Vladimir Safatle

Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista

Opinião

Bem-vindos ao colonialismo 3.0

Ataque norte-americano a Venezuela sela o começo definitivo da nova desordem mundial

Bem-vindos ao colonialismo 3.0
Bem-vindos ao colonialismo 3.0
Donald Trump. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
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Entre 1884 e 1885, as principais potências ocidentais se reuniram em Berlim para decidir como elas partilhariam o território africano entre si. O evento foi conhecido como “Conferência do Congo”. Não faltaram discursos edificantes sobre tirar tais países da servidão, do atraso a fim de trazer o progresso e a liberdade. O resultado foi a consolidação de uma segunda fase do processo colonial europeu, que durou até os anos setenta do século passado, quando as coloniais portuguesas na África, as últimas pertencentes a uma potência europeia, enfim se libertaram.

Durante esse quase um século, os africanos e asiáticos conheceram bem o que o “progresso e a liberdade” europeus efetivamente significavam: saques de suas riquezas, genocídios, massacres administrativos, humilhação colonial. Nada muito diferente do que eles haviam feito séculos antes nas Américas, neste momento em que, pela primeira vez, o direito europeu se impôs como direito global.

Para quem imaginava que essa lógica abertamente colonialista e imperial havia ficado para os livros de história, o dia 3 de janeiro de 2026 está aí para desmentir. Pois o recente ataque dos EUA a Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da “descoberta” das Américas e da “incursão civilizatória” na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre.

Acuados diante de uma crise do capitalismo global que simplesmente não passará mais, os EUA entenderam que o momento histórico exigia uma redivisão do globo a partir das principais potências nucleares a fim de permitir o retorno das práticas mais explícitas de pilhagem e saque que fizeram a história da acumulação primitiva. Isso significava que não fazia mais sentido perder tempo em guerras contra potências nucleares, como a Rússia, nem fazia sentido fingir multilateralismo escutando seus impotentes aliados europeus. Na verdade, pela primeira vez na história, a ordem global se reconstruiria sem a hegemonia europeia.

Assim, a Ucrânia foi deixada nas mãos de Putin e a América Latina voltou a ser vista como espaço livre para todo o tipo de intervenção norte-americana a fim de deixar os chineses longe. Não por outra razão, a primeira ameaça internacional de Trump foi contra o Panamá, buscando impor seus interesses na circulação de seu estratégico Canal. Agora, acordamos com o ataque a Venezuela e o sequestro de seu presidente. Isso significa que se consolida paulatinamente uma nova desordem mundial, com a Europa com mero coadjuvante, a Rússia restabelecendo sua zona de interesse mais imediata, a China como potência que se prepara para retomar Taiwan e os EUA explicitando seu papel de vampiro da América Latina.

Ações norte-americanas dessa natureza na América Latina não são novidades. Basta lembrar do sequestro do então presidente do Panamá, Manuel Noriega, em 1989. Algo semelhante havia sido feito em 1983 contra a pequena ilha caribenha de Granada e seus líderes ou contra o Haiti de Jean-Baptiste Aristide. Poderíamos acrescentar nessa lista todos os golpes de estados patrocinados pelos EUA na região com suas montanhas de cadáveres, seus aparelhos de tortura, de censura, de espoliação de recursos da região. No entanto, por um tempo parecia que a experiência catastrófica das ditaduras latino-americanas havia deixado as intervenções mais explícitas para o passado. Agora, temos a prova de que não é mais o caso. No momento do colapso do capitalismo fóssil, Elon Musk já tinha dado a deixa de que os EUA iriam atrás do resto de energia que restava no globo, independente de onde estivessem, seja na Bolívia ou na Venezuela.

