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Globalização ou não globalização, essa é a questão.

Opinião

Em principio, a diplomacia tem por função aplainar conflitos, estabelecer diálogo e, se possível, cooperação entre estados e nações. Todas e todos estamos aptos a entendê-la e praticá-la – e não apenas os estados como se acreditava antigamente. Com efeito, é grande a similaridade que a diplomacia guarda com as relações interpessoais, facilitando em muito sua compreensão. Ao lado disso, as mudanças climáticas e as agressões cometidas pelo homem contra o meio-ambiente deixam claro que somos todos co-responsáveis uns pelos outros e pela manutenção da vida em toda a Terra.

Como qualquer diálogo, faz necessário, em primeiro lugar, estabelecer parâmetros e definições comuns, mutuamente compreensíveis e aceitáveis. Ao aplicarmos esse critério à palavra “globalização”, verificamos a existência de mais de um significado para aquele significante.

O Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário geral do Itamaraty e ex-ministro de assuntos estratégicos, costumava perguntar aos ouvintes de suas palestras se, no caminho para o local, teriam ouvido no rádio alguma música da Guatemala, da Ucrânia ou da Tailândia, por exemplo. As respostas eram invariavelmente negativas, expondo os limites da atual compreensão do termo “globalização”.

De fato, principalmente nos campos cultural e econômico, a globalização ainda se restringe às rotas do passado – norte-sul, limitando o globo às latitudes e, dessa maneira, menosprezando a imensa riqueza das longitudes, ao contrário dos fluxos entre os países do norte. Vale observar que essa lógica restritiva guarda direta relação com a concentração de renda, riqueza e poder nos âmbitos nacionais e internacional, que atualmente conhecemos, em proporções inauditas.

Com base na constatação de que a globalização como a entendemos atualmente é bastante limitada, cabe indagar como se pode obter a desejável ampliação das trocas internacionais, no entendimento de que os seres humanos somos naturalmente vocacionadas aos encontros, “ainda que haja tanto desencontro nesta vida”, como bem lembrou o brilhante poeta e diplomata Vinicius de Moraes.

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Vale recordar que o Brasil e os demais países americanos somos frutos dessas trocas, da imigração – tragicamente forçada no caso do tráfico de escravizados – e da miscigenação com os povos originários, também barbaramente escravizados pelos conquistadores e pelas oligarquias crioulas.

Portanto, no caso brasileiro, a globalização é questão de coerência histórica, étnica e ética (não por acaso palavras de raiz comum), quase uma determinante. No entanto, ao vivermos a globalização de forma parcial, deixamos de desfrutar os imensos benefícios culturais, científicos, tecnológicos e socioeconômicos que dela podem resultar.

Mas como caminhar em direção a uma ordem que permita trocas mais intensas e mutuamente vantajosas? A pergunta comporta mais de uma resposta. O atual governo mexicano, por exemplo, procedeu a revisão total da política migratória, passando a considerar a migração um fator de desenvolvimento cultural e socioeconômico.

Trata-se de grande inovação, uma vez que nenhum outro país, do sul ou do norte, defendera conceito tão amplo. Concomitantemente, elaborou plano de desenvolvimento socioeconômico, em conjunto com outros países da América Central, visando a promover ativamente o desenvolvimento das regiões mais deprimidas do subcontinente, mais inclinadas à imigração, em busca de melhores oportunidades.

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Interessante notar que a cultura mexicana é plurimilenar, compreendendo astecas e outras importantes etnias formadoras daquela nação, que voltará a se enriquecer, por meio da troca mais preciosa: aquela entre seres humanos.

Que Viva México com seu Museu de Antropologia, uma das maravilhas da humanidade, onde se pode verificar e entender a riqueza de tradições que formou um país tão desenvolvido culturalmente, um dos poucos – dentre os em desenvolvimento – capaz de seguir a senda dos países do norte, de promoção da reforma agrária, realizada durante a revolução mexicana, no início do século XX.

Ainda no século passado, o país, mais uma vez, traduziu a solidez de suas pirâmides pre-colombianas em uma política externa corajosamente independente, para um país latino-americano, negando-se a romper relações diplomáticas com Cuba, após a revolução cubana de 1959, fazendo dos ventos contrários sua sustenção, a exemplo dos aviões.

Mantenhamos a esperança, pois a pátria grande, a América Latina e o Caribe, não deixa de dar sua melhor contribuição para o conceito e o concerto das nações (também essas, palavras de raiz comum), sob o signo da águia mexicana, que, ao voar nas alturas, percebe a conversão da própria terra, a nos recordar que também nós, à conversão, estamos felizmente vocacionados.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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