Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Eis o serviço que o jornalismo brasileiro deveria prestar à democracia

O plano do golpe é real. Há tática. Há método. Há roteiro. Essa é a informação pública de que a democracia brasileira precisa. Mas não só

O presidente Jair Bolsonaro (PL). Foto: Gregg Newton/AFP
O presidente Jair Bolsonaro (PL). Foto: Gregg Newton/AFP
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“A avaliação da cúpula do PT é que Jair Bolsonaro de fato conta com o apoio da maioria dos militares para levar a cabo seu projeto de não reconhecer uma eventual derrota”. Está escrito na coluna do jornalista Guilherme Amado, no site Metrópoles. Não há nenhuma novidade no que as lideranças petistas concluem. É óbvio que os militares estão com o presidente na empreitada golpista de 2022. Primeiro, porque pensam e veem o mundo sob as mesmas lentes políticas. E também porque Jair Bolsonaro sempre foi uma empreitada militar na política. 

O negacionismo antigolpista (aquele que vende o golpe como inexistente ou impossível), crê que haverá pressão internacional, não existirão apoios sociais e econômicos análogos aos vistos em 1964 e por aí vai. Tratam-se de besteiras anacrônicas, que equivalem o passado ao presente – e Jair Bolsonaro e seus militares a algo explicável sob as variáveis históricas do pensamento político tradicional. 

As disfuncionalidades políticas contemporâneas, porém, são de outra ordem e apontam para direções que o passado não consegue explicar. A eleição de 2018 no Brasil que o diga. 

Esse negacionismo persiste, principalmente, pela ajuda de parte do jornalismo político brasileiro. Já devíamos ter passado há muito tempo do estado de negação para de consenso: há um plano de golpe. O presidente da República e as Forças Armadas possuem um roteiro, um script voltado para permanecer no poder à revelia das regras do jogo democrático. Não é uma hipótese, é um fato.

Eis, portanto, o serviço que o jornalismo brasileiro deveria prestar à democracia: investigar qual ou quais são os planos para o golpe que nos avizinha. Negar que esse plano exista é o mesmo que negar que ainda passamos por uma pandemia ou que as mudanças climáticas são uma ficção criada pelas forças do globalismo comunista. 

Essa pauta é urgente. Ouvir negações de militares, sob anonimato, é só isca de uma tática diversionista que coloca panos quentes sobre moléstias incuráveis e intratáveis. O plano do golpe é real. Há tática. Há método. Há roteiro. Essa é a informação pública de que a democracia brasileira precisa. Mas não só. 

A democracia brasileira não precisa de mais medidas estúpidas vindas do TSE – que, sob o argumento de produzir mais transparência, apenas concede ainda mais espaço e oportunidades para que militares avancem na empreitada golpista. 

A democracia brasileira precisa, sim, de transparência. Mas não é a transparência sobre um sistema eleitoral e um processo profundamente transparentes, eficientes e auditáveis. Nós precisamos é de transparência sobre quem está ou não está ao lado da democracia. E aqui neste ano de 2022, não há espaço para polissemias: estar ao lado da democracia agora é estar ao lado da defesa de todo e qualquer resultado eleitoral aferido pela contagem de votos das urnas e referendado pela única autoridade eleitoral competente para tanto: o TSE.

Já passou da hora de o Brasil formar um outro tipo de frente em favor da democracia: não aquela eleitoral, mas uma estritamente civil. Um movimento que reivindique que grupos, organizações, sindicatos, empresas, veículos de comunicação, federações e entidades de classe da sociedade civil se posicionem em defesa do Tribunal Superior Eleitoral como a única autoridade constitucionalmente responsável e com know-how para definir vencedores e derrotados em eleições limpas, regulares e justas. Ou seja, a única capaz de manter as regras do jogo democrático. 

Talvez essa transparência sirva como um excelente constrangimento social, a ponto de fazer entidades como a Febraban ou a FIESP deixarem claro que estão do lado da democracia (ou não). Por consequência, talvez crie um ambiente social muito mais desfavorável e custoso para uma empreitada golpista. Talvez nada disso aconteça. Mas ainda assim, sairemos ganhando todos. Ao menos teremos clareza sobre a dimensão das forças que estão com os militares de Jair Bolsonaro e as que estão em favor da democracia.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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