Brasil: um país racista que odeia e mata negros

Ainda não se tem notícia de qualquer declaração por parte de governadores e representantes das polícias sobre o Anuário da Segurança Pública

Créditos: Rovena Rosa/EBC

Créditos: Rovena Rosa/EBC

Opinião

O primeiro documento elaborado pelo Movimento Negro Unificado, fundado em São Paulo, em junho de 1978, trazia os seguintes dizeres: “No dia 28 de abril, numa delegacia de Guaianazes, mais um negro foi morto por causa das torturas policiais. Este negro era Robson Silveira da Luz, trabalhador, casado e pai de filhos”. Passados quarenta e três anos desse registro, a violência policial contra a população negra segue implacável. É o que revela o recém-divulgado Anuário da Segurança Pública.

 

Tendo como referência o ano de 2020, os dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontaram que as forças policiais nunca fizeram tantas vítimas. Em comparação com 2013, primeiro ano da publicação, o contingente de mortos aumentou 190%. Samira Bueno, diretora executiva do FBSP, é categórica ao afirmar que esses números estão intimamente ligados ao posicionamento do presidente Jair Bolsonaro em favor da repressão policial.

Às palavras da pesquisadora, acrescento a declaração do ex-governador do Rio, Wilson Witzel, que ao sair vitorioso nas urnas, afirmou que em seu estado a polícia ia “mirar e atirar na cabecinha”. Acrescento ainda o discurso de ódio difundido diariamente por apresentadores de programas policialescos, que incutem na população a ideia de que é preciso existir uma polícia justiceira.

Nesse morticínio institucionalizado, há um alvo preferencial. Somente no ano passado, foram 6.416 mortos, desse total, 78% eram negros, o que nos permite afirmar que o racismo orienta essas ações. Vemos um verdadeiro genocídio em curso no país, sem que haja qualquer medida por parte do Estado para saná-lo, revertê-lo. Vinte e quatro horas após a divulgação do Anuário, ainda não se tem notícia de qualquer declaração por parte de governadores, secretários de Segurança Pública e representantes das polícias a respeito desses dados.

Em meio a esse silêncio conivente, que tem sido fundamental para a manutenção da sociedade estratificada e excludente em que vivemos, tal qual ocorreu há mais de quatro décadas, a denúncia desses crimes e a exigência de medidas que garantam à população negra o direito à vida ficam a cargo, sobretudo, de grupos, coletivos e organizações do Movimento Negro. São essas associações que se levantam para exigir o fim do genocídio que nega direitos, castra sonhos, mata talentos, dilacera famílias, deixa crianças órfãs, aterroriza mães negras.

Na década de 1980, a antropóloga Lélia Gonzalez mostrava descrença em relação à punição de civis e militares envolvidos em mortes durante operações policiais: “Sabemos que os processos desses casos não darão em nada. Como todos os outros casos de discriminação racial, serão apenas mais dois processos abafados e arquivados pelas autoridades deste país”.

Causa enorme tristeza constatar que, depois de tanto tempo, as palavras da antropóloga mineira, referência maior do feminismo negro, permanecem tão atuais. Elas encontram eco no massacre empreendido há pouco mais de dois meses na favela do Jacarezinho, em que 27 negros foram mortos no que Rodrigo Oliveira, subsecretário de planejamento e integração operacional da Polícia Civil, chamou de “confronto” entre policiais e “bandidos”. A ação ocorreu mesmo com a ordem do Supremo Tribunal Federal para que não houvesse operações em comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia. Neste momento, parece não haver qualquer certeza de que, principalmente, jovens negros terão garantido o direito de ser e existir.

Os números do Anuário da Segurança Pública jogam sobre o Brasil uma característica que é impossível negar: a de um país racista que odeia e mata negros.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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