Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Eis que os esqueletos começam a aparecer, eles sempre insistem em aparecer. Quando Bolsonaro anunciou o fim do visto de entrada para turistas de EUA, Austrália, Canadá e Japão, mal sabia ele que a podridão da Lava Jato sairia à luz da mão de um cidadão americano. A vida e seus sarcasmos geniais. Make America great again.
Segundo recente pesquisa do Atlas Político, divulgada após as primeiras reportagens do site The Intercept, a imagem positiva do atual ministro da Justiça caiu de 60%, em maio, para 50,4%, em meados de junho. Ou seja, a popularidade despencou quase 10 pontos após os vazamentos. A “Vaza Jato” revelou o que muitos de nós já intuíamos, a operação foi manipulada e o Judiciário foi, sim, parcial. Um escândalo! Como é possível que metade dos brasileiros continue a apoiar essa farsa?
Meu argumento aqui é que muita gente ainda apoia a Lava Jato justamente porque ela foi… parcial. Durante minhas pesquisas com bolsonaristas, sempre falávamos do processo de impeachment, da Lava Jato, da prisão de Lula. Surpreendi-me muito a primeira vez que escutei uma senhora falar: “A gente sabe que o impeachment da Dilma foi tudo um circo, mas”, prosseguiu a senhora, “ela mereceu, o PT tem que acabar”. Foi a primeira pessoa que ouvi expondo abertamente esse raciocínio, não a última.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O impeachment foi uma farsa, sim, mas era essa justamente a sua grandeza. Com sua parcialidade, tinha tirado o PT do poder. Seguindo uma lógica similar, várias vezes escutei de bolsonaristas: “Lula foi para a cadeia agora, no período eleitoral, porque podia ganhar a eleição, mas…” – sempre aparece esse mas amaldiçoado – “ele mereceu, porque é o chefe de quadrilha do partido mais corrupto de Brasil”. Essas pessoas não apoiaram Moro por genuíno desejo de justiça, e sim para aniquilar o PT.
Repare: ninguém sai por aí dizendo que a grande conquista da Lava Jato “foi botar Eduardo Cunha na cadeia”. A virtude da operação era exatamente a sua parcialidade. Para nós, é gravíssimo que Sérgio Moro extrapolasse seu papel de juiz, atropelasse as garantias democráticas que a Justiça deveria respeitar. Para eles, é exatamente nesse vício que reside a maior virtude de Moro. Não se elogiava a capacidade do magistrado para fazer justiça, e sim para destruir.
Nas minhas entrevistas com esses grupos, raramente era mencionada a palavra “justiça”, o que eles queriam mesmo era “limpar Brasil” do “câncer do PT”. Para isso, o devido processo penal é um empecilho, um aborrecimento, um total inconveniente. O grande mérito de Moro foi entender isso. Para limpar o Brasil, mandou as garantias às favas. Delação premiada manipulada, condução coercitiva, relação promíscua entre juiz e procuradores. Sim, sim, sim, tudo foi benfeito porque ninguém queria realmente justiça, o desejo nunca foi combater a corrupção.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Eis aí a tragédia. Justiça justa, para eles, deve ser seletiva. São pessoas com desejo de linchamento, não de justiça. Para eles, a Lava Jato funcionou muito bem, conseguiu seu objetivo. Moro entendeu que devia violar as regras em nome de uma tarefa messiânica e heroica, salvar o Brasil do petismo, esse grande inimigo que atrapalha o futuro do Brasil verde-amarelo, um país que eles dizem amar, mas que não se importam em arrasar.
Muitos deles são os mesmos que aplaudem uma justiça que tem como alvo preferencial os jovens pobres e negros, moradores das periferias dos centros urbanos. É como se eu tentasse denunciar: “O sistema de justiça criminal é racista, seletivo”. E eles replicassem: “Você ainda não entendeu que é isso que queremos?” Negros, pobres, petistas, seu lugar é na cadeia. A turma quer um país branco, cheiroso, de famílias de bem. Esta é a pátria amada. E apoiam a Lava Jato porque ela é… parcial.
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital
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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).