Ana Paula Lemes de Souza

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Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

Opinião

O Capitalismo 2.0 de Elon Musk

Da mineração de terras à mineração de dados, a fortuna de Elon Musk foi erguida pela devoração de mundos.

Foto: Angela Weiss / AFP
Foto: Angela Weiss / AFP
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O bilionário Elon Musk veio ao Brasil para evento em São Paulo, no dia 20 de maio, e foi recebido com pompa de estadista. Ao invés de ir até ao chefe de Estado, em Brasília, foi este quem veio até a ele, em São Paulo.

E como se todo o espetáculo não fosse por si só escabroso, o evento pitoresco ainda contou com Bolsonaro chamando Elon Musk de “mito da liberdade”, prometendo-lhe ceder a “proteção” da Amazônia, por meio da SpaceX/Starlink. Tecnologia esta equivalente a que o próprio Brasil já dispõe — ou dispunha —, no famigerado INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), onde teria se erguido um gabinete paralelo, formado por militares, para controlar a produção de dados sobre o desmatamento.

O evento também contou com a celebração de Elon Musk como o novo Noé, pela esposa do ministro de comunicação, Fábio Faria, a filha do Silvio Santos, Patrícia Abravanel, que, em um post em sua rede social, comparou Elon Musk ao herói bíblico, chamando o bilionário de “visionário habilidoso escolhido por Deus”, em seu sonho de “humanidade interplanetária”. Sua ideia é colonizar Marte — mas só para os super ricos.

Na comparação de gosto duvidoso, talvez Patrícia tenha herdado da mãe a habilidade de roteirista e, do pai, certo talento oportunista…

Elon Musk, o “homem mais rico do mundo” e célebre negacionista da Covid-19, viu sua fortuna dobrar durante a pandemia. Em seu cinismo, promete com a Tesla Motors uma “revolução verde”, embora sua fortuna familiar tenha se erguido pela destruição da Terra, com uma mina de esmeraldas, na Zâmbia.

Há dois tipos de negacionistas: o negacionismo puro e o aceleracionista, esse último ainda mais perigoso. E é nesse sentido que caminha a proposta de Musk de “salvar a humanidade de si própria”, mas reinventando o extrativismo, que detonou o projeto colonial moderno eurocêntrico, e nos trouxe nesse tempo de catástrofe climática, em que não temos mais tempo…

E foi a cínica devoração de mundos que tornou o futuro estéril, essa  “sustentabilidade” a la Elon Musk, de que é possível colonizar outros planetas, após termos destruído a Mãe Terra, o nosso único lar possível.

Já dizia Ailton Krenak, que a vida sustentável não passa de vaidade pessoal. No caso, o projeto da SpaceX e o da Tesla Motors se tratam disso, um mito. E “Homens Modernos”, como Elon Musk, cortaram, definitivamente, as raízes com o planeta Terra…

Jair Bolsonaro, Fábio Faria e Elon Musk. AFP PHOTO/BRAZIL’S MINISTRY OF COMMUNICATION/Kenny OLIVEIRA

Mineração de tweets

Elon Musk continua investindo na mineração, mas, dessa vez, na de dados, o mais valioso “minério” de nossos tempos.

O Twitter, recentemente adquirido por Elon Musk, por cerca de 44 bilhões de reais, é uma plataforma propícia à exploração em massa de dados, com a utilização de algoritmos de inteligência artificial, tornando-se um potente instrumento aliado na disputa política e em transações financeiras. O aumento abrupto dos seguidores de Bolsonaro, após o anúncio da aquisição, dá alguns indícios.

Musk já utilizou o algoritmo para multiplicar sua riqueza, em 2018, quando anunciou a venda da Tesla, para valorizar as ações da empresa, o que jamais aconteceu. Repetiu a operação em abril de 2021, para valorizar a criptomoeda Dogecoin e, em outubro, com a criptomoeda Shiba.

Em 2020, foi acusado de participar de planos golpistas para derrubar o governo de Evo Morales, na Bolívia. Com sinceridade que lhe é rara, respondeu: “Vamos dar golpe em quem quisermos, lide com isso”.

Há rumores de que a intenção de Musk esteja nas reservas de lítio bolivianas. E que o seu interesse na Amazônia, no Brasil, também seja no minério, especificamente no níquel. Esse território é adensado pela catástrofe climática, com o aumento inevitável da demanda por energias renováveis e armazenamento energético, criando uma enorme oportunidade de lucro aos fabricantes de baterias, como a Tesla Motors, que dependem da mineração de materiais como lítio, cobalto e níquel.

A festejada vinda de Elon Musk ao Brasil mostra, com sutileza fina, a aliança inegável do neoliberalismo com o neoconservadorismo.

O primeiro, representado pelo capitalismo financeirizado, como nos megaempreendimentos do megalomaníaco Elon Musk, que soube fazer fortuna do problema ecológico, e o segundo, representado por Bolsonaro, lambe-botas do capital financeiro, que tem como projeto de morte o desmonte ambiental, vulgo “passagem da boiada”, na indefectível expressão do ex-ministro do meio ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles.

Não por acaso a ascensão do bolsonarismo ao poder trouxe à tona todo o projeto de morte e de destruição, com raízes fortemente coloniais e escravistas, dissolvendo avanços democráticos e abrindo espaço para privatizações.

E não por acaso foi o chefe de Estado quem foi a São Paulo, e não o bilionário quem foi a Brasília. Alguém precisava fazer o trabalho sujo para o capitalismo 2.0, a la Elon Musk. E esse alguém, no Brasil, foi o Bolsonaro.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Ana Paula Lemes de Souza

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Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

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