Guilherme Ravache

Consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Opinião

Guerra civil pelo lucro: como a luta pela sua atenção destrói a democracia 

As gigantes de tecnologia ganham dinheiro com seus usuários. Mas não apenas usando seus dados

(Foto: iStock)
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Um usuário é “mais valioso quando é enviesado, indignado, polarizado, mal informado, narcisista e se preocupa com a atenção de outras pessoas”, diz Tristan Harris, ex-funcionário do Google e estrela do documentário O Dilema das Redes. “As empresas estão em uma corrida pela oferta finita de atenção humana. E a atenção está acabando” 

Assim como as empresas de petróleo recorrem ao fracking (fraturamento hidráulico injetando água no solo e causando grandes estragos) quando os poços começam a secar, compara ele, as empresas de tecnologia “têm que se aprofundar no narcisismo” quando a atenção começa a se esgotar.

 Harris, é o cofundador do Center for Humane Technology. Semana passada, ele deu uma entrevista ao jornalista Brian Stelter no Reliable Sources, da CNN, nos Estados Unidos. Se você gosta de mídia e tecnologia, vale ouvir o que Harris tem a dizer.

As armas na guerra pela atenção

Embora Harris centre suas críticas nas redes sociais, a descrição da crescente batalha pela atenção serve a todas as formas de conteúdo e empresas de mídia, sejam as gigantes de tecnologia ou os grupos de mídia tradicionais.

Um dos exemplos que Harris cita é dos aplicativos e filtros para deixar as fotos e vídeos dos usuários mais bonitos. “Eles têm um incentivo para aumentar suas bochechas, seus lábios, seus olhos para que você tenha uma auto-imagem mais agradável.” Não é segredo que esse tipo de artifício gera distúrbios de imagem. Desde que o Photoshop passou a ser usado para “melhorar” a imagem das famosas nas capas de revistas, nunca mais paramos. 

Obviamente, algumas empresas trabalham arduamente para reduzir o problema e serem mais “éticas”. Mas para Harris, é uma competição desigual no modelo atual.

“Digamos que o Instagram perceba que isso é ruim para a saúde mental das crianças. Eles não podem – eles não vão parar com isso a menos que as outras empresas parem também. E recentemente, descobrimos que o TikTok realmente embeleza as fotos sem nem mesmo perguntar (ou avisar) aos usuários. Eles embelezam apenas dois ou três por cento – praticamente invisível – esse é o tipo de corrida armamentista em que estamos.”

Reflexo distorcido da sociedade

Ou seja, diferentemente do que muitos imaginam (eu mesmo, antes de ouvir Harris), as plataformas e as demais empresas de mídia que vivem de reter sua atenção não são apenas “um espelho que mostra o que está em nossa sociedade”. Ao contrário, são mais como um espelho de parque de diversões que “mostra o que quer que o mantenha na frente desse espelho”. Quanto mais distorcido, mais tempo da sua elas atenção terão.

“Minha preocupação mais profunda é que este seja como um modelo de negócios de guerra civil por lucro”, diz Harris, “porque agora você é recompensado – por mais curtidas, mais seguidores e mais atenção e mais alcance – quanto mais diz coisas negativas sobre as demais pessoas, e quanto mais você angaria partidarismo de uma maneira que gere conflito”. Ou seja, polêmica vira sucesso e cria um círculo vicioso.

Sob essa ótica não é difícil entender o destaque que os “profissionais da polêmica”, ganham na mídia. Adrilles e outros apresentadores da Jovem Pan, demitidos após falas e gestos polêmicos. Monark expurgado do Flow após defender a existência de um partido nazista. Eles são recursos descartáveis do crescente arsenal bélico da indústria da atenção. Como qualquer arma, são jogados fora ao terem seu potencial esgotado.

Obviamente, não é de hoje que a mídia explora as fraquezas humanas para reter a atenção. O negócio de vender publicidade não nasceu com as redes sociais. Exames de DNA, programas policialescos e toda sorte de misérias sociais já rendeu milhões em lucros graças ao seu baixo custo de produção e grande capacidade de reter a audiência.

Mas, se as redes sociais não inventaram a arte de monetizar a atenção, levaram a prática a novos patamares. Graças ao uso da inteligência artificial e sua capacidade de crescimento global exponencial, (com custos marginais), a guerra pela atenção ganhou potencial de destruição em massa. Ganhamos armas nucleares digitais sem regra alguma de como usá-las.

Conflito global, sem regras

Essas armas de destruição em massa estão ao alcance de políticos com pouco ou nada a perder, como vimos em diversas eleições. Mas pior, elas diminuíram a barreira para o conflito mesmo entre grandes nações. 

Para Harris, mesmo democracias estáveis como os Estados Unidos estão vulneráveis. “Países que nunca disparariam armas físicas contra os EUA poderiam colocar bombas de informação no país e atingir os grupos mais vulneráveis”, afirma.

Se o problema está claro, sua solução nem tanto. Harris defende um “upgrade democrático” e tecnologias que fortaleçam a democracia. O site do Center for Human Technology também diz que “este novo futuro exigirá uma maior compreensão coletiva das causas que impulsionam os sistemas extrativistas”. 

Se em O Dilema das Redes descobrimos mais sobre como as empresas de tecnologia usam nossos dados, possivelmente uma segunda versão do filme mostrasse como a guerra pela atenção faz mais vítimas do que imaginamos, e há séculos. 

Talvez o caminho para conter essa corrida armamentista pela atenção seja criando regras globais e aceitas por todas as grandes nações, da mesma forma que fizemos com as armas nucleares no passado. Obviamente, isso não será fácil. Mas entender sua capacidade de destruição é o primeiro passo.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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