do grito do Ipiranga soa até hoje como clangorosa patetice. Sem falar dos mexilhões estragados servidos à mesa da marquesa de Santos.

Nunca houve rupturas sangrentas. Contamos, diversas vezes, com torturadores exímio e nosso herói é o Duque de Caxias, que exibiu a ferocidade brasileira capaz de produzir um genocídio no Paraguai invadido. Este momento histórico é representativo da índole nativa: só vale a pena brigar quando estamos em maioria esmagadora. Nosso povo é primário e ignorante porque a tanto o reduziram a opressão da casa-grande e três séculos e meio de escravidão, de verdade ainda em andamento.

Não há redenção nacional sem um ajuste de contas, mas quem sabe disso, poucos creio eu, sabe também que não convém acreditar em milagres. Espero que o presidente Bolsonaro não tenha percebido a natureza profunda do povo a que se dirige, e confirme a demência das suas ambições.

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