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Debate na ‘Band’ aponta diferentes caminhos para prováveis fracassos de Caiado, Renan e Cury
As três candidaturas nanicas estão mais próximas de perder as poucas intenções de voto do que de se aproximar dos sonhados 10%
A eleição de 2026 conta com a maior proporção de candidatos ostensivamente à direita da Nova República. Os quatro competidores de Lula com melhor desempenho nas pesquisas – Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e Augusto Cury – reivindicam pautas, discursos e uma identidade frontalmente oposta à esquerda. Não se trata apenas de um efeito colateral da candidatura do PT à reeleição. Em outros pleitos, havia a disputa por certo centro, distinto das opções competitivas mais à direita e à esquerda, caso das candidaturas de Marina Silva, Simone Tebet, Ciro Gomes, dentre outros. Na atual disputa, a luta é por encarnar aquele que seria mais capaz de derrotar a esquerda e consolidar uma virada ideológica à direita iniciada após 2013 ou 2015.
Esvaziado e com pouco impacto para o enredo da eleição, o primeiro debate presidencial, organizado pela Rede Bandeirantes, serviu para demonstrar que, em meio às semelhanças, há diferenças de estilo e estratégia entre os candidatos nanicos da direita. A disputa hoje é pelo surgimento de uma terceira candidatura relevante, já que estão praticamente definidos os dois nomes mais votados em outubro. Caiado, Santos e Cury lutam, portanto, para saírem com uma melhor imagem, que lhes traga capital político após o pleito. Neste esforço, eles adotaram estratégias distintas.
Caiado assumiu o personagem do gestor eficiente, que já teria demonstrado em Goiás o que pode fazer como presidente. Listou feitos nas mais diversas áreas e emulou a ideia do agronegócio como o Brasil que funciona, capaz de conjugar ordem, eficiência e modernidade. Ele continua a representar o amálgama entre liberalismo econômico e conservadorismo que sempre marcou não apenas seu percurso na política, mas o perfil ideológico predominante na direita brasileira do pós-1945. Com exceção dos cabelos brancos, há pouca diferença entre o candidato irrelevante da eleição de 1989 e o político de hoje.
O candidato parece apostar em uma identidade de nome seguro e experiente, como contraposição a um candidato de trajetória limitada e poucos recursos retóricos, como Flávio Bolsonaro. Parece difícil, contudo, conquistar tanto os votos da base bolsonarista quanto os eleitores de Lula com uma performance que parece datada.
Se Caiado trouxe poucas surpresas, Renan Santos seguiu um caminho diferente do adotado nos últimos meses. O discurso do Missão até então emulava certa ideia de maturidade, sugerindo que, depois dos arroubos juvenis dos primeiros anos do MBL, o partido apresentaria um candidato com a imagem de político sério, capaz de sentar-se à mesa com os adultos. A ambiguidade da forma, que conjuga performances extremamente radicais das redes a um tom por vezes mais moderado, teria por contraponto a radicalidade das ideias apresentadas, que articulam velhos motes da direita brasileira a propostas abertamente antidemocráticas da ultradireita global, como o voto familiar ou o direito penal do inimigo. A atuação na entrevista da GloboNews ou na sua última aparição no podcast Flow segue esta linha.
Ontem, contudo, o candidato seguiu o enredo mais comum até aqui na sua trajetória política. Claramente nervoso e pouco confortável com o ambiente do debate, que permitia se mover com maior liberdade, ele gritou, xingou os adversários e desrespeitou as regras, ao apresentar um cartaz típico de trabalhos da primeira infância. Antes, mostrou fraldas com os nomes dos principais candidatos. Enfim, apostou na estética do grotesco popular entre influencers e lideranças da ultradireita, na qual se sente mais confortável. Surgiu em rede nacional como o típico militante do MBL, que grava invasões a universidades ou a museus.
Sua performance pode engajar seguidores nas redes sociais, espaço no qual ele se sente confortável, mas parece ter pouco potencial de ampliar seus votos. Se a performance tem muitas semelhanças ante um personagem como Pablo Marçal, o discurso do candidato do Missão dificilmente mobiliza, pela retórica ou pelo modo de abordar os temas, grande parte do eleitorado que, na disputa pela prefeitura de São Paulo, aderiu à campanha do coach. Por outro lado, sua agressividade, ironizada por Augusto Cury, pode dificultar seu esforço de construir pontes com parte das elites econômicas. Neste caso, é necessário dizer que talvez eu esteja sendo otimista na avaliação dos donos do capital no Brasil.
Alguns podem dizer que Jair Bolsonaro foi eleito com uma aposta no grotesco. Mais do que um trunfo para Renan Santos, trata-se de um problema. Dificilmente o eleitor escolhe o imitador em face do original. Mesmo que Bolsonaro aposte no bizarro de uma forma muito diferente do líder do Missão, as semelhanças de fundo tendem mais a afastar os interessados do que a enredá-los na candidatura. Em muitos momentos, a sensação era que estávamos diante de uma tentativa de retomar a estética do falecido Enéas Carneiro, cujas ideias eram muito semelhantes a várias expostas no Livro Amarelo. Em tempos de popularização da estética do grotesco nas redes, também soa arriscada a escolha da identidade de candidato bizarro da vez.
Por fim, temos Augusto Cury, que parece não ter compreendido bem a diferença entre o discurso político e a palestra de autoajuda, entre o candidato e o coach. O fato de vários políticos emularem este personagem contemporâneo não faz com que a simples reprodução de sensos comuns sobre as próprias virtudes e trajetória seja suficiente para uma candidatura vitoriosa. Campanhas bem-sucedidas sempre mobilizaram diversos grupos sociais, que viram no discurso a representação dos próprios interesses e visões de mundo, algo que está muito distante dos argumentos ou da persona do médico.
Hoje parece mais provável que a incursão na eleição prejudique os negócios do coach, que tende a sair da disputa com a imagem de mais uma figura bizarra e deslocada, que não entendeu os meandros de um pleito presidencial.
Em meio à diversidade de estratégia, a sensação para os que se aventuraram a assistir ao debate, em pleno domingo à noite, é que as três candidaturas nanicas estão mais próximas de perder as poucas intenções de voto, indicadas pelas pesquisas, do que de se aproximar dos sonhados 10%.
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