A epidemia e a fome. É hora de agir

Dizer que o presidente da República foi o grande responsável pela disseminação da epidemia não resolverá a emergência atual

Distribuição de marmitas em Manaus, Amazonas. Foto: Altemar Alcantara/Fotos Públicas

Distribuição de marmitas em Manaus, Amazonas. Foto: Altemar Alcantara/Fotos Públicas

Opinião,Saúde

Deu no que deu: mais de 300 mil brasileiros mortos e colapso no sistema de saúde. Desde que surgiram os primeiros casos no Brasil, infectologistas, epidemiologistas e muitos especialistas ligados à academia advertiram a sociedade de que o caminho seguido pelo governo federal nos levaria ao colapso do sistema de saúde e causaria uma tragédia sem precedentes. Infelizmente, nossas previsões mais pessimistas se confirmaram: o número de mortes bate recordes mundiais e as UTIs estão superlotadas. Pela primeira vez começamos uma campanha de vacinação sem vacinas em número suficiente.

Não há perspectiva de melhora a curto prazo e o mês de abril ainda nos reservará muitas tristezas. O colapso do sistema de saúde significa viver num País sem hospitais para ricos ou pobres (claro que pior para estes), tenham eles Covid-19 ou outra doença. O Brasil estava fadado a ser um dos principais epicentros da pandemia. Um vírus que se transmite pelas gotículas que expelimos ao falar, cantar, tossir ou espirrar exige afastamento social para ser contido. Mesmo que tivéssemos agido de acordo com as melhores recomendações da Organização Mundial da Saúde e os exemplos dos países que conseguiram controlar a epidemia, seria muito difícil manter em casa os 50 milhões de brasileiros pobres que vivem nas periferias das nossas cidades, cerca de 10 milhões dos quais preenchem os critérios para a classificação de pobreza extrema.

Num dos países mais desiguais do mundo, essas pessoas dependem do trabalho informal diário para alimentar suas famílias. Com a debacle econômica dos últimos anos, agravada pela pandemia, a única possibilidade de sobrevivência foi a criação de um auxílio emergencial. Tal auxílio emergencial de 600 reais por mês garantiu ao menos a alimentação básica de milhões de brasileiros.

O fim desse auxílio em dezembro passado e a atual retomada na faixa de 200 reais provocaram o retorno da fome epidêmica em nosso país, flagelo do qual custamos a nos libertar nas últimas décadas do século XX. Os mais velhos devem se lembrar das campanhas contra a fome lideradas pelo sociólogo Betinho, nos anos 1980.

Os relatos que tenho ouvido de lideranças comunitárias insuspeitas são de assustar. Não será possível convivermos com a fome que se espalha nos cinturões periféricos das cidades, como fizemos em séculos anteriores com as crianças desnutridas e com os retirantes que morriam nas estradas do Nordeste para fugir das secas.

Dizer que o presidente da República foi o grande responsável pela disseminação da epidemia, promovendo aglomerações sem usar máscara, não resolverá a emergência atual. Deixemos que a Justiça Criminal se encarregue de julgá-lo. O momento é de agir.

É fundamental que a sociedade distribua cestas básicas e apoio financeiro aos mais necessitados. Num país de dimensões continentais, com tantos entraves burocráticos, não é tarefa corriqueira catalogá-los, mas, se houver organização e transparência na aplicação dos recursos, as empresas e a população não se furtarão a esse dever.

Publicado na edição n.º 1151 de CartaCapital, em 1º de abril de 2021.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

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