Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

Aprovados no Enem, estudantes de escolas públicas resistem à destruição da educação no Brasil

As histórias exitosas saltam aos nossos olhos em um contexto de desqualificação e perseguição de professores

Ageu Salgado dos Santos. Foto: Arquivo pessoal
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Que as redes são espaços extremamente tóxicos, todo mundo já sabe. Pesquisas dão conta de que sites como Facebook, Twitter e Instagram são polos disseminadores de fake news e discursos de ódio – um “veneno” para a saúde mental. Mas não é sobre isso que quero falar agora. Vou me ater ao lado bom desses veículos sociais, que movimentam bilhões de dólares com os nossos likes. Nas postagens, nesta época do ano, emergem relatos de estudantes oriundos das classes pobres e de escolas públicas que, com a nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), conseguiram uma vaga em universidades também públicas. Um verdadeiro refrigério para a alma.

Desde o início da semana, tenho acompanhado a alegria de colegas professores ao verem o êxito de seus alunos e ex-alunos que superaram inúmeras barreiras e agora são calouros de federais. Poliana, professora da Rede Estadual de Educação de Minas Gerais, postou uma foto em que aparece sorridente ao lado de Letícia, aprovada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Flor Pinto, educadora do interior do Pará, cujo vídeo viralizou por ela expressar a emoção diante da aprovação no vestibular de estudantes do colégio em que trabalha, sintetizou o que isso significa: “Escola pública, amiga! Só a gente sabe!”.

No Facebook, acompanhei o orgulho, a felicidade de Cida Araújo, que em uma postagem contou que sua neta, aos 18 anos, também se tornou aluna da UFMG. Nas palavras de Cida, “em plena pandemia, só ela e o computador”, com muita dedicação, Lívia alcançou 940 pontos na redação do Enem. Lívia também é filha da escola pública e moradora de Vespasiano, município que integra a lista dos mais pobres do País.

Por meio do Instagram, conheci a história de Ageu Salgado dos Santos, aprovado em medicina na UFPA. O jovem de Tomé-Açu é filho de um gari e de uma diarista. Segundo matéria publicada no UOL, aos 21 anos, Ageu é o “primeiro integrante dos dois lados da família a entrar na universidade”. O futuro médico contou que, por não ter computador em casa, recorreu a um celular e um tablet para acompanhar os conteúdos disponíveis na internet e se preparar para o Enem. Orgulhoso, Messias dos Santos, pai de Ageu, celebrou: “Valeu muito a pena todo o esforço dele em não desistir daquilo que ele queria de verdade. A gente espera que isso incentive os irmãos a seguirem os passos dele”.

Essas histórias que circulam nas redes sociais vêm à tona no momento em que a destruição e a negação de direitos são as únicas políticas de educação do País. Os dados divulgados em relação às ações do Ministério da Educação (MEC) são devastadores. Em 2020, primeiro ano da pandemia, foi registrado o menor gasto do MEC com a educação básica. Esse gesto de desprezo pelo ensino público se deu no período em que milhões de alunos foram obrigados a se afastar das aulas presenciais. Muitos não tiveram condições de acompanhar o ensino remoto em razão da falta de internet, do luto, do desemprego e da fome enfrentada pelas famílias.

O episódio mais recente da cruzada contra a educação foi a exclusão de microdados do Censo Escolar e do Enem do site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). As informações anteriores a 2020 também não podem mais ser acessadas. Os dados omitidos pelo governo federal, que dentre outras coisas registram números referentes à evasão escolar, são fundamentais para a elaboração de políticas públicas que visam à melhoria da qualidade do ensino e ao combate das desigualdades educacionais.

As histórias exitosas que registrei aqui saltam aos nossos olhos em um contexto de desqualificação e perseguição de professores, que sem sombra de dúvidas, tiveram participação fundamental para que esses jovens conseguissem chegar à universidade. A detração do fazer docente tem sido uma constante. Exemplo disso foram as palavras do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), que em entrevista à CNNBrasil, de maneira leviana, disse: “O professor não quer se atualizar, não quer se modernizar, essa é a verdade. Já passou em um concurso, está esperando se aposentar, não quer aprender mais nada”.

Declarações abjetas como essa se juntam a tentativas incessantes de assassinar o legado e a memória de Paulo Freire, como também aos ataques quase que diários à ciência. Os jovens retratados neste texto, assim como tantos outros com trajetórias de vida semelhantes, chegam à universidade meses depois de um corte de 600 milhões de reais que seriam destinados à pesquisa.

Além de jovens universitários, Letícia, Lívia e Ageu representam a resistência à destruição do ensino público e do direito humano à educação. Eles resistiram aos que bradam contra a presença de negros, indígenas, filhos de garis, de diaristas, de trabalhadoras domésticas e de porteiros na universidade. Resistem também aos que de maneira tacanha e vergonhosa defendem que o ensino superior deve ser destinado apenas a uma “elite intelectual”.

Letícia, Lívia e Ageu são a prova de que apesar dessa política de genocídio do futuro, “amanhã há de ser outro dia”, como bem cantou Chico Buarque de Hollanda.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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