A CPI da Covid e as chagas abertas pela pandemia

A tragédia humanitária e social que assola o Brasil é resultado direto da estratégia adotada pelo governo federal

O senador Randolfe Rodrigues. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O senador Randolfe Rodrigues. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Frente Ampla

A CPI da Covid chega à reta final reunindo diferentes provas da negligência do governo no enfrentamento da crise sanitária iniciada com o novo coronavírus, que resultou na morte de mais de 600 mil brasileiros e brasileiras, e contaminou mais de 20 milhões de pessoas contaminadas em território nacional. Essas estatísticas nos colocam no topo do ranking mundial de nações com mais infecções e óbitos decorrentes da pandemia.

Após quase seis meses de trabalho, o volume de dados e informações recolhidas permitem afirmar de forma categórica que a tragédia humanitária e social que assola o Brasil é resultado direto da estratégia adotada pelo governo federal, isto é, a aposta na imunização de rebanho mediante a contaminação em massa da população brasileira, e a distribuição do kit-Covid, um coquetel de medicamentos cuja ineficácia contra o coronavírus ficou provado em diferentes estudos conduzidos ao redor do globo.

As consequências dessas medidas vão além da destruição da nossa economia e das centenas de milhares de mortes, contaminações e sequelas carregadas por muitos sobreviventes. Elas também maculam o passado, destroem o presente e dificultam a vida de milhares de famílias que perderam entes queridos.

No início dos trabalhos da CPI, decidimos trocar os nomes nas placas que identificam os membros da mesa diretora pelos números de vidas ceifadas pela pandemia.  Foi uma forma de destacar a velocidade com que o coronavírus vinha devastando as famílias brasileiras. Em apenas seis meses, os índices mostrados nas placas praticamente dobraram, mostrando que a persistência da pandemia.

Essas vítimas são pais e mães, irmãos e irmãs, filhos e filhas, maridos e esposas. São amores que se foram para nunca mais voltar. São pessoas que fizeram a diferença na vida de outras pela sua presença. E seguirão a fazer, mas agora pela sua ausência.

Em seus momentos finais, a CPI da Covid decidiu fazer uma homenagem aos mártires do coronavírus – mártir, que vem do grego testemunha – e realizou uma audiência com familiares de algumas das vítimas da covid-19 no Brasil. Seus relatos, além de dolorosos, dão a dimensão das perdas para centenas de milhares de famílias, privadas repentinamente do convívio de seus amores. 

 

Um dos legados mais devastadores da pandemia é a quantidade de órfãos que a Covid-19 deixou no País. Giovanna Gomes Mendes da Silva e sua irmã são duas dessas órfãs. Em apenas duas semanas, elas perderam pai e mãe para o coronavírus. Agora, cabe a Giovanna, no auge dos seus 19 anos, chefiar o que restou da família e do lar, tendo para si a responsabilidade legal para com sua irmã, de apenas 10 anos. 

Outra chaga aberta pela pandemia é a impossibilidade de realizar um funeral digno para os entes queridos. Não apenas os sepultamentos sem velório, mas também o caos para recolhimento e identificação dos corpos. Foi o que aconteceu com Katia Shirlene, cujo pai precisou ser identificado pela irmã em meio a dezenas de outros corpos de pessoas falecidas pela Covid-19.

Essas e outras tristes histórias contadas no plenário da CPI, mostram que, por trás dos macabros números da pandemia, havia gente de verdade, que fará muita falta na vida de outras pessoas. Mortes que poderiam ser evitadas caso a resposta do governo federal à crise sanitária fosse outra, o que fica cabalmente demonstrado no relatório final produzido pela CPI. 

Os responsáveis por esta tragédia não ficarão impunes.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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