Cláudio Couto

Cientista Político na FGV-EAESP

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Guerra espiritual

A tática da extrema-direita de demonizar os adversários representa uma afronta ao Estado laico e à própria democracia, que pressupõe o respeito à pluralidade

Guerra espiritual
Guerra espiritual
Flávio Bolsonaro na 34ª Marcha para Jesus, em São Paulo, em 4 de junho de 2026. Foto: Miguel Schincariol/AFP
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Na quinta-feira 4, feriado do Corpus Christi, a cidade de São Paulo abrigou a já tradicional Marcha para Jesus, capitaneada pelo casal Estevam e Sônia Hernandes, líderes da neopentecostal Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Como de costume, além de milhares de fiéis, marcaram presença na manifestação religiosa diversos políticos, quase todos de direita ou ultradireita. Dentre eles destacavam-se o governador paulista, Tarcísio de Freitas, o prefeito paulistano, Ricardo Nunes, e o candidato presidencial do PL e de sua família, Flávio Bolsonaro. Mais discretamente compareceu o advogado-geral da União, Jorge Messias, cumprindo o duplo papel de representar o governo Lula e os evangélicos de esquerda.

Também como de hábito, os políticos direitistas fizeram da Marcha um evento político-partidário, neste ano especialmente eivado de caráter eleitoral. E o filho Zero Um de Jair Bolsonaro não aliviou na vinculação entre religiosidade e proselitismo polarizador. Do alto de um palco, envergando uma camisa azul ­Lacoste estampada com o tema do evento, desafinou um hino gospel e proclamou não estar ali como candidato, mas como cristão. Apesar dessa ressalva, logo emendou: “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E, hoje, é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo­ do mal, que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano. Em nome do Senhor Jesus, Amém!” Para expressar mais claramente seu intento e o sentido de sua intervenção, talvez devesse ter substituí­do “orar” por “votar”. Mais do que orações, inclusive para seu pai em prisão domiciliar, Flávio pedia votos.

Não se trata de mera instrumentalização da fé pela política, por si só algo inaceitável num Estado laico. Há outro aspecto especialmente preocupante nessa manifestação do candidato de ultradireita: a transformação da disputa democrática numa contenda entre o bem e o mal absolutos. A noção de guerra espiritual por ele invocada supõe um enfrentamento entre as forças de Deus e as de Satanás. E, para que não houvesse dúvida, Flávio deixou claro que o mal deveria “ser expulso do governo do Brasil”, no momento ocupado pelo presidente Lula, do PT. A demonização dos oponentes, aqui, não é apenas metáfora, foi feita diretamente.

Nisso, justiça seja feita, Flávio não inovou, nem sequer no âmbito do bolsonarismo. Na campanha de 2022, sua madrasta, Michelle Bolsonaro, repetiu essa mesma cantilena em repetidos eventos pelo Brasil. A então primeira-dama foi bem clara ao descrever a destinação dada às dependências do governo pelos antecessores de seu marido (por seguidos mandatos, petistas): “Durante muito tempo, aquele lugar foi consagrado a demônios, cozinha consagrada a demônios, Planalto consagrado a demônios, e hoje é consagrado ao Senhor Jesus”, disse ela num culto-comício realizado em Belo Horizonte, na Igreja Batista da Lagoinha – a mesma frequentada por Daniel Vorcaro e seus parentes. Assim, enquanto o exercício governamental pelos adversários teria significado consagrar o País e seu governo a Satanás, a gestão de seu marido os exorcizara, colocando-os nas mãos de Deus.

Tal associação não foi esporádica, mas um mantra da primeira-dama naquela campanha eleitoral. Noutro culto-comício, desta feita em Goiânia, disse Michelle: “A gente luta contra a luz das trevas, contra o mal que quer ser instalado no nosso País. E a gente vê como o inimigo é sujo, é astuto, agindo dentro da casa do Senhor”. Em Porto Alegre, ressignificou a sigla do PT: “Precisamos dissipar esse câncer que foi o Partido das Trevas do Brasil. Estamos vivendo uma guerra espiritual do bem contra o mal”. Em Brasília, pontificou: “Não estamos lutando contra homens e mulheres, mas contra principados e potestades. É uma guerra espiritual. Só não vê, só não enxerga quem não quer. Aquele que é baseado na palavra, tem sua fé fundamentada na Bíblia, sabe que nós estamos lutando contra as hostes espirituais malignas”.

Tal discurso é incompatível com a democracia, pois esta supõe o pluralismo, no qual posições divergentes e adversários são legítimos. Imputando-lhes uma natureza demoníaca, em mensagens destinadas a um público para o qual tal diferenciação é uma questão existencial, o bolsonarismo sinaliza que seus oponentes não são partícipes legítimos do jogo democrático, mas diabos traiçoeiros. E, na guerra contra tais entidades, qualquer recurso é lícito – mesmo a violência. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Guerra espiritual’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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