Opinião

Como o Brasil deve reagir à linguagem neocolonial de Macron sobre a Amazônia?

O presidente da França se refere à floresta como um ‘bem comum da humanidade’, linguagem claramente ambígua

O presidente da França, Emmanuel Macron. Foto: Michel Euler / POOL / AFP
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“Nesse sentido a justiça pressupõe a igualdade de todos e a busca do bem comum definido pelo Papa João XXIII em sua famosa encíclica ‘Pacem in Terris’ : ‘o conjunto das condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana'” – Leonardo Boff

Pesquisas recentes apontam que o genocida ainda conta com 40% das intenções de voto.

Muitos se surpreenderam com isso, apesar de todos os escândalos que o envolvem e que não cessam de vir à tona: do roubo de joias à tentativa de golpe de estado.

Os analistas surpreendem-se com o efeito Tefal: nada parece atingir a imagem do monstro.

Entretanto, cabe refletir: não é essa a principal característica da extrema-direita? A incapacidade de ter e expressar qualquer visão crítica?

Não é essa a lição que a História nos ensina, ao olharmos retrospectivamente as ditaduras brasileiras, o nazismo e o fascismo?

Arquetipicamente, o Cristo nos Evangelhos: não se colhem bons frutos de árvores ruins, nem frutos ruins de árvores boas.

Nesse caso, não poderia ser diferente, pois essas pessoas estão imunes a “ver, julgar e agir”, como nos propôs o Papa São João XXIII, na encíclica Mater et Magistra.

Frente a isso, cabe aos setores progressistas uma única possibilidade: a disputa da hegemonia cultural, em uma sociedade em que os meios de produção e de comunicação não estão em nas mãos dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Ao insistir sobre o conceito de hegemonia cultural, central para a compreensão da política, Gramsci antevê o surgimento dos ‘influenciadores’, pessoas que hegemonizam determinado grupo de pessoas, influenciando suas visões, julgamentos e ações.

São João XXIII deve ter lido Gramsci e compreendeu em que bases a sociedade contemporânea iria se assentar.

Entretanto, mesmo para esses dois grandes pensadores do século XX, seria difícil prever a força dos meios de comunicação na sociedade atual.

Mais ainda, a capacidade avassaladora dos países do Norte, Ocidentais, hegemônicos, em determinar a agenda política e cultural do Sul.

Um exemplo é a questão amazônica.

Não resta dúvida de que a sobrevivência da floresta é de vital importância para a humanidade.

O presidente da França, inclusive, refere-se a ela como um ‘bem comum da humanidade’, linguagem claramente ambígua e neocolonial.

No entanto, como o Brasil reage a essa e outras visões estrangeiras?

Para o Brasil, ao lado dessa centralidade da preservação da Amazônia, não cabe debater também os desastres que acometem os outros biomas nacionais, sem exceção?

Olhemos por exemplo para o estado mais populoso e mais rico da federação, São Paulo.

Viajar pelo oeste paulista é uma experiência das mais tristes.

Indo de Sorocaba à divisa com Mato Grosso do Sul, Porto Epitácio, o que se vê são desertos mais ou menos verdes: monocultivo e pecuária extensiva a perder de vista.

Em dias quentes, com vento, formam-se nuvens vermelhas de terra, que voam pelo espaço, como se o solo quisesse chamar atenção à nudez despudorada a que foi submetido pela ganância humana.

As matas ciliares estão reduzidas a quase nada, fazendo prever crise hídrica próxima.

A água que sai das torneiras, nos dias mais quentes, em que já se atingem os 42 graus centígrados, vem em temperatura que pode queimar as mãos.

No espaço de três meses, as cidades do Pontal do Paranapanema foram atingidas por duas tempestades de areia, a prenunciar que o Saara será aqui.

Habitantes dessas localidades com mais de noventa anos de idade jamais viram nada igual na região.

Vale recordar que no Pontal havia floresta estadual, a qual foi abatida e posteriormente ocupada pela pecuária extensiva.

A terra, milenarmente protegida pela floresta e pelo húmus por ela produzido, em muitas partes tornou-se arenosa.

Até o imenso Rio Paraná parece triste, represado, interrompido pelas hidroelétricas geradas pela ditadura. Já não leva ao Paraguai, ao Uruguai, à Argentina.

Quanta pobreza comunicacional e ambiental os seres humanos causaram à região!

Em Virtudes para um outro mundo possível (editora Vozes), Leonardo Boff nos recorda:

“Cabe lembrar uma vez mais a bela definição da ‘Carta da Terra’: ‘a paz é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o grande Todo do qual somos parte.’ Uma compreensão mais ampliada e política foi expressa pelo Secretário-Geral da ONU Kofi Annan por ocasião do lançamento do Ano Internacional da Paz em 2001: ‘A verdadeira paz é muito mais do que a ausência de guerra. É um fenômeno que envolve desenvolvimento econômico e justiça social; supõe a salvaguarda do ambiente global e o decréscimo da corrida armamentista; significa democracia, diversidade e dignidade; respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito; e mais, e muito mais'”.

Talvez seja a hora de olharmos ao nosso redor com nossos próprios olhos, tocar com nossas próprias mãos, desgarrar o medo que nos agrilhoa e comunicar, viajar e, quando possível, se encantar com esse vasto mundo.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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