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Eleição além-fronteiras
No Brasil, o mapa mundial será desenhado
“Não temos tido sequer um minuto de sossego”, afirmou o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ao receber em 1982 o Nobel de Literatura em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da América do Sul. Mais de 40 anos depois, a frase parece ecoar uma vez mais e, no Brasil, será escrito e testado o próximo capítulo dessa história de assédio ao continente.
A eleição no País não vai determinar apenas quem será o novo presidente ou qual a composição do Congresso. O que está em jogo é uma disputa que vai muito além de nossas fronteiras. Vamos definir quem somos no mundo, que projeto de nação queremos. Mas também como a nova ordem global será desenhada. O que vimos nos últimos dias com o envolvimento de Javier Milei, viagens de equipes obscuras de Donald Trump ou mesmo um telefonema de Xi Jinping são sinais escancarados de que há muito mais em jogo na eleição brasileira do que interesses domésticos.
Para o governo de Trump, reafirmar a América Latina como quintal é parte fundamental de sua política externa e estratégia para conter o avanço da influência chinesa pelo mundo. Ao longo dos últimos meses, a ação da Casa Branca em eleições pela região foi determinante para os resultados das urnas. Qualquer ambição de controlar a América Latina entraria, no entanto, para a história como um projeto fracassado se não incluir o Brasil, que representa um terço da população e do território, além de um volume preponderante da economia do continente. Para Washington, portanto, a eleição é o momento definidor dessa estratégia.
Para a extrema-direita global, as urnas no País também são centrais. Sequestrar o Estado brasileiro é fundamental para o plano de refundar o Ocidente a partir de novos valores, ultraconservadores. Ao longo dos últimos anos –e principalmente após a vitória de Trump nos EUA –, o movimento orquestrou uma tentativa de sequestro de organismos internacionais. A tática foi tão simples quanto assustadora. Washington fechou as torneiras a entidades globais e condicionou qualquer retomada de recursos a uma transformação daquelas instituições para que cumpram seus objetivos. Em outras palavras: um sequestro e uma exigência para iniciar qualquer diálogo que permita um resgate da vítima. Mas há um limite. Principalmente no mundo em desenvolvimento. Ter em suas mãos a rede da diplomacia brasileira garante ao movimento reacionário a influência sobre dezenas de países que contam com o Brasil como referência e uma força sedutora substancial nos organismos internacionais e regionais.
O que ocorrer em outubro também terá uma repercussão imediata para o destino de Javier Milei, José Kast e tantos outros líderes sul-americanos de extrema-direita. Ainda que façam oposição ao presidente Lula, todos sabem que suas economias irão à falência se o Brasil optar por romper acordos ou fechar pontes comerciais ou diplomáticas. Na Casa Rosada ou em qualquer outro gabinete presidencial da região, os governos são cientes de que precisam do mercado brasileiro para que suas próprias economias possam prosperar.
Essa é também uma eleição estratégica para a China. Em Pequim, diplomatas questionam de que maneira uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro seria decisiva para o novo mapa mundial que se desenha e a ambição de Trump de expulsar qualquer presença chinesa na América Latina. Um Brasil sem forças progressistas significaria um golpe profundo no projeto do BRICS? Um Brasil com um Bolsonaro submisso à Casa Branca significaria o fim do projeto de desdolarizar parte do comércio mundial? Quem teria controle sobre as terras-raras brasileiras? Qual o destino da agenda de desenvolvimento, de combate à fome e das questões climáticas globais com um governo em Brasília que romperia com tratados internacionais? Não há almoço grátis no mundo do poder. Qual seria, portanto, o preço que Trump cobrará de Flávio Bolsonaro para apoiá-lo na eleição?
Nas urnas brasileiras, essencialmente, são rabiscadas as fronteiras estratégicas da disputa entre dois poderes que têm ambições hegemônicas. No fundo, é a própria definição do conceito de soberania e a sobrevivência do direito internacional que estão sendo testados.
As veias abertas da América Latina continuam a sangrar. Um continente que percorre séculos na tentativa de construir um caminho do outro lado do colonialismo. A esperança é que essas veias também resistam. Uma resistência que terá no Brasil um de seus capítulos mais críticos de nossa geração. Com disputas por terras, violência e ingerências que repetem algumas das cenas mais tristes de um continente exausto, a história global do século XXI tem sido taquigrafada uma vez mais no Brasil. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Eleição além-fronteiras’
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