Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

É preciso firmar um pacto antirracista com as crianças

Penso nas palavras de Mandela: ‘Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele […] Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar’

Foto: iStock
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Escrevo pouco depois de uma viagem a São José, cidade de Santa Catarina que possui mais de 250 mil habitantes. Fui a convite do Centro de Educação Municipal Forquilhão, que em 29 de novembro promoveu um dia inteiro de atividades em alusão ao mês da Consciência Negra.

Como tenho escrito com alguma frequência neste espaço, muitos são os desafios para a implementação da Lei Federal 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira em escolas públicas e privadas. Sem sombra de dúvida, o fato de vivermos em uma sociedade extremamente racista, que ainda nega as violências perpetradas, e os abismos provocados pelo preconceito, é o principal deles. 

Contudo, é primordial valorizar os avanços no combate à discriminação racial. Os educadores e educadoras situados no chão da escola são os grandes responsáveis pela formulação e efetivação de práticas pedagógicas essenciais para o enfrentamento do racismo. Assim como para a construção de instituições de ensino que tenham como pilar a afirmação e o reconhecimento da comunidade negra.

Foi exatamente isso que testemunhei no Forquilhão, escola que atende 1.400 crianças e adolescentes. Ao longo de um dia inteiro, foram exibidas apresentações e projetos elaborados por professores comprometidos com a legislação antirracista vigente. No auditório, a escritora Carolina Maria de Jesus, que apesar de seu livro Quarto de despejo ter sido publicado em 40 países pouco aparece nos livros didáticos, fez-se presente no palco por duas vezes. Em uma peça teatral organizada pela professora Goreth, alunos declamaram um trecho da obra de Carolina escrito no final dos anos 1950, atualíssimo no Brasil em que mais de 30 milhões de pessoas não têm o que comer: “A fome é amarela e dói muito”. 

Já a professora Mirian propôs o Jogo da Memória, cujas cartas estampam rostos de personalidades negras, como Mano Brown, Conceição Evaristo, Elza Soares, Angela Davis, Antonieta de Barros, Beatriz Nascimento, Martin Luther King e tantos outros. O ponto alto do encontro foi o Desfile do Cabelo Crespo e Cacheado, em que a beleza e a postura empoderada de crianças e jovens pretos e pardos ganharam o centro das atenções. Dada a força, a potência da atividade realizada em um estado no qual a população é majoritariamente branca, uma mãe negra que estava ao meu lado não conteve a emoção e verteu lágrimas.

Foto: Arquivo pessoal


Em meio a tanto trabalho, a tantos atos de enfrentamento ao racismo que estrutura o nosso País, pude conversar com os alunos do Forquilhão. Ao falar com as crianças, contei um pouco da minha história, marcada pela violência racista durante minha trajetória escolar. Contei que xingamentos como “macaca” e “cabelo de bombril” eram quase diários. Com olhares que oscilavam entre o compadecimento e o espanto, meninos e meninas escutavam atentamente tudo o que eu dizia.

Lembrei que o racismo machuca, deixa marcas profundas na alma, que muitas vezes não cicatrizam. Como não poderia deixar de ser, disse que gostaria que a minha história não se repetisse na escola. Pedi que não discriminassem os colegas negros. Ao final, perguntei se poderia ir embora em paz, com a certeza de que o afeto, a amizade, o reconhecimento mútuo seriam a base da relação entre todos. De mais de 700 crianças ouvi um “sim” estrondoso. 

No dia seguinte, voltei à escola. Entrei em uma sala do 1º ano do ensino fundamental, na qual os alunos têm entre 6 e 7 anos. Perguntei se lembravam do nosso combinado. Sorridente e entusiasmada, uma aluna respondeu: “Sim! Está tudo guardado na minha cabeça! Não pode falar racismo!”. Sorri, achei graça, da mesma maneira que sorrio ao lembrar. Penso nas palavras do imortal Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”. 

Voltei de Santa Catarina com uma única certeza: na luta contra o racismo, é preciso firmar um pacto antirracista com as crianças.

P.S.1: Infelizmente, a chuva que assola regiões de Santa Catarina atingiu a comunidade escolar do Centro de Educação Municipal Forquilhão. Dezenas de famílias encontram-se desabrigadas. Que elas contem com nossa solidariedade.

P.S..2: A partir de hoje, esta colunista entra de férias. Voltamos a nos ver em fevereiro. Um bom final de ano a todos e um 2023 cheio de esperança.  

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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