Opinião

Crônica do tamanho do alambique

Vamos, então, fermentar e destilar o melaço originado da cana-de-açúcar e deixá-lo envelhecer em barris das mais diversas madeiras

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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Dediquei a minha coluna anterior neste site de CartaCapital à produção daqueles extensos campos da gramínea docinha, com peso direto na economia brasileira. Na maioria, fui bem, mas, claro, alguns adeptos da “Igreja Universal do Prazer Só se for o Meu” reclamaram o cronista estar promovendo o alcoolismo. Para o que serve mesmo o dedo médio empinado? Pois é. Enfiem-no.

Tempos idos, dominavam extensos canaviais nordestinos produtores de cana-de-açúcar. No livro Casa Grande e Senzala (1933), a vida, na primeira, sempre seria mais Dulce (homenagem a uma querida amiga paranaense); na segunda, bem menos, muitas vezes até amarga, apesar das saborosas receitas dos escravos negros. Sugiro (claro, há outras sobre o tema) duas obras seminais da literatura brasileira: a primeira, do pernambucano Gilberto de Mello Freyre (1900-1987); a segunda, do potiguar Luís da Câmara Cascudo, História da Alimentação no Brasil (Editora Nacional, vols. ½ – 1963/67).

Hoje em dia, predominam programas de TV, séries, fogões urbanos e campestres, de grandes e menores chefs (espero terem lido, pelo menos, um dos livros citados) ensinando o brasileiro a comer e beber. Com raríssimas exceções, a cachaça, patrimônio nacional, é citada. De forma pejorativa, principalmente.

Sigo, agora, me dirigindo aos executivos do mercado Faria Lima, capatazes de patrões que não entenderam o capitalismo, como estudado por Adam Smith, Durkheim, Ricardo, Weber, Arendt e, de outro lado, Hegel, Engels, Marx, Mandel, Hobsbawn.

Na Faria Lima e em outros rincões do rentismo eles pastam em longas orelhas de burros e forma equivocada. Jumentos (dignificados, pois nada “burros”), são força de trabalho, se esforçam, alugam mais valia e só não recebem o justo. O criacionismo os fez irracionais. Que me crucifiquem, tanto já o fazem. Não serão os primeiros.

Retorno agora e me dirijo aos amaldiçoados cachaceiros vira-latas.

Vamos, então, fermentar e destilar o melaço originado da cana-de-açúcar e deixá-lo envelhecer em barris das mais diversas madeiras. Como bons vira-latas, saberemos diferenciá-las e, assim, nos tornaremos cães gourmets, Spitz, Labrador, Chihuahua, Golden, por exemplo.

Na época da colonização lusitana a cachaça foi perseguida, pois tirava mercado das bagaceiras importadas de Portugal. No agronegócio, hoje em dia, o capitalismo é expresso em outros moldes, mas a mesma finalidade.

Vejam o tamanho da caninha. Se, no lugar dos 8,3 milhões de hectares de cana-de-açúcar, o Brasil plantasse soja, a uma produtividade média da oleaginosa de 60 sacas de 60 kg/ha da oleaginosa (último levantamento da Conab), nossa produção de soja aumentaria 30 milhões de toneladas para quase 200 milhões de toneladas, quase o dobro do líder EUA.

Mas e daí? De onde tiraríamos a cachaça? Como nos chamariam os fariseus?

Entre os destilados, mesmo enquanto vira-latas, somos o terceiro mais consumido do mundo. A produção, entre industrial (75%) e artesanal (25%) é de 1,3 bilhão de litros, segundo a Embrapa. Como nosso País foi tornado pária pelo ex-presidente messiânico, nosso destilado, considerado patrimônio nacional é 98% consumido no território e apenas 2% fora. Principais importadores: Alemanha, Paraguai, Itália, Uruguai (2/3 do volume).

A cachaça é intensamente consumida no Brasil por nós, vira-latas de emprego, renda, educação, saúde, moradia, porque é barata, como as cervejas de marcas populares, Skol, Brahma, Itaipava, e entre os refrigerantes a Tubaína.

E se vierem ofender o presidente Lula como cachaceiro será um orgulho. Isto o faz um grande estadista, considerado e bem recebido em todo o planeta, capaz de em dez meses estar a caminho de recuperar os índices econômicos e sociais do País.

Nem todos os cachaceiros têm complexo de vira-latas. Muitos de nós não acreditamos que comprar armas, exterminar florestas, povos indígenas e quilombolas, negar Paulo Freire, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Nelson Sargento e Cavaquinho, Carlos Cachaça, Cartola, Adoniram e, os mais recentes, João Nogueira, Zeca Pagodinho e Baleiro, Aragão, todos os adeptos do Clube do Samba, torcemos para um “cachaceiro”, vira-latas, salvar um Brasil que esteve à beira do abismo com seus sóbrios votos.

Inté!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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