Essa ‘fakeada’ tem cara de fake

Uma teoria conspiratória. É disso e somente disso que se trata o documentário sobre a facada que levou Jair Bolsonaro

O então candidato Jair Bolsonaro após a facada, em 2018. Foto: AFP

O então candidato Jair Bolsonaro após a facada, em 2018. Foto: AFP

Opinião

Foi com bastante espanto e muita curiosidade que acompanhei a repercussão do documentário do site Brasil 247 sobre a facada que levou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Espanto porque vi o assunto ressuscitar para além das raias do bolsonarismo que, como sabemos, costuma trazer esse evento à tona para cobrar explicações sobre “quem mandou matar Bolsonaro”. E curiosidade porque vi algumas pessoas bastante inteligentes e sóbrias compartilhando “pulgas atrás da orelha” após conferir as teses do jornalista Joaquim Carvalho.

Apesar da semana tumultuada de muito trabalho por conta do fim do semestre na Universidade Federal de Minas Gerais e outras atribuições, me vi diante do dever profissional de buscar algum tempo para averiguar o que estava acontecendo. Em pouco mais de 40 minutos, o espanto e a curiosidade iniciais mudaram de natureza e de lugar. Passei a me espantar com a credulidade de alguns que repercutiam o documentário e, como alguém que vem se dedicando há um tempo ao tema das teorias conspiratórias, fiquei profundamente instigado em seguir adiante na trama.

Um conjunto mais ou menos extenso de fatos supostamente suspeitos são usados como motes para ilações frágeis. Que são vendidas, nas entrelinhas, como provas

Sim. Porque é disso e somente disso que se trata o documentário: de uma teoria conspiratória. Na forma e no conteúdo. E para que não fiquemos no campo das indeterminações, por teorias conspiratórias compreendo, seguindo o pesquisador Joseph E. Uscinski, explicações sobre eventos passados, presentes ou mesmo futuros cujas causas se dariam pela ações de um pequeno grupo de indivíduos que atuam em segredo em favor de seus interesses e contra a vontade geral. Mais: atuam nas sombras para aplicar grandes fraudes, atentar contra as instituições estabelecidas e inibir direitos e liberdades.

Não é exatamente disso que se trata? A facada teria sido uma trama farsesca, portanto, uma grande fraude, que atentou contra uma instituição fundamental da democracia (as eleições), e, por consequência, atentou contra direitos, liberdades e garantias fundamentais.

Na forma, o documentário emula um gênero já bastante tradicional, principalmente na tevê americana: os programas sensacionalistas que nos provam, por a mais b, que Elvis Presley não morreu e vive em alguma ilha paradisíaca até hoje; que os atentados de 11 de Setembro foram uma trama produzida pelos próprios Estados Unidos e que os alienígenas não apenas existem, mas há muito vivem entre nós. Isso porque a peça de Joaquim Carvalho transcorre insuportavelmente sob efeitos sonoros e trilhas musicais com notas e acordes contínuos que há muito se tornaram signos cinematográficos de suspeita e mistério. Assim como o autor do documentário se torna seu principal entrevistado . Ou seja, um objeto de si próprio.

No conteúdo, o que temos é, rigorosamente, nada de novo. Um conjunto mais ou menos extenso de fatos supostamente suspeitos que são usados como motes para ilações frágeis e que são vendidas, nas entrelinhas, como provas. E esse é um ponto importante da questão: uma figura pública que admiro por demais comentou que o jornalista faz, tão e somente, perguntas que deveriam ser feitas por investigadores – partindo, obviamente, da premissa de que não foram feitas.

Mas não se trata disso. Joaquim Carvalho não faz simplesmente perguntas, mas insinuações contundentes de que estamos diante de uma grande fraude política. De uma conspiração fantástica de fazer inveja a tramas como a de Onze Homens e um Segredo. O título, por acaso, dá alguma margem para se pensar o contrário? O jornalista usa o termo pejorativo que ficou famoso no conspiracionismo antibolsonarista: uma fakeada no coração do Brasil.

Em minha opinião, o episódio da aproximação de Adélio Bispo a Carlos Bolsonaro em Juiz de Fora é denotativo da inclinação, do viés, da parcialidade do jornalista ao tratar do fato. Ele sustenta que Carlos Bolsonaro teria avistado a aproximação de Adélio e entrado, subitamente, em um carro. Quem mantém o mínimo da distância regulamentar do discernimento e da imparcialidade vê, com clareza, que o vídeo que registra ações tão rápidas e confusas, não nos permite sequer chegar perto de uma suspeita do tipo. Não é possível especular sobre a possibilidade de Carlos Bolsonaro tê-lo visto. Assim como parece que o cara estava, simplesmente, filmando o pai e entrando no carro, possivelmente, para postar alguma coisa em algum de seus perfis nas redes.

Do mesmo modo, para aceitar uma ideia de que fomos, todos nós brasileiros, vítimas de uma grande fraude eleitoral em 2018, temos que fazer concessões bastante absurdas. Típicas de quem adota a mentalidade conspiracionista para lidar com a realidade dos fatos.

