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Análise: se Trump tentou mesmo um golpe, foi mais farsa que tragédia

Trump foi derrotado. Mas, apesar disso, um ‘efeito boomerang’ deve trazer à tona todo o tipo de conflito, escreve Reginaldo Nasser

O ex-presidente dos EUA Donald Trump. Foto: AFP
O ex-presidente dos EUA Donald Trump. Foto: AFP
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Durante seu discurso de posse, em frente ao o Capitólio, o presidente Donald Trump construiu um cenário desolador sobre o pais que iria governar. Tratava-se, segundo ele, de uma nação onde “homens e mulheres sofriam com o aumento da desigualdade econômica; onde o crime e a ignorância sufocaram os sonhos; onde o globalismo desenfreado esgotou a riqueza e a força militar da nação”.

Quatro anos depois, os EUA estão passando por um dos piores momentos de sua história. São mais de 300 mil mortos pela Covid-19, o desemprego em alta e, para completar, está em crise aquilo que os EUA sempre se gabaram ser exemplo para o mundo: a transição pacífica de poder.

 

Estou longe de imputar a Trump a causa de todos esses problemas. Mas ele, sem dúvidas, os potencializou, provocando uma série de conflitos poucas vezes visto na história da sociedade estadunidense. Suas mentiras reiteradas, seu desrespeito pelas instituições, sua agressividade em relação aos movimentos pelos direitos humanos e sua descrença em relação as instituições democráticas foram o estopim para explosão da violência sem controle.

Para completar o quadro,  a invasão do Capitólio, símbolo do poder dos EUA, por uma multidão insuflada pelo presidente assustou parte de seus próprios apoiadores.  De acordo com pesquisa realizada entre os eleitores republicanos, 55% não apoiam a invasão do Capitólio.

Deputados, senadores e líderes republicanos também condenaram o acontecimento. Durante a crise, sobressaiu-se a figura do vice-presidente Mike Pence que, muito embora pressionado pelo Presidente, conduziu a certificação de Joe Biden e Kamala Harris e se prontificou a convocar a guarda nacional para restabelecer a ordem. Ou seja, por alguns momentos tornou-se o presidente de fato.

Será que Trump e seus asseclas esperavam reverter a formalização de Joe Biden como presidente da Republica com a ocupação do Capitólio por uma turba sem nenhuma organização? Ou isso seria apenas uma movimentação inicial que seria completada por uma ação organizada de setores militares?

Se realmente Trump tentou dar um golpe, foi muito mais uma farsa do que propriamente uma tragédia – apesar da morte de quatro pessoas.  A hipótese de golpe se tornaria plausível se houvesse alguma chance de apoio de setores do governo, principalmente dos militares. Pelo que se saber até o momento não houve o mínimo indicio de qualquer manifestação desse setor.

Portanto, é improvável que a motivação de Trump para interromper a certificação da eleição de Joe Biden fosse dar um golpe de Estado. Tanto é que momentos após conseguir realizar seu intento, Trump solicitou que os “patriotas voltassem para casa.

Longe de ser uma demonstração de poder, como pode parecer à primeira vista, a invasão foi parte de uma estratégia para mascarar as derrotas em série que Trump tem sofrido e tