Fernando Dal-Ri Murcia

Professor e diretor FIPECAFI Projetos, professor do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da Universidade de São Paulo - FEA/USP, e Doutor em Contabilidade e Controladoria pela USP

Opinião

ESG: A diferença entre o remédio e o veneno está na dose

É preciso ir em busca do equilíbrio necessário entre os pilares Ambiental, Social e de Governança

(Foto: iStock)
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As mudanças trazidas pela onda ESG – se não analisadas de forma parcimoniosa e objetiva – poderão, eventualmente, produzir efeitos indesejados. Como esperado por movimentos que alteram paradigmas empresariais, existe uma tendência natural de queremos implementar mudanças radicais de forma repentina e de, eventualmente, privilegiar determinada dimensão (no caso, a ambiental), em detrimento de outras igualmente importantes. 

Parece natural que queiramos implementar a “agenda verde” o mais rápido possível, fazendo a transição para as chamadas energias limpas. Afinal, as mudanças climáticas causadas pela emissão de CO2 podem eventualmente comprometer a vida humana em nosso planeta.  

Contudo, se não realizada de forma planejada, essa transição pode trazer efeitos indesejados, principalmente para a população mais pobre. Por exemplo, a pandemia e a guerra na Ucrânia deixaram clara a nossa dependência, pelo menos de curto e médio prazo, do petróleo. O encarecimento dessa commodity gera impactos inflacionários diretos em toda a economia, seja em transporte, alimentos etc.

Esse é apenas um pequeno exemplo de como privilegiar o pilar Ambiental de forma indiscriminada pode trazer efeitos no Social. 

Note-se ainda que, se grandes conglomerados empresariais estabelecerem práticas ambientais demasiadamente rígidas para seus fornecedores, os mais prejudicados serão os pequenos negócios. A transição é necessária, mas é preciso ter cuidado com as externalidades. 

Sem dúvida, o ESG representa uma oportunidade de aprimorar o nosso capitalismo. Precisamos ter cuidado, apenas, para não jogar o bebê fora junto com a água do banho

A mesma cautela também deve ser aplicada na implementação da dimensão Social. Um excesso artificial e forçado de pautas pode eventualmente comprometer a cultura organizacional de determinada empresa, e o próprio senso de meritocracia e pertencimento. Uma promoção gerada única e exclusivamente pelo critério da diversidade poderia, inclusive, provocar efeito contrário. 

Igualmente, a agenda da sustentabilidade não deve desconsiderar os aspectos de governança especificamente relacionados àqueles que provém capital de risco para as organizações. Precisamos ser realistas, pois se as organizações privilegiarem os aspectos sociais e ambientais de forma a prejudicar os credores e acionistas, não haverá financiamento para as atividades empresariais. E sem capital, não há investimento, novos empregos, geração de renda etc. 

Em suma: o equilíbrio entre as dimensões ambiental, social e de governança é necessário. Veja-se, essas dimensões não são excludentes; ao contrário, são complementares e até por isso precisam sempre ser analisadas em conjunto.

A sustentabilidade de uma empresa ou de um país está relacionada com sua resiliência, ao enfrentamento de crises e continuidade. O assunto deve ser encarado de forma racional e desapaixonada. 

Sem dúvida, o ESG representa uma oportunidade de aprimorar o nosso capitalismo. Precisamos ter cuidado, apenas, para não jogar o bebê fora junto com a água do banho.  

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Fernando Dal-Ri Murcia

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