Em primeiro, teríamos que conceder a Jair Bolsonaro uma competência dramática excepcional: não é qualquer um que, no meio de uma aglomeração caótica, sendo tocado por tudo quanto é lado, sabe exatamente a hora de, não apenas sentir o sinal para entrar em ação – em termos dramatúrgicos – como de representar expressões de dor profundamente convincentes e verossímeis. Teríamos que admitir que Jair não apenas esconde um grande talento, como foi dirigido por alguém muito talentoso. Talvez alguém como Stanley Kubrick, aquele que teria dirigido a grande farsa dos primeiros passos do homem na lua.

Adélio Bispo. Foto: PMMG

Tampouco parece-me plausível especular que, embora fosse uma grande armação arquitetada por Carlos Bolsonaro, o atentado de fato aconteceu. Teríamos que aceitar a possibilidade de que os caras planejaram meter uma faca na barriga (logo lá) do favorito à Presidência e correr o risco de matá-lo. Logo essa gente, obcecada pela fama, pela grana e pelo poder que, aquela altura, já lhes era uma possibilidade mais do que concreta. Improvável.

Assim como não parece razoável admitir que uma conspiração com essas proporções, envolvendo um conjunto extenso e diversificado de testemunhas oculares, em tempos de hipervisibilidade mediática, de fotos, vídeos e áudios do “zap”, de jornalistas sedentos, tenha acontecido sem que um criatura abençoada desse mundo chamado Brasil não tenha testemunhado e denunciado a farsa: de pessoas ali aglomeradas em Juiz de Fora a um infinito de profissionais da área de saúde de, no mínimo, dois hospitais diferentes. A piauí, insuspeita em seu antibolsonarismo, publicou uma excelente reportagem contando a experiência do médico que fez a primeira cirurgia neste que hoje nos preside e desgoverna.

Teorias conspiratórias são fundamentos daquilo que se convencionou chamar de fake news. Na verdade, fake news são uma derivação das teorias conspiratórias. Busquem pelas falsas notícias e notícias falsas do bolsonarismo e você vai encontrar tramas conspiratórias que lhes servem de sustentação: da ideia de uma grande trama globalista que envolve o PT e o Foro de São Paulo numa experimento global de dominação socialista à própria defesa de remédios ineficazes para a Covid-19 que não seriam recomendados por organismos internacionais, como a OMS, e pela indústria farmacêutica simplesmente porque são baratos e o lucro para as corporações e cientistas inescrupulosos seriam expressivamente menores do que com a comercialização das vacinas.

Teorias conspiratórias não são exclusividade da extrema-direita. Temos a impressão de que seja porque passamos por uma espécie de hegemonia de uma direita retrógrada, autoritária e protofascista que descobriu como explorar esse fenômeno em proveito próprio nas lógicas da propaganda digital.

Tomem, por exemplo, o episódio que envolveu a avaliação da Sputinik V pela Anvisa. Todos os gatilhos do conspiracionismo antibolsonarista já estavam engatilhados antes mesmo do conhecimento do parecer dos técnicos do órgão: se a vacina fosse aprovada, tínhamos o reconhecimento da única verdade disponível: sua segurança e eficácia estavam amparadas em sólidas evidências documentais — embora quase ninguém, além dos técnicos da Anvisa, tivessem conhecimento sobre esses documentos. Se fosse recusada, como ocorreu, a explicação era uma só: a Anvisa estaria sendo movida pela ideologia antiesquerda do bolosonarismo que odeia a Rússia. Uma conspiração. Escrevi sobre isso.

Lembro-me como se fosse ontem. Como episódio da facada não foi diferente. Assim que a notícia começou a circular, muitos antibolsonaristas já vaticinavam que a facada era uma grande mentira. Independentemente da profunda ignorância em relação aos fatos.

Ou seja, teorias conspiratórias funcionam segundo uma espécie de raciocínio inverso ao da lógica. Não há dedução ou indução. A conclusão não deriva dos fatos e das evidências. Evidências e fatos são elementos a serem encontrados depois. Meros apêndices torturados para se encaixar a uma convicção prévia. E, nesse sentido, as teorias conspiratórias são bastante democráticas. Não respeitam cor, credo, classe social ou orientação político-ideológica.

Isso faz com que não tratemos o debate sobre os danos políticos das fake news como deveríamos. Em primeiro lugar, porque não pautamos, devidamente, os perigos das teorias conspiratórias para a política e para a vida em sociedade, como alertava, há muito, o filósofo Karl Popper.

O movimento antivacina, o comportamento de hesitação vacinal não se dá, justamente, com base na crença de que estamos sendo manipulados pelos interesses dos poderosos que atuam nas sombras contra o interesse coletivo e nosso próprio bem-estar? O resultado desse dano fica bastante claro quando vivemos uma pandemia e sob um governo que patrocina a morte ao invés de patrocinar a ciência, a vida e o bem comum.

Obviamente que, em termos concretos e, digamos, diretos, o documentário do Brasil 247 não chega sequer perto de nos provocar os danos que o comportamento anticiência tem nos provocado. No entanto, ajuda terrivelmente em disseminar uma lógica cognitiva e comportamental que, sob a justificativa de querer nos iluminar, nos entrega mais obscurantismos do que luzes.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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