Opinião

Os cachaceiros

E como ficam os uisqueiros, vermuteiros, vodiqueiros, ginzeiros, runzeiros, tequileiros, conhaqueiros?

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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De acordo com o 2° Levantamento (agosto de 2023) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a área plantada e colhida (pouca diferença) na safra atual em relação à anterior permaneceu, praticamente, estagnada, situação que dura há alguns anos, ao redor de 8,3 milhões de hectares.

Como na maioria das lavouras no Brasil, os índices de produtividade têm sido o objetivo maior de caboclos, caipiras, campesinos, camponeses, ruralistas, sertanejos e tabaréus, semântica à procura de lucro ou, pelo menos, sobrevivência. Mais do que certos, não?

A produção da vigorosa gramínea somou no último período 653 milhões de toneladas contra 611 do período anterior, crescimento de 6,9%, produtividade de 79 t/ha (em cada 10 mil metros quadrados de terra foram colhidas 79 toneladas de cana).

Se algum leitor houver que ainda esteja interessado no desenvolvimento do Brasil, não iludido de que poder e proteção se resumem a comprar armas para, mais tarde, vê-las entregues às facções criminosas, nefasta invenção de um mito, ínfimo perto do saci-pererê, comemorado em 31 de outubro, então, que preste louvores aos nossos plantadores de cana-de-açúcar.

Trabalhando um ano em terreno de 10 mil quadrados (100 x 100 m) poderá faturar perto de 12 mil reais, suficientes a comprar e regularizar de três a quatro pistolas Glock, para matar, suprir facções criminosas, pais darem acesso a crianças desprevenidas, enfim…

Saindo dos medíocres clubes de “tiro à vida” voltemos à cana-de-açúcar, pois, daqueles toletes, no lugar de balas, saíram 41 MMt de açúcar, 11% a mais do que na safra anterior e 6% a mais de ATR – Açúcar Total Retido (o que forma o valor real da produção).

Entre as safras 2014/15 e 2023/24, dez anos, a produtividade da cana no C-S cresceu 11,5%, para 80,4 MMt/ha, e 14,5% no N-NE. Pode-se dizer, em média, 75 toneladas por sete safras seguidas, partindo de uma taxa muito baixa até 2018/19. A partir daí o N-NE sai de 54 para 66 (12%+).

Motivo: os altos custos dos insumos (fertilizantes e defensivos/venenos) importados, dolarizados, eventos climáticos e erros federais na política nacional de combustíveis (paridade e estoques de etanol).

No momento, ocorrem novas elevações nas cotações do açúcar em virtude do cenário internacional, onde o produto continua em alta, o que fará cair a escolha pela produção de etanol.

Uma das principais vantagens da cana-de-açúcar é que dela pode ser aproveitado quase tudo, como, por exemplo, o melaço ou mel final, o caldo de cana, açúcar, álcool. Ainda pode-se aproveitar os resíduos para fertilização do solo, geração de energia, geração de combustíveis renováveis, entre outros.

Mas o que me traz ao assunto é o seu principal e mais nobre uso: a cachaça, que faz a mim, muitos amigos, e ao nosso presidente, sermos chamados “CACHACEIROS”.

Sou. Não nego. Aliás, ninguém o deveria fazer. No meu caso, nem é como batida ou caipirinha. É a purinha, mesmo. Branca, morena, mais queimadinha. Graças femininas que entregam seus amores ao desfrute de perfumes delicados, em garrafas de rolha ou rótulos espalhafatosos, lindos teores “tropicanos”, a que nos induziram Tom, Vinícius, Caymmi, Alceu, em suas canções, autores da música povo(pular) – Anarriê, Alavantú – mais linda do mundo (apud Fernando Juncal, obrigado e abraço).

Voltarei ao assunto. Por enquanto, apenas revolto-me. Por que, nós, pobres, ricos, friorentos, canalhas patriotas, temos que entrar no vaticínio vilão de um iluminado escritor, Nélson Rodrigues, de que somos um país de “vira-latas cachaceiros”?

E como ficam os uisqueiros, vermuteiros, vodiqueiros, ginzeiros, runzeiros, tequileiros, conhaqueiros? Estes são o quê? Cachaceiros, pois não. De raça e pedigree, mas não vira-latas, “né, seo Nérso?”

Viram como posso escrever sobre agronegócios? Concordo que desvirtuo um pouco, mas assim impeço de ser bem avaliado e a Globo me contratar pra comentarista do GNT, junto aos alegres moçoilos e moçoilas que, alegremente, lá comentam.

Fico por aqui mesmo. Inté!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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