Confissões de Janot e Vaza Jato provam: procuradores formaram uma quadrilha

Cogitar o assassinato de um ministro do STF é coisa de criminoso

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Opinião

Não é fácil concordar com Gilmar Mendes. Durante estes anos no Supremo Tribunal Federal, o ministro deu mostras suficientes de não medir esforços para atender aos interesses de seu grupo político, ao arrepio da lei, se necessário. Cito um caso. Foi ele o responsável por impedir a posse de Lula na Casa Civil de Dilma Rousseff, escorado nos diálogos entre o ex-presidente e a sucessora. Àquela altura, o STF sabia que os áudios tinham sido captados e vazados ilegalmente pelo juiz Sergio Moro, razão suficiente para o ministro ter sido mais cauteloso na análise dos fatos. Soube-se recentemente da seleção desonesta de um trecho da conversa, tirada do contexto das negociações entre os dois petistas, com o objetivo de produzir um efeito político: enfraquecer ainda mais a petista e apressar o processo de impeachment. Mesmo sem essa informação, à época era perfeitamente possível deduzir a jogada da primeira instância de Curitiba, mas Mendes, acuado pelo clima nas ruas, cedeu à pressão.

Dito isso, vamos lá. Mendes foi preciso ao definir os procuradores da força-tarefa de Curitiba como uma “organização criminosa”, uma quadrilha, em resumo. Seriam desnecessários novos vazamentos das conversas por Telegram da turma da Lava Jato, mas eles continuam e, a cada revelação, exalam o cheiro da podridão. Nesta sexta-feira 27, o site The Intercept e o portal UOL revelaram que os procuradores curitibanos recorreram de forma sistemática a provas ilícitas, obtidas em contatos com autoridades na Suíça e em Mônaco, para prender e pressionar alvos de investigação que mais tarde seriam convertidos em delatores. Diante da ilegalidade da iniciativa, Deltan Dallagnol afirmou nas conversas privadas tratar-se de um “risco calculado em grandes operações”.

Risco calculado… Aos defensores do impeachment, lavajatistas e bolsonaristas em geral nunca é demais lembrar: os fins não justificam os meios (embora só inocentes ou cínicos continuem a repetir que tudo foi feito em nome do sacrossanto dever de combater a corrupção). Fosse nos Estados Unidos, sim, nos Estados Unidos, presidido por Donald “I Love You” Trump, os procuradores responderiam por crime de conspiração e todos, sem exceção, teriam sido mandados inicialmente para casa e, em seguida, transcorrido o devido processo legal, para a cadeia.

A declaração de Mendes torna-se ainda mais irrepreensível diante da declaração do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. É ou não um comportamento típico de um quadrilheiro a intenção de matar um ministro do Supremo? O plano, conta Janot em livro e em diversas entrevistas para promover a biografia, era assassinar o magistrado na antessala do plenário da corte e depois se suicidar. E por que não assistimos a esta emboscada? “A mão invisível do bom senso teria tocado seu ombro”, escreve poeticamente o procurador. Que Brasil é esse no qual uma autoridade confessa impulsos de jagunço? A regressão do País é notória, embora ninguém pudesse imaginar, apesar dos esforços de Bolsonaro e sua trupe, que pudéssemos voltar tão velozmente aos primórdios da colonização, quando vigorava a lei do trabuco e da garrucha.

O arroubo de Janot, a quem Mendes sugere um tratamento psiquiátrico, é fruto do delírio da “Ditadura das Corporações”. O Ministério Público e a Polícia Federal, bem-sucedidos no comando operacional do golpe contra Dilma Rousseff, encheram-se de soberba e se imaginaram escolhidos pelos deuses para impor ao Brasil um projeto próprio de poder. Ignoraram o voto popular, atropelaram os poderes constituídos, conspiraram contra quem se opunha a seus planos, destruíram o mínimo do Estado de Direito, destroçaram a economia, transformaram em pó empresas estratégicas. No fim, direta ou indiretamente, elegeram Jair Bolsonaro, de longa história de relacionamento com as milícias. Só não conseguiram extirpar o mal da corrupção. Ao contrário. Acabaram consumidos por ele.

PS: Para coroar o dia, o insuspeito Aloysio Nunes Ferreira, ativo articulador da derrubada de Dilma Rousseff e premiado com a chancelaria no governo de Michel Temer, afirmou à Folha de S. Paulo que a Lava Jato se valeu de “manipulação política” durante o impeachment da presidenta. O cordão dos arrependidos não para de aumentar.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É redator-chefe da revista CartaCapital.

Compartilhar postagem