Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Isso tem nome. Chama-se fascismo

A PF que autoriza agentes a interferir nas questões do Enem anda lado a lado com a PM que intima uma professora

Estudante se preparando para prova do Enem. Fonte: Shutterstock
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O tema central do debate político dessa semana foi a educação. Não por motivos alvissareiros, mas pela reprise muitos de nossos antigos flagelos com requintes de novidade próprias da Era Bolsonaro.

A cobertura jornalística destacou ao menos três fatos que favorecem essa constatação: a ingerência política e os crimes cometidos por agentes do governo e do Estado contra o Enem; a repercussão de um caso de racismo envolvendo estudantes de uma escola privada em Salvador e, finalmente, na mesma cidade, o caso de censura e repressão policial a uma professora de filosofia do colégio estadual Thales de Azevedo, localizado no bairro Costa Azul.

Não se tratam de casos isolados. Estão correlacionados em muitos aspectos e apontam tanto para problemas antigos que foram vendidos como novidades, quanto  para novidades, digamos, algo previsíveis.

O caso do colégio Thales de Azevedo – que leva o nome de um renomado intelectual e etnógrafo baiano que ganhou notoriedade nas ciências sociais tratando de temas como preconceito, miscigenação e desigualdades sociais – envolve uma aluna que, conforme indica a apuração jornalística, vinha se incomodando com o modo como uma professora de filosofia conduzia sua disciplina.

Em agosto, após um seminário com parlamentares e lideranças de movimentos sociais, incluindo aí de movimentos negros, a aluna teria criado um grupo para mobilizar reações dos colegas ao que ela compreendia como conduta indevida da professora. Segundo colegas, a aluna em questão teria dito que era um absurdo “não ter aula de química e física para ter aula de comunismo e macumba”.  Se não há aula de química e física, ela tem razão. É um absurdo. Mas diante da menção a “comunismo” e “macumba”, parece que as ciências exatas aparecem apenas como muleta retórica.

Comunismo, ao que tudo indica, é como a aluna interpretou questões relativas ao Iluminismo francês: liberdade, igualdade e fraternidade. Macumba, na acepção pejorativa, não entra na história à toa quando a reação surge logo após lideranças do movimento negro se apresentarem em um seminário.

Há uma reação preconceituosa às religiões de matriz africana. Eis o elo claro com o segundo caso que acontece na mesma cidade que, por sua vez,  tem a maior população negra fora do continente africano. Um estudante do colégio Portinari, não muito distante do colégio Thales de Azevedo, insultou, com dizeres racistas e licença poética paulo guediana, uma de suas colegas, filha do porteiro da instituição.

No entanto, não sejamos ingênuos de achar que o caso envolvendo a professora de filosofia é exemplo exclusivo do pensamento da extrema-direita obscurantista no que diz respeito a um certo modo de ativismo estudantil.  Dogmatismos e reações virulentas e obtusas podem vir de estudantes completamente refratários à direita.

Conheço muitos e muitas colegas de profissão que evitam discutir certos temas em sala de aula. Vejam só a que ponto chegamos: censura auto-imposta. Já cansei de receber “reprimendas” indignadas por ter dito obviedades, como a relação evidente entre a noção de propriedade privada da filosofia liberal – a propriedade de si – e o argumento pró-aborto ancorado na noção de que a mulher, assim como qualquer indivíduo sob uma lógica liberal, é proprietária de seu corpo, suas ideias e suas ações, e não o Estado, algum indivíduo ou coletivo.

Como se diz na Bahia, “recebi nos peitos” o tradicional fenotipismo iliberal dos nossos atuais progressistas: “Como você pode dizer que isso tem origem no pensamento de homens brancos, europeus, héteros, cis? Não pode!”. Mas essa é batalha boa. Alunos e alunas ainda podem mudar.

O caso do colégio Thales de Azevedo, portanto, não se destaca pela reação ativista da aluna, mas de como ela sabia que seu ativismo encontraria guarida na exclusividade do uso da força pelo Estado. A aluna fez uma queixa em uma delegacia que, por sua vez, encaminhou à professora uma intimação policial por suspeita de ensinar conteúdos de cunho “esquerdista” e “de doutrinação feminista”.

Eis o ponto: a aluna que me “repreendeu” jamais conseguiria colocar um policial no meu encalço se procurasse ajuda em uma delegacia para reprimir minha liberdade de cátedra.

Eis o elo final. A Polícia Federal que autoriza agentes a invadirem um espaço restrito para interferir no processo de composição das questões do Enem anda lado a lado com o delegado da Polícia Militar que intima uma professora de filosofia no seu pleno exercício do direito de lecionar. Temos, claramente, não apenas o avanço da politização  as forças de segurança do Estado, mas da conversão dessas convicções em ataques contra direitos e liberdades, com propósitos políticos claros e obedientes a um poder central.

Isso tem nome. Chama-se fascismo.

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