A vez da ciência na CPI da Covid

O contraste entre o depoimento de Nise Yamaguchi e Luana Araújo é gritante e cristaliza duas formas de enfrentamento à pandemia em disputa

A médica infectologista Luana Araújo. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

A médica infectologista Luana Araújo. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Frente Ampla

A CPI da Covid adentra o segundo mês de trabalhos e agora será a vez de escutar médicos e cientistas, além de gestores estaduais e representantes de laboratórios farmacêuticos, sobre as suas condutas no enfrentamento à crise sanitária. Também foram reconvocados o atual e ex-ministro da saúde, Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello, respectivamente, para esclarecerem algumas dúvidas que persistiram após o confuso depoimento prestado por ambos.

Como afirmado em outras oportunidades, começa a ficar delineada a estratégia adotada pelo governo federal para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, consistindo na exposição deliberada da população e a aposta em um tratamento precoce composto por medicamentos cuja eficácia contra a covid-19 já ficou demonstrada pela ciência. 

Nesta semana dois depoimentos colhidos pela CPI da Covid evidenciam de forma inequívoca a abordagem do governo federal da crise sanitária: na terça, o da médica Nise Yamaguchi, oncologista do Albert Einstein e o de Luana Araújo, médica infectologista e pesquisadora que teve uma passagem relâmpago pelo Ministério da Saúde no mês de maio. Após dez dias trabalhando na equipe do ministro Queiroga, foi informada que a sua nomeação não seria concretizada.

O contraste entre o depoimento de ambas é gritante e cristaliza duas vertentes de enfrentamento à pandemia em disputa no governo federal: uma apoiada na ciência e nos mais recentes estudos sobre o novo coronavírus e outra sustentada em experimentos isolados cujos resultados, apurados sem o rigor necessário, induzem a evidências equivocadas e que podem aumentar o risco de transmissibilidade e óbitos da Covid-19, como sugerem as estatísticas no Brasil.

É neste sentido que o depoimento da Dra. Luana Araújo foi de grande valia para os trabalhos da CPI da Covid ao expor de forma sistemática – e com didática admirável – o conhecimento científico acumulado sobre o novo coronavírus, a pandemia e suas consequências na saúde pública e sociedade em geral. A apresentação de dados por meio de alegorias e outros recursos retóricos desmistificaram assuntos obscuros para os leigos em medicina, aumentando a nossa compreensão sobre a covid-19 e como ela fragiliza e debilita o organismo.

O chamado “tratamento precoce” foi metodicamente desmontado e os fármacos constituintes do “kit covid”, fundamentais para o tratamento de diferentes doenças, tiveram seu funcionamento minuciosamente explicados, mostrando a inutilidade da sua utilização e os perigos na administração indiscriminada nas pessoas contaminadas pelo novo coronavírus. Sobre isso, foi enfática: autonomia médica não é licença para experimentação. 

É importante frisar que seu depoimento também indica uma mudança nos debates acerca da cloroquina e derivados na CPI, a despeito da insistência da base do governo no tema. Segura, refutou de forma pormenorizada os argumentos apresentados, apontada falhas metodológicas nos dados reunidos e inconsistências estatísticas nas amostras estudadas. 

A presença da Dra. Luana Araújo ainda reforçou a negligência do governo federal em sua atuação contra a crise sanitária. Afinal, foi ela quem decidiu colocar à disposição do ministro Marcelo Queiroga toda a sua expertise na área da Infectologia – Luana foi bolsista da Universidade Johns Hopkins de Nova Iorque e consultora do Banco Mundial. Como abrir mão de um quadro com essa qualificação no atual estágio da pandemia no Brasil?

Os indícios sugerem que a recusa na sua efetivação se deu justamente pela postura enfática em defesa da ciência no enfrentamento à pandemia e o completo rechaço ao “tratamento precoce” e panaceias assemelhadas, além da insistência em uma campanha de vacinação em massa e outras medidas de proteção da população contra o novo coronavírus. Em outras palavras, o veto a sua nomeação é devido a disposição em aplicar no Brasil medidas que em outros países permitiram o controle da pandemia e a retomada gradual da normalidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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