Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Colunas

Frente ampla com quem? O recado após a derrota de Messias

Para aqueles que ainda apostam em saídas baseadas na moderação e em frentes amplas, a questão se impõe de forma mais dura: há, de fato, interlocutores disponíveis desse outro lado?

Frente ampla com quem? O recado após a derrota de Messias
Frente ampla com quem? O recado após a derrota de Messias
O primeiro encontro de Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre após a eleição no Congresso Nacional. Foto: Ricardo Stuckert / PR
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Eleições 2026

A rejeição de Jorge Messias na votação do Senado passa, sem dúvida, pelo mundo da pequena política. A maior parte da cobertura do evento – que, ao modo do jornalismo esportivo, abusou do adjetivo “histórico” e de qualificações morais – se concentrou sobretudo nessa dimensão, a partir de informações de bastidor e preocupada com personagens vitoriosos ou derrotados. Sem desconsiderar a importância dessa perspectiva, creio que ela perde aspectos fundamentais da conjuntura.

Os interesses de Davi Alcolumbre, as emendas, os cálculos eleitorais locais, e outros aspectos mais comezinhos são inseparáveis da rotina política. Esse império dos pequeníssimos interesses e dos proveitos inconfessáveis, ainda que rejeitado pela maior parte da população, é parte da política democrática.

A decisão do Senado reforça, contudo, um outro modo de funcionamento do Congresso, delineado por Eduardo Cunha em seu período como presidente da Câmara dos Deputados e reproduzido por Arthur Lira e Alcolumbre.

Trata-se de uma radicalização da lógica corporativa do Parlamento, que reforça seu isolamento não apenas em relação aos outros poderes, mas também à sociedade. Nesse modelo, a legitimidade deixa de se apoiar na representação do eleitorado e passa a derivar da capacidade de atender aos interesses internos da própria Casa. A figura do presidente do Legislativo abandona — ainda que parcialmente — o figurino de estadista, sempre um tanto performático, para assumir um papel mais próximo ao de um gestor de interesses, quase sindical. Ou, mais precisamente, patronal.

Não é um fenômeno inteiramente novo. Parlamentos sempre abrigaram dimensões corporativas. O que se observa, contudo, é uma inflexão qualitativa: não apenas mudou a forma de funcionamento do Legislativo, mas também seu papel na cena política. Essa transformação não se mede apenas por votações — até porque o governo segue aprovando pautas relevantes —, mas se revela sobretudo no plano simbólico, nos discursos e nas encenações do poder.

Essa mudança tampouco ocorre no vazio. Insere-se em um contexto de radicalização da direita tradicional, que, após sucessivas derrotas eleitorais, passou a operar em chave de confronto permanente com o PT. Trata-se de um movimento anterior à ascensão recente da extrema-direita, mas que acabou por se articular a ela, formando uma coalizão em que velhas elites políticas atuam como sócias minoritárias do bolsonarismo. Dito de outro modo, não se trata da recusa abstrata ao Executivo, mas do PT sob seu comando. 

A nova posição do Congresso é um elemento institucional relevante nas mudanças da política brasileira da última década e um dos eixos da coalização de ultradireita das candidaturas Bolsonaro: enquanto caberia aos setores da extrema-direita o Executivo, lega-se à direita radicalizada, como espólio do apoio ao bolsonarismo, um maior controle sobre o Legislativo. 

A rejeição de Messias, às vésperas do ciclo eleitoral, soa como uma reafirmação desse pacto e sinaliza que, mesmo ocupando espaços no governo, amplos setores da direita já não se dispõem a integrar uma coalizão liderada pelo PT.

Para aqueles que ainda apostam em saídas baseadas na moderação e em frentes amplas, a questão se impõe de forma mais dura: há, de fato, interlocutores disponíveis desse outro lado? Como na célebre provocação de Garrincha, talvez seja o caso de perguntar se o jogo já foi combinado com os russos.

Não são evidentes as consequências eleitorais do evento, apesar dos vaticínios apressados de muitos analistas. A deterioração da relação com o Congresso pode afetar o apoio entre as elites políticas, a partir da sensação de um governo frágil, mas também abre portas para um confronto mais aberto, que pode ser bem explorado eleitoralmente. 

A questão central, porém, é que o próprio fato demonstra como boa parte das elites políticas já não se mostra disposta a, mesmo de forma mais tímida, apoiar Lula ou a maior parte dos candidatos petistas em 2026. Talvez estejamos antes diante da revelação de algo há muito anunciado do que ante uma mudança imprevista no curso da eleição. O resultado de outubro continua indefinido, apesar da ansiedade de muitos. Ontem, porém, tivemos boas pistas de que não será com o capital político da direita tradicional que Lula sairá vitorioso.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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