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Diplomacia às favas
O populismo de ultradireita também destrói as instituições internacionais
A semana que passou foi bastante atribulada em nossa política externa, numa amostra opulenta do que ainda vem pela frente nesse âmbito, ao menos até o fim da corrida eleitoral, em outubro. Claro que essas tribulações não começaram agora. Elas ocorrem desde o início dos governos de Donald Trump e seu títere no Cone Sul, Javier Milei. Contudo, não se pode ignorar a intensificação e a coincidência temporal dos ataques ao Brasil pelos dois presidentes populistas de ultradireita.
Conectando tais invectivas, um ponto comum, a presença da família Bolsonaro e seus agregados. No caso do cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, é notável que tenha sido anunciado em primeira mão por Paulo Figueiredo, parceiro de Eduardo Bolsonaro nas conspirações contra o Brasil em solo norte-americano. Já no episódio dos ataques grosseiros do presidente argentino a seu homólogo brasileiro e ao ministro do STF, Alexandre de Moraes, também é digno de nota que tudo tenha começado com a participação de Milei na convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
É bom lembrar que contaram ainda com os esforços e a celebração da família Bolsonaro medidas contra o Brasil ocorridas anteriormente, como o primeiro tarifaço, os cancelamentos de vistos de autoridades brasileiras e a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF, Alexandre de Moraes. Assim, se existe alguma coordenação entre os ataques vindos da Argentina e os oriundos dos EUA, ela certamente passa pela urdidura bolsonarista, visando a desestabilização do governo e do processo eleitoral.
Entretanto, não é só disso. É fundamental para entender o que está em curso considerar o especial interesse pela América Latina do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e da atual administração Trump. Quanto a isso, aliás, é bom lembrar que o secretário da Guerra, Pete Hegseth, disse há alguns meses que o subcontinente deveria voltar a ser um quintal dos Estados Unidos – com essas palavras, inclusive. As ações estadunidenses no Panamá e na Venezuela, assim como o endurecimento com Cuba, dão mostras do quão truculenta pode ser tal estratégia.
Ampliando o contexto, lembremos das hostilidades de Trump contra governos europeus, Canadá e México (no âmbito do espaço de livre-comércio norte-americano), China e inúmeros organismos multilaterais. Além das repetidas ameaças de açambarcar a Groenlândia, o governo dos Estados Unidos também se intrometeu em processos eleitorais em países da Europa como Alemanha (apoiando a extremista AfD) e a Hungria – enviando o vice-presidente, J.D. Vance, para dar suporte ao autocrata Viktor Orbán em sua malsucedida tentativa de permanecer no poder.
Em relação às entidades multilaterais, o governo Trump retirou os Estados Unidos de 31 organismos ligados à ONU (dentre eles a Organização Mundial da Saúde) e 35 entes internacionais. Não se trata, contudo, apenas de sair de organizações internacionais e, assim, deixar de contribuir para seu financiamento e implementação de políticas. Está em curso uma deliberada operação de desmantelamento do pouco que existe de governança global, em prol do unilateralismo e da imposição da lei do mais forte – ou seja, dos próprios Estados Unidos.
Veja-se o ataque ao Tribunal Penal Internacional. O governo Trump tenta declaradamente destruir a Corte. Em 2025, os EUA sancionaram seis juízes e dois promotores do TPI por sua atuação em casos relacionados ao genocídio, à limpeza étnica e aos crimes de guerra israelenses em Gaza, à guerra da Rússia contra a Ucrânia, assim como à investigação de autoridades norte-americanas. Sem meias palavras, num claro recado aos europeus, Rubio assim se referiu ao tribunal: “Exorto os países que ainda apoiam o TPI, muitos dos quais conquistaram suas liberdades graças a grandes sacrifícios americanos, a resistirem às reivindicações dessa instituição falida”. Ironicamente, exorta-se que se sujeitem à sanha extremista de direita atual os que foram salvos da sanha extremista de direita da primeira metade do século passado.
Enfim, o Brasil não é alvo apenas de agressões circunstanciais, restritas à tentativa de interferir no processo eleitoral brasileiro e, assim, beneficiar a ultradireita brasileira, embora se trate também disso. O populismo autoritário não visa minar apenas a institucionalidade democrática interna aos países onde se instala. Ele quer solapar igualmente a institucionalidade da política internacional. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Diplomacia às favas’
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