Rita von Hunty

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

Opinião

É preciso combater a normalização dos modos de vida predatórios

A solução para a crise ecológica passa pelo enfrentamento de um modo de vida que consiste em produzir mercadorias, consumi-las, gerar lucro e crescer

Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
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Há mais de cem anos, um dos mais importantes intelectuais do século XIX, o alemão Max Weber, escrevia \, texto importante no qual ele reflete sobre um possível “desencanto” do mundo. Ele atribuía esse fenômeno à crescente intelectualização e racionalização, reflexo das organizações sociais daquele século, e à diminuição de espaço, nessa nova ordem, para aquilo que poderia ser considerado “sagrado” no mundo ocidental.

Em um artigo de 2015, intitulado “Reencantando o Mundo: Tecnologia, Corpo e Construção dos Comuns”, Silvia Federici nos alerta para o fato de que as sociedades que não desenvolverem modos de reduzir o uso da tecnologia industrial vão se deparar com catástrofes ecológicas, competição por recursos cada vez mais escassos e uma sensação de desespero crescente em relação ao futuro do planeta.

Viver o início de 2022 no Brasil e perceber que o “ano-novo” tem poucas boas-novas, mas muitas lutas antigas, faz com que a nossa reflexão se inicie por aí. Nestes dois primeiros meses do ano, dois episódios tristes, decorrentes da crise climática, devastaram estados do Sudeste brasileiro e ainda o sul da Bahia.

Segundo dados da Defesa Civil do Estado de São Paulo, ao menos 24 pessoas morreram, 27 municípios foram afetados e mais de 1,5 mil famílias foram desabrigadas ou desalojadas pelas fortes chuvas e as péssimas condições de urbanização às quais estavam submetidas. Bolsonaro afirmou que faltou às famílias “visão de futuro”.

Em Petrópolis, no Rio de Janeiro, a situação também é desoladora. O Corpo de Bombeiros da cidade atualizou o número de mortos para 176 e há ainda cerca de cem pessoas desaparecidas. Além dessas perdas, inestimáveis, a Firjan calcula um prejuízo de mais de 665 milhões de reais, considerados apenas os danos a empresas.

O “príncipe imperial do Brasil” (as aspas assinalam a fantasia do título) ofereceu orações às famílias das vítimas. Não doações. Não a conversão do laudêmio criminoso que sua família recebe há mais de um século. Apenas orações.

No sul da Bahia, o desastre também contabiliza números desalentadores. São mais de 160 municípios em estado de emergência, 4,2 mil pessoas desabrigadas e mais de 11 mil desalojadas. No estado de Minas Gerais, há 377 municípios em estado de emergência, 6.664 pessoas desabrigadas e 45.815 desalojadas.

É flagrante a necessidade de um debate capaz de combater a normalização dos modos de vida predatórios, desalinhada com a dinâmica metabólica do planeta em que vivemos.

Nosso meio ambiente vem dando sinais claros de colapso iminente, e estamos vivendo as décadas finais para que algo verdadeiramente transformador seja feito. “Ecossocialismo ou extinção” deixou, há muito, de ser uma palavra de ordem, e passou a ser um diagnóstico do nosso tempo.

Precisamos de uma solução para esse modo de vida descompassado que tão bem conhecemos e que se desenvolve em quatro etapas: produzir mercadorias, consumir mercadorias, gerar lucro e crescer. Nenhum modelo de acumulação infinita pode ser executável em um mundo de recursos finitos.

A solução para a crise ecológica é, portanto, antissistêmica e, consequentemente, anticapitalista. As respostas advindas dos setores conservadores e reacionários, e mesmo aquelas do campo progressista, mas sistêmico, não parecem capazes de lidar com a gravidade ou com a urgência da questão.

Novamente, são setores da esquerda radical que têm desempenhado o papel de crítica e proposição de alternativas que possibilitem pensar a humanidade no século XXII. Este não é um debate recente. Ao contrário. Ele vem sendo feito dentro da tradição intelectual de esquerda desde Marx e Engels, no século XIX, chegando a John Bellamy Foster (Marx e a Ecologia, 2000), Michael Löwy (O Que É Ecossocialismo?, 2014) e Kohei Saito (O Ecossocialismo de Karl Marx, 2017), em anos recentes.

Para concluir, retomo Silvia Federici. É urgente que todo debate de projeto de futuro se desalinhe daqueles quatro eixos que nos trouxeram à beira do colapso ambiental e se aproxime de um retorno a um modo de vida mais rural.

Isso só será possível por meio da recuperação e distribuição de terras, da superação do agronegócio e do foco nas agroflorestas, da liberação de rios de suas barragens e poluição e da revalorização dos trabalhos de reprodução social e de cuidados.

O capitalismo representa uma das feridas mais profundas de cisão entre nós – da nossa relação com a natureza e com os nossos corpos. Reencantar o mundo é permitir uma estrutura social que balanceie a existência humana com o metabolismo planetário. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1197 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Reencantar o mundo”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Rita von Hunty

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