Bolsonaro será derrotado e voltará para o esgoto da história. E os militares?

'Qual caminho querem seguir?', pergunta o deputado Marcelo Freixo (PSOL)

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Frente Ampla

A maior mentira que Jair Bolsonaro contou desde que se lançou em campanha à Presidência é a de que ele é um político honesto e disposto a enfrentar a corrupção. Sim, eu sei que as mentiras não foram poucas – os liberais que o digam –, mas coloco a falsa honestidade no topo do farsômetro presidencial, porque essa foi a narrativa mais importante para aglutinar os diferentes setores que o alçaram ao Palácio do Planalto.

Dito isso, não é à toa que Bolsonaro está apavorado com a descoberta, feita pela CPI da Covid, de que ele tentou acobertar a quadrilha que operou dentro do Ministério da Saúde para roubar dinheiro da vacina. A honestidade, último mito a escorar as ruínas do governo, está desmoronando. Os brasileiros, que haviam atestado a incompetência, o despreparo e o menosprezo do presidente pela vida, agora sabem que Bolsonaro é também o chefe de um governo de ladrões de vacina.

O desespero do presidente pode ser medido em números, como mostrou a pesquisa Datafolha realizada após o escândalo envolvendo as compras da Covaxin e AstraZeneca. Sete em cada dez brasileiros acreditam que o governo é corrupto; 56% reprovam a conduta de Bolsonaro na pandemia e, pela primeira vez, mais da metade da população (54%) é a favor do impeachment.

É nesse contexto, de um governo acossado pelas apurações das roubalheiras na saúde, que o presidente e seus aliados dobraram a aposta nas ameaças às instituições democráticas, como se grunhidos raivosos bastassem para esconder a corrupção, escamotear a responsabilidade de Bolsonaro na matança da pandemia e colocar comida na mesa das famílias.

O comando das Forças Armadas engrossou o caldo das barbaridades do presidente em 9 de julho, após a CPI mandar prender o ex-diretor do Ministério da Saúde Roberto Dias, citado pelo cabo PM Luiz Paulo Dominguetti como autor do pedido de propina de 1 dólar por dose para autorizar a compra de vacinas da AstraZeneca. Em seu depoimento, Dias colocou o antigo número 2 da Pasta e braço direito do general Eduardo Pazuello, o coronel da reserva Élcio Franco, no centro do escândalo.

Os comandantes das três forças e o ministro da Defesa, Braga Netto, assinaram uma nota com ameaças explícitas ao Senado para afirmar que acusações de corrupção contra militares não seriam admitidas. No dia seguinte, O Globo publicou entrevista em que o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Almeida Baptista Junior, despejou uma série de ultimatos contra a CPI, o Congresso Nacional e a oposição, uma excrescência que numa democracia saudável o levariam a responder por crime militar.

Tanto a nota quanto o manifesto golpista do comandante da Aeronáutica, mais do que expressar o corporativismo contra as investigações envolvendo militares corruptos, são alertas sobre o perigoso grau de bolsonarização dos quartéis. O papel constitucional das Forças Armadas é salvaguardar a soberania do Estado brasileiro contra ameaças externas, e não se portar como guarda presidencial para tentar intimidar as instituições democráticas. O presidente queria criar o Escola Sem Partido para atacar a Educação, mas o que o Brasil precisa é de Quartel Sem Partido.

No front civil, Bolsonaro segue se comportando como chefe de máfia. O advogado e capanga da família, Frederick Wassef, ameaçou a repórter do UOL Juliana Dal Piva, que publicou uma série de reportagens sobre o roubo de dinheiro público através do uso de funcionários fantasmas nos gabinetes de Jair e dos filhos. No mesmo fim de semana, o presidente disse que não haverá eleições em 2022 sem a aprovação do voto impresso e fez acusações mentirosas e criminosas, que não valem ser repetidas aqui, contra o ministro do STF e presidente do TSE, Luís Roberto Barroso.

Os ratos atacam quando estão acuados, e o cerco a Bolsonaro nunca esteve tão apertado desde que ele chegou ao Planalto. Com o desmoronamento da narrativa da ética, último muro de contenção que impedia a fuga do que lhe restava de apoio popular, a tendência é que o presidente se entrincheire cada vez mais desesperado ao lado dos seus seguidores mais violentos, como Wassef.

Diante disso, em que lugar da história as Forças Armadas querem estar? Cumprirão seu dever constitucional de instituição de Estado ou aceitarão ser usadas como instrumento de intimidação de um governo corrupto, destruidor do patrimônio nacional e responsável pela morte de quase 550 mil brasileiros? Bolsonaro está cada vez mais isolado. Ele será derrotado e voltará para o esgoto da história.  E os militares, qual ­caminho querem seguir?

Publicado na edição nº 1166 de CartaCapital, em 15 de julho de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É professor de história e deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

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