Como a variante Delta afeta o combate mundial à pandemia

Com o aparecimento da variante Delta, a meta de obter a imunidade coletiva apenas por meio de vacinas fica muito mais difícil

Foto: MARIO TAMA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

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Opinião,Saúde

No último ano e meio, temos dito que a saída da pandemia depende da vacinação em escala global. A distribuição de vacinas aos países pobres ainda é um grande desafio. Mas à medida que a imunização avança, precisamos reconhecer que, embora crucial, a vacinação sozinha não será capaz de controlar totalmente a Covid-19.

Vale dizer que a aposta inicial no desenvolvimento de vacinas e na organização de estratégias de imunização foi muito acertada. O que mudou foi o vírus. Com o aparecimento da variante Delta, a meta de obter a imunidade coletiva apenas por meio de vacinas fica muito mais difícil.

Isso porque a Delta é duas vezes mais transmissível do que o vírus original. No início da epidemia, cada indivíduo que se contaminava transmitia o coronavírus para 3 outras pessoas, em média. As pessoas contaminadas pela variante Delta chegam a transmitir para 6 a 8 pessoas, na ausência de medidas de controle. Essa diferença muda completamente o patamar de cobertura vacinal. Se no começo era esperado o controle da epidemia com algo em torno de 65% da população imunizada, agora essa meta deve ficar próxima a 90%.

Mas os dados dos países que começaram a vacinar primeiro e nos quais a Delta já se tornou dominante, como EUA e Reino Unido, mostram que a eficácia das vacinas é menor diante dessa variante mais contagiosa e diminui após 4 a 6 meses. É por essa razão que esses países começam a planejar a aplicação da dose de reforço – ou “terceira dose” –, embora ainda não haja evidências do quanto isso vai ajudar e a OMS tenha se manifestado contra essa medida.

O ponto é que a eficácia máxima dos imunizantes contra a Delta fica aproximadamente em 60 a 70%. Ou seja, uma parte das pessoas vacinadas continua suscetível a se contaminar e a transmitir o vírus. Portanto, mesmo que se consiga 100% de cobertura vacinal de uma população, não se atinge a imunidade coletiva necessária para controlar a epidemia.

É claro que a vacinação continua sendo fundamental, pois é a única maneira de garantir imunidade a pessoas que não contraem a doença, com riscos infinitamente menores do que o de adoecer. Além disso, reduz muito as formas graves nos vacinados que se contaminam. Nos estudos recentes que indicam que a variante Delta provoca mais hospitalizações, isso acontece sobretudo em pessoas não vacinadas.

Por isso, permanece o objetivo de vacinar o máximo de pessoas possível, em todo o mundo. E quanto antes, melhor. O vírus vai continuar sofrendo mutações enquanto estiver circulando livremente e só vacinação em massa pode salvar vidas e minimizar o risco de surgirem novas variantes tão ou mais perigosas que a Delta.

E então, o que mais vai ter que ser feito?

Uma das medidas a serem consideradas é o chamado distanciamento social intermitente. É algo pensado desde o início da pandemia e que passa a ser mais provável agora que se sabe que a imunidade ao coronavírus não é permanente. A tendência é que haja surtos periódicos e que sejam necessários momentos de confinamento parcial ou total, em conjunto com campanhas de vacinação, para controle dos picos de contaminação. Trata-se de estratégia complexa e que demanda planejamento e adoção de auxílios emergenciais para dar condições materiais à população.

O uso de máscaras em ambientes fechados e transporte público deve continuar por algum tempo. Nesse sentido, deveria ser assumida como política pública. Distribuição gratuita e ampla de máscaras de boa qualidade é medida simples e de baixo custo para os governos.

Outra proposta é a testagem maciça e regular. O teste de antígeno para Covid-19 permite identificação rápida de infecções presentes e por isso é elemento essencial para romper cadeias de contaminação. Esses testes também devem ser oferecidos da forma gratuita e ampla, juntamente com campanhas de comunicação clara e direta.

Como a vacinação não vai resolver a pandemia por si só, é necessário começar a discutir os próximos passos e informar a população sobre eles. Se a forma de viver em sociedade não vai voltar tão cedo a ser exatamente como antes, o planejamento e a adoção de políticas adequadas vão permitir uma transição segura para o tão esperado “novo normal”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médico e advogado sanitarista, pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP e do Institut Droit et Santé da Universidade de Paris.

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