Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Barretos mostra novamente como a extrema-direita capturou o agro

Mesmo no comando da Agricultura, o agro organizado que encontra voz em Barretos exige que o Brasil seja tocado como um fazendão colonial

Barretos mostra novamente como a extrema-direita capturou o agro
Barretos mostra novamente como a extrema-direita capturou o agro
(Reprodução/Instagram)
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A cantora Ana Castela e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) posaram juntinhos na Festa do Peão de Barretos. Na selfie, ambos erguem dois dedos e formam o número do PL.

A Boiadeira, de 22 anos, é o principal rosto pop do sertanejo. Acumula bilhões de reproduções de suas músicas, ganhou um Grammy Latino e foi a mais jovem embaixadora de Barretos. Nikolas Ferreira o principal comunicador digital do bolsonarismo e deputado federal mais votado do país em 2022, com quase 1,5 milhão de votos — recorde para o cargo em Minas Gerais.

A declaração de voto continuou nos comentários: Ana deixou três emojis de fogo na publicação do político no Instagram. Em 2022, sua postura foi outra. Após a abertura de um show em Santa Fé do Sul (SP) exibir referências à campanha de Jair Bolsonaro, ela disse não se posicionar politicamente e querer apenas se divertir.

O agro organizado que encontra voz em Barretos exige que o Brasil seja tocado como um fazendão colonial

Em Barretos, Nikolas sabotou aquela neutralidade com a delicadeza de um hipopótamo passeando na cristaleira: “Neutro é detergente, o agro é 22”, escreveu na legenda de outra postagem que fez sobre a Festa do Peão.

Sob o lema “O Brasil se encontra aqui”, a 71ª edição permite a uma parcela do País se apresentar como o todo. O perfil padrão do público registrado no ano passado, contudo, era o de pessoas com média de 36 anos, ensino superior completo e renda familiar de 14 mil reais. Não é o Brasil inteiro, mas um grupo com renda e poder que se sente no direito de falar por ele.

Barretos dá palco e trilha sonora a essa fabricação. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) definiu a festa como “expressão do nosso agronegócio”; o locutor Cuiabano Lima anunciou Flávio Bolsonaro (PL) como candidato desse agro; e a plateia apontou o inimigo ao gritar contra o presidente Lula (PT).

Se há um político de quem o agro não pode reclamar, é Lula. Desde 2003, quando o petista governou pela primeira vez, o setor mudou de escala. A produção de grãos passou de 123,2 milhões de toneladas na safra 2002/03 para estimados 360,8 milhões em 2025/26. As exportações saltaram de 24,8 bilhões de dólares, em 2002, para o recorde de 169,2 bilhões de dólares em 2025.

Contrariando o coro antipetista, os governos do PT nunca empobreceram o setor. Lula entregou a Agricultura a Roberto Rodrigues, ex-presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), e ampliou o Plano Safra. Dilma elevou o crédito e nomeou Kátia Abreu ministra. Ex-presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), Abreu recebeu do Greenpeace o irônico prêmio “Motosserra de Ouro” e, desde abril, é filiada ao PT.

Em Lula 3, a pasta foi para o sojeiro Carlos Fávaro (PSD), ex-presidente da Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso), que enfrentou Marina Silva (Rede) ao defender a flexibilização do licenciamento ambiental.

Mesmo no comando da Agricultura, o agro organizado que encontra voz em Barretos exige que o Brasil seja tocado como um fazendão colonial. A mera existência do Ministério do Desenvolvimento Agrário, do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), de assentamentos da reforma agrária, da política indígena, da fiscalização ambiental e da lista suja do trabalho escravo apavora a casa-grande.

O setor recebe crédito e ganha mercados, mas quer controlar sozinho a política para o campo. Suas principais entidades apoiaram o impeachment de Dilma. Depois da eleição de Lula, em 2022, investigações identificaram produtores e empresários do agronegócio entre os financiadores de bloqueios de rodovias e acampamentos golpistas diante de quartéis.

Bolsonaro é rei de Barretos porque transformou esse desejo em programa. Seu governo paralisou a criação de assentamentos, enfraqueceu a fiscalização ambiental e cumpriu a promessa de não demarcar “um centímetro” de terra indígena. Deixou os fazendeiros de botas e esporas mandarem como se o Brasil fosse de fato o fazendão do planeta.

Depois de quatro anos de porteira aberta, o agro organizado não quer nada a menos. Em março, o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, resumiu: “O projeto do agro é tirar o PT do poder”.

