Há cinco anos, o processo democrático no Brasil sofria um duro golpe

O 17 de abril é uma data para ser lembrada como o dia em que nossos sonhos foram roubados, escreve o deputado Henrique Fontana (PT)

Foto: Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil (29/08/2016)

Foto: Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil (29/08/2016)

Opinião

Há cinco anos, o processo democrático no Brasil sofria um duro golpe. Culminando um boicote sistemático por parte dos candidatos derrotados nas eleições de 2014, foi aprovado o impedimento da primeira mulher presidenta da República em um processo de impeachment liderado pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, mergulhado em graves denúncias de corrupção que o levariam à cadeia.

O golpe contra Dilma Rousseff interromperia um ciclo de desenvolvimento econômico com inclusão social inaugurado durante o Governo do presidente Lula que teve continuidade nos mandatos da presidenta. Nesse período, o Brasil tornou-se a sexta maior economia do mundo, alcançou praticamente uma situação de pleno emprego e reduziu drasticamente as desigualdades sociais, deixando de fazer parte do mapa da fome. Programas como o Bolsa Família, o Pronatec, de qualificação profissional, o aumento real do salário-mínimo e a industrialização do país através, principalmente, dos polos navais descortinaram amplas possibilidades para o nosso país e o nosso povo.

O golpe reverteria esse processo de forma drástica.

Aliado aos golpistas, Michel Temer prestou-se ao trabalho de desmonte. Através da PEC 241, sob o pretexto de cortar os gastos públicos, Temer congelou os investimentos em Saúde e Educação por vinte anos. Sua reforma trabalhista acabou com direitos, não gerou empregos e precarizou as relações de trabalho. Sua reforma da Previdência aumentou as desigualdades e obrigará os cidadãos a trabalharem mais e ganhar menos quando se aposentarem. Os polos navais do Rio de Janeiro e do porto de Rio Grande foram sucateados, o Pré-Sal, cuja receita seria destinada em grande parte a qualificar o ensino público, foi retalhado e entregue ao capital estrangeiro de forma criminosa.

O golpe teve continuidade com a perseguição jurídica e midiática contra o ex-presidente Lula, processado e preso em um julgamento vergonhoso. Com Lula impedido de concorrer, quando estava à frente nas pesquisas, o golpe completa-se com a eleição de Jair Bolsonaro e a escolha de Sergio Moro, autor da sentença infame, para ministro da Justiça.

Desde o golpe, o Brasil perdeu. A gestão desastrada do Bolsonaro e seu super-ministro Paulo Guedes fez nosso país desabar no cenário internacional. Sua posição no ranking das economias recuou para o 12º lugar. A concentração de renda faz crescer a miséria. Nosso país voltou ao mapa da fome que hoje atinge 19 milhões de brasileiros. O desemprego alcança 14% da população e políticas públicas de caráter social são cada vez mais esvaziadas.

A gestão genocida e negacionista de Bolsonaro diante da pandemia tornou o Brasil uma ameaça mundial, pelo acelerado aumento de contaminações e de mortes. Um terço dos óbitos diários por covid no mundo acontecem em nosso país. Os atrasos na compra de vacinas e o permanente boicote do governo aos protocolos internacionais de enfrentamento da pandemia criam um campo fértil para o surgimento de novas variantes.

Dilma foi inocentada de todas as acusações que embasaram o impeachment. A anulação das condenações de Lula e a suspeição de Moro decretadas pelo Supremo Tribunal Federal evidenciam uma perseguição política cujos resultados afetaram diretamente a vida de milhões de brasileiros para pior e comprometeram gravemente a imagem do país.

O golpe contra Dilma foi um golpe contra o Brasil, contra uma ideia generosa de nação mais igualitária e mais justa. 17 de abril de 2016 não é uma data para ser esquecida e sim para ser lembrada como o dia em que nossos sonhos foram roubados. Para que aquela tragédia nunca mais aconteça.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É deputado federal pelo PT do Rio Grande do Sul

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