Não é difícil entender como essa ação destrói, de uma vez por todas, com o quadro jurídico internacional que fora criado a partir da Segunda Guerra. Tal quadro já havia sido seriamente abalado com a Guerra do Iraque de George W. Bush, quando EUA e Reino Unido invadiram o país sem nenhuma autorização da ONU e com a justificativa do dever de destruir supostas Armas de Destruição de Massa nas mãos de Sadam Hussein. Armas que até hoje ninguém viu. Na verdade, o que o mundo viu foi como apagar um país do mapa até o reduzir a um entreposto comercial de empresas norte-americanas. Depois, o resto da ordem mundial foi massacrada com a inação diante do genocídio em Gaza e com a perseguição norte-americana a juízes de Cortes Internacionais de Justiça: um dos poucos dispositivos de ordem internacional que se demonstraram ativos diante de tamanha catástrofe. Agora, vemos como funcionará esse novo momento global.

Na justificativa de ações dessa natureza, pode-se usar os velhos argumentos surrados de sempre: que Maduro é um ditador, que fraudou eleições e coisas similares. De fato, seu governo foi catastrófico e repito o que já escrevi em outra ocasião: não cabe a esquerda apoiar governos que atiram contra sua própria população e que criam milhões de refugiados. Mas esse é um problema a ser resolvido pelos venezuelanos em seu direito de autodeterminação e autogoverno. Tão ruim quanto Maduro é a oposição venezuelana que vive de tentar dar golpes desde 2000.

Digo isso apenas para salientar que o fato de Maduro ser quem é não muda em nada o fato de nenhum país ganhar com isso autorização de invasão e de tomada de governo. Se assim fosse, o primeiro país a cair deveria ser exatamente um dos maiores aliados dos EUA, a saber, a Arabia Saudita. Um país que faz o Irã parecer uma democracia escandinava. Ou poderíamos falar do estado genocida de Israel e seu apartheid, pois se tem alguém nesse mundo que merecia um Tribunal Internacional, esse alguém é Benjamin Netanyahu. Ou da Hungria, ou da Turquia, ou… Ou seja, faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído. E o critério é simplesmente não estar mais alinhados aos interesses das potências coloniais. Quem quer fortalecer uma ordem mundial com princípios elementares de justiça estaria nesse momento procurando fortalecer Cortes Internacionais, e não procurando destruí-las como faz os EUA.

No entanto, há algo ainda mais dramático para nós, brasileiros. É claro que nesse novo colonialismo norte-americano da América Latina, os dois países que colocam problemas para tal estratégia são México e Brasil. E dentre esses dois o problema principal é o Brasil, que tem sua estratégia geopolítica própria e mostrou ser capaz de praticá-la sem precisar do aval dos EUA, isso enquanto o México tem uma economia muito dependente para pensar em voos maiores. Ou seja, o alvo principal nessa fase de retorno ao imperialismo explícito é o Brasil. O ataque contra a Venezuela, não foi apenas contra a Venezuela: foi contra o Brasil.

Os EUA já tentaram nos desestabilizar no ano passado, mas sem sucesso. Eles certamente tentarão de novo, já que contam com o auxílio não apenas da extrema-direita local com seu sonho orgiástico de estar sob a bota de um império mas, e, não podia deixar de ser, dos nossos queridos “liberais”. Se me permitem, de toda a fauna que compõe a direita latino-americana, o “liberal” é a mais exótica. Sempre com uma tirada contra a “polarização”, contra a “cultura do cancelamento” e outras “divisões da sociedade”, ele nunca deixa de apoiar um golpe ou ver como natural que uma potência ocidental invada um país, sequestre seu presidente e diga que a partir de agora vai tomar conta de seu petróleo.

Nesse momento, abre-se um horizonte de guerra contínua a nossa frente. O capitalismo não consegue mais iludir ninguém com suas antigas promessas de estabilidade e de governança mundial. Promessas essas que nunca foram reais, mas que mobilizavam milhares de discursos e de “análises” sobre espaços multilaterais paulatinamente construídos, de “guerras justas” e de coalizões de defesa da “razão” e de “intervenções humanitárias”. Ao menos agora não vamos ter que lidar com tamanho cinismo.  Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. As defesas também terão de ser.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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