General Heleno, mire-se no exemplo de Gouveia e Melo

O militar, coordenador do programa de vacinação em Portugal, cumpre sua missão de servir ao país


Líder europeu na vacinação contra a Covid-19, Portugal deve muito desse sucesso ao vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que se tornou o porta-estandarte da campanha nacional de combate à pandemia (Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)

Líder europeu na vacinação contra a Covid-19, Portugal deve muito desse sucesso ao vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que se tornou o porta-estandarte da campanha nacional de combate à pandemia (Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)

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A figura mais popular em Portugal não é o presidente Marcelo Rebelo, que gosta de explorar a imagem de homem do povo, muito menos a atriz Daniela Melchior, revelada no reboot de Esquadrão Suicida. A unanimidade nacional é um militar, o vice-almirante Henrique de Gouveia e Melo, coordenador do programa nacional de vacinação, o mais bem-sucedido da Europa.

Esguio, a barba branca de capitão de navio pesqueiro que se aventura no Mar do Norte, sempre trajado com o uniforme de treinamento, como se estivesse preparado para o combate, Gouveia e Melo consegue unir a esquerda e a direita, enquanto frequenta diariamente tevês, rádios, jornais, palestras, feiras, eventos esportivos e rodas de dominó. Todos querem ouvi-lo, sobre assuntos sérios e banalidades. Há muito tempo um oficial não recebia tanto destaque por seus feitos.

A bem da verdade, a postura de Gouveia e Melo não deveria surpreender. Um militar capaz de misturar na mesma frase as palavras democracia e Estado de Direito é mais comum do que se pensa nos países onde esses conceitos têm significado

A razão de tanto sucesso é a virada no combate à pandemia desde que o vice-almirante assumiu em fevereiro passado as rédeas do programa de vacinação. Àquela altura, Portugal sofria com a falta de imunizantes e os efeitos de uma flexibilização precipitada das regras sanitárias no fim do ano que levaram a uma explosão de mortes e internações. Sob críticas intensas, restou ao governo socialista entregar a cabeça de Francisco Ramos, coordenador da task force, e nomear Gouveia e Melo, o segundo na hierarquia.

Promovido ao comando, o militar reorganizou o trabalho, superou o pior momento com retidão e agora colhe sozinho, justa ou injustamente, os louros pelos resultados, embora faça questão de lembrar o esforço coletivo de subordinados, enfermeiros e voluntários. Nos próximos dias, o país irá atingir o índice de 85% da população vacinada com duas doses, mais alto percentual europeu, o que permite uma abertura acelerada das atividades e um retorno razoavelmente seguro à normalidade. Sua defesa intransigente da imunização reflete o sentimento geral: os portugueses são os menos negacionistas do continente.

A vaidade humana é insondável e pode ser que o vice-almirante acabe picado pela mosca azul. Até agora, porém, Gouveia e Melo resiste aos apelos para trocar a farda por terno de deputado. “Daria um péssimo político”, sublinha, ante a insistência dos jornalistas. O militar parece mais preocupado em vencer a guerra contra quem desdenha da vacina ou minimiza a pandemia. “A melhor postura perante os negacionistas, que vivem numa bolha, é a democracia. Estou muito satisfeito com o fato de o Estado de Direito funcionar”, afirmou recentemente. “Exercer a democracia é não permitir que alguém nos grite aos ouvidos e nos empurre para as ideias dele”.

A bem da verdade, a postura de Gouveia e Melo não deveria surpreender. Um militar capaz de misturar na mesma frase as palavras democracia e Estado de Direito é mais comum do que se pensa nos países onde esses conceitos têm significado. Portugal livrou-se de 50 anos da ditadura salazarista em 1974. A Revolução dos Cravos traçou os limites entre o poder civil e o militar e as fronteiras continuam intactas.

A regra é simples: os fardados servem ao país, não o contrário, e se submetem à escolha legítima dos cidadãos. A transição incompleta e a covardia com que o Brasil acata a Lei da Anistia subverteu essa relação no período dito democrático. As Forças Armadas se comportam como um exército de ocupação.

No lugar de um Gouveia e Melo, temos os generais Augusto Heleno, Luiz Eduardo Ramos e Hamilton Mourão, as faces públicas de milhares de oficiais que tomaram de assalto os cargos comissionados, as diretorias das estatais e o controle de fundos públicos. São arrivistas, iletrados, despreparados, oportunistas, negociantes e sanguessugas. Tudo menos patriotas.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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