Depois do recorde de 169,2 bilhões de dólares em exportações, o governo Lula anunciou 525,1 bilhões de reais em crédito para a agricultura empresarial. É o recorde nominal do Plano Safra, 9 bilhões de reais acima do ciclo anterior e mais de seis vezes o crédito de 85,2 bilhões de reais para a agricultura familiar.

Há problemas reais: juros elevados encarecem o custeio da produção e a rolagem das dívidas, enquanto preços menores de algumas commodities apertam as margens. Esses problemas, contudo, não explicam sozinhos a hostilidade. A disputa envolve onde termina a propriedade e começam os direitos de trabalhadores, indígenas, sem-terra e da sociedade.

Em prisão domiciliar, Jair Bolsonaro (PL) faltou às edições de 2025 e 2026, mas seguiu no centro da arena. Compareceu a todas as edições realizadas entre 2017 e 2024. No ano passado, quando o filho 01 ainda não lançara a candidatura, Tarcísio, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) dividiram o palco como possíveis sucessores.

Neste ano, Tarcísio entrou com Flávio e Nikolas. Recordou que Jair lhe “abriu todas as portas” e completou: “O presidente não está aqui conosco, infelizmente, mas hoje está aqui o Flávio”. Cuiabano pediu que baixassem as luzes e apresentou Flávio como “nosso candidato à Presidência do Brasil”.

De chapéu e camiseta verde-amarela, Flávio falou por cerca de dois minutos. Disse que o agro “tem sido muito atacado”,  “tem ficado quase doente” e prometeu “resgatá-lo”. Sem apresentar propostas, ofereceu a narrativa de um setor que somente outro Bolsonaro poderia curar. Flávio não citou Lula. A arena completou o discurso com “Fora, Lula” e xingamentos.

Cuiabano articulou o apoio sertanejo a Jair Bolsonaro em 2022, reunindo Gusttavo Lima, Leonardo e outros artistas com o então presidente. Na Expoagro de Cuiabá, em 2025, proclamou que “o agro não precisa da esquerda” e mandou a esquerda “à puta que pariu”. Depois de entregar o palco a Flávio em Barretos, apareceu dançando com Nikolas.

O deputado foi mais que acompanhante. Enquanto Flávio falou pouco, Nikolas produziu uma noite inteira de imagens. Circulou entre políticos, músicos e influenciadores, dançou com Cuiabano, posou com Ana Castela e encontrou Gusttavo Lima. Embaixador da edição, Gusttavo chamou Nikolas de “ídolo” em vídeo. Apoiador de Bolsonaro em 2022, o cantor cogitou ser candidato à Presidência, aproximou-se de Caiado e desistiu.

Ana Castela liga o projeto a uma geração ainda mais nova. Embaixadora em 2025, ela voltou para a quinta apresentação consecutiva. Segundo a organização, ao menos 30% do público do camping e dos camarotes não havia ido à festa nos últimos anos. É nesse público novo, atraído pelas redes, que a foto em que ela e Nikolas formam o 22 ganha força.

A vida afetiva da cantora também a aproximou de outro clã sertanejo. No fim de 2025, Ana namorou Zé Felipe, filho de Leonardo e ex-marido de Virginia Fonseca, influenciadora que depôs como testemunha na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Bets e foi questionada sobre contratos de publicidade com empresas de apostas.

O cantor Leonardo, ex-sogro de Ana, foi incluído em 2024, já no terceiro governo Lula, na lista suja do trabalho escravo. Uma fiscalização encontrou seis trabalhadores, um deles adolescente, em condições degradantes nas fazendas Talismã e Lakanka, em Goiás. Não havia água potável, camas nem banheiro em condições de uso.

A defesa disse que a área da Fazenda Lasanka estava arrendada e atribuiu as contratações a um terceiro. O nome do cantor saiu da lista em julho de 2025, após acordo que previu 500 mil reais por danos morais coletivos e a formalização dos empregados.

Criada em 2003, no primeiro governo Lula, a lista suja é um cadastro de empregadores que, após defesa em duas instâncias administrativas, foram responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. O cadastro tira a violação de dentro da porteira e a expõe ao mercado.

Mas, no vocabulário ruralista, fiscalização vira “perseguição ao agro”. O mesmo ocorre com multas do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), processos de demarcação conduzidos pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), vistorias do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e reforma agrária.

Cada um desses instrumentos limita o poder do proprietário e reconhece outros titulares de direitos. Eis aí uma raiz do ódio do agro organizado a Lula, ao PT e à esquerda. O governo pode abrir mercados e oferecer crédito, mas, enquanto esses limites existirem, o proprietário não controlará sozinho o território e quem vive nele.

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