André Salmeron

Consultor de valores mobiliários autorizado pela CVM e de analista CNPI. Busca divulgar uma visão científica e humanizada das finanças pessoais

Opinião

Day trade é certeza de prejuízo? Entenda os riscos

Um dos grandes problemas é a promessa de ganhos altos e rápidos

Imagem: iStock
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Apesar de muito popular nas redes sociais, com direito a salas patrocinadas por corretoras e casas de análise, o day trade é uma das piores estratégias que você pode adotar para investir. Inclusive, entre profissionais do mercado, gostamos de brincar que por isso mesmo não existem day traders “sênior” – ninguém consegue retornos consistentes por tempo o suficiente pra chegar num posto como esse.

Os dados acadêmicos reforçam essa perspectiva. Uma pesquisa realizada por Fernando Chague e Bruno Giovannetti, ambos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisou o retorno obtido por day traders entre os anos de 2013 e 2018 para entender melhor o contexto. Os resultados não foram muito animadores: de um total de cerca de 98 mil pessoas, apenas 127 conseguiram lucro médio diário acima de 100 reais por mais de 300 pregões de negociação.

Para se ter ideia, isso corresponde a um total de 0,15% de pessoas com lucro no curtíssimo prazo, e a pesquisa – em linha com outros estudos – mostra que não há uma “curva de aprendizagem” em questão. Isto é, os retornos das pessoas não evoluem conforme elas passam mais tempo atuando no mercado, estudam, se preparam, etc. A pesquisa utilizou dados de contas reais da B3.

Com uma chance de prejuízo praticamente garantida, o que leva tanta gente a se aventurar no day trade? Bom, é importante lembrar que quem vende cursos, relatórios de análise e serviços de trading, como corretoras, estão sempre extraindo lucro da atividade, independente de você ganhar ou perder nas operações. Além disso, a atividade gera um fluxo indireto para outras modalidades de trading, como aquelas focadas em operações mais longas.

Tudo isso é um estímulo econômico que faz com que o day trade possa ser usado para incrementar os ganhos de instituições financeiras e/ou agentes individuais. Como conteúdos sobre finanças são pouco regulados, ignora-se o potencial financeiro catastrófico de estimular essa prática. Junte-se a isso um cenário geral de estagnação econômica e alta desigualdade para se chegar num cenário extremamente preocupante.

Riscos vão além das finanças

Um dos grandes problemas do day trade é que, segundo a ciência financeira moderna, as variações de preço em um ativo qualquer são fundamentalmente imprevisíveis, especialmente em prazos menores. Isso faz com que a atividade seja, em essência, idêntica a apostar num jogo de azar. Entretanto, como vende-se a ideia de que é possível prever os movimentos futuros usando técnicas ou indicadores matemáticos, além da proverbial “gestão de risco”, muitas pessoas acreditam que tem algum controle sobre o resultado.

Outro grande problema são as promessas de ganhos altos e rápidos. Isso tanto por profissionais com certificação e que atuam junto a instituições de renome, quanto por quem está fora do escopo legal das finanças. Isso leva muitas pessoas a uma busca perpétua por novas formas de operar, sempre sob a ilusão de encontrar “aquela” que será capaz de mudar sua vida pra melhor – ainda que nunca seja o caso.

No fim das contas, o vício em apostas acaba sendo mascarado pela ilusão de que, na verdade, se está correndo um risco com potencial positivo e a situação vai se deteriorando até chegar no limite: falência, crise psicológica, abandono completo das finanças. Isso, claro, quando não se cria um curso para tentar recuperar parte das perdas trazendo mais gente para dentro do mesmo buraco.

Num mercado eficiente, preços são imprevisíveis

Um dos princípios fundamentais das finanças modernas é que os mercados são eficientes do ponto de vista informacional. Isso significa que as informações relevantes sobre os retornos futuros de um ativo estão sempre refletidas no preço, e que as demais oscilações são imprevisíveis. Dessa forma, a não ser que usemos de informação privilegiada, incorrendo em crime, tentar prever o preço futuro de um ativo é questão de sorte.

Você pode questionar como podemos dizer que um eventual resultado positivo foi definido pela sorte e não pela capacidade de quem opera, que é uma ótima pergunta. Ao tomarmos uma série de retornos e compará-la com um índice de mercado, podemos definir se há algo além do ruído estatístico gerando retornos mais altos. Essa capacidade seria atribuída a habilidade de selecionar ativos consistentemente melhores.

Os professores Eugene Fama e Kenneth French fizeram precisamente isso, incrementando estudos anteriores nessa área, mas chegaram à conclusão de praticamente nenhum fundo de investimento consegue gerar retornos superiores por talento. O mesmo vale para investidores lendários como Warren Buffett, como mostram Frazzini, Kabiller e Pedersen num artigo de 2018, evidenciando que fatores de risco amplamente conhecidos, junto a alavancagem, explicam totalmente os retornos mais altos do bilionário.

Não existe almoço grátis

Se você está buscando investir, vai precisar assumir riscos mais altos para ter ganhos mais altos. Só que nem todo risco gera mais potencial de retorno, e no caso do day trade você corre sério risco de perder tudo em pouco tempo. Infelizmente, se você gostaria de acumular patrimônio, o único caminho é guardando dinheiro e investindo de forma racional, com alto grau de diversificação.

O lado bom é que, atualmente, você consegue fazer isso com bastante facilidade. Qualquer corretora oferece títulos de renda fixa e do tesouro nacional, que inclusive podem corrigir a inflação, medida pelo IPCA, e te dar um ganho real pré-fixado. Além disso, hoje temos diversas opções de ETFs (fundos listados na bolsa) que investem de forma global, te expondo apenas ao risco da economia global e não ao de uma empresa ou setor específico.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

André Salmeron

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