Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Cartas já não adiantam mais

Escrever uma carta era como escrever um conto, um poema

Foto: Reprodução
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Em cima da minha escrivaninha, estão as cartas que Ana Cristina César escreveu a Luiz Augusto. Os dois tinham exatos dezessete anos quando o destino os separou. Do Rio, ela voou para Londres, ele para Berlim.

Não havia tecnologia que facilitasse a vida de um ou de outro. Comunicar era apenas pelo telefone, o que exigia dela um punhado de libras esterlinas e dele um montão de marcos. E eles levavam uma vida de estudante, meio duros.

Então restava escrever cartas.

Escrever cartas significava escrever à mão, colocar o papel de seda dentro de um envelope, fechar com cola, ir até a agência do correio mais próxima, pegar uma fila, comprar os selos e esperar uns dias até que o carteiro trouxesse as novidades.

Escrever cartas tinha um ritual. No meu exílio, gostava de escrever à noite, tomando um chá de laranja com gengibre, acompanhado de biscoitos LU. A luz geralmente era a de abajur e eu começava sempre descrevendo a cena.

Muito frio lá fora, os vidros da janela da sala estão todos embaçados, não dá pra ver, mas, pelo silêncio, sinto que não tem uma viva alma na rua. Ninguém é doido de ficar circulando a seis graus abaixo de zero.

Foi assim que comecei uma carta para o meu irmão, em fevereiro de 1974, todas elas guardadas aqui numa pasta de plástico cor de rosa.

Escrevi milhões de cartas na minha vida. Milhões. Comecei ainda menino, respondendo para minha madrinha que morava na Guanabara e que todo aniversário, todo Natal, me mandava pelo correio um presente superbacana. Guardo até hoje no museu de mim um Pato Donald dirigindo uma baratinha.

Na juventude, escrevi cartas e mais cartas pra Teresa, o primeiro amor que morava na Zona da Mata, na Cataguases de Humberto Mauro. Não guardei uma sequer para contar história. Devia ter guardado. Não havia aquele coraçãozinho vermelho que a gente usa hoje em dia, mas eu desenhava. E com uma flecha atravessando de ponta a ponta.

Guardo aqui comigo uma carta já com o papel bem amarelado, datada de 22 de março de 1940, em que o meu pai pedia minha mãe em casamento.

O fim desta é para fazer-lhe um pedido e, por este motivo, procurarei abreviar minha palestra. Como é do conhecimento do senhor, há muito temo gosto de sua filha Laly. Tenho para com ela as melhores intenções que um rapaz pode ter para com a moça que verdadeiramente ama. Estudando bem o seu procedimento, o seu caráter, afinal todos os seus elogiáveis dotes, vi nela a mulher ideal para minha companheira.

Assim aquele estudante de engenharia, barba ainda rala, começou a sua palestra.

Escrever uma carta era como escrever um conto, um poema. As notícias misturavam-se com a literatura. Hoje, de tempos em tempos, pego uma para reler. Um dia, por exemplo, comecei uma carta assim:

Tristeza! Acabou o Le Matin de Paris!

Acreditava que a notícia do fechamento de um jornal francês era uma coisa urgente, importante e chocante para o meu irmão, engenheiro mecânico.

Vou começar agora a ler as cartas que a atormentada Ana Cristina Cesar, a Ana C, escreveu, de Londres, para o namorado Luiz Augusto, em Berlim.

Meu coração está preparado para as coisas que ela vai dizer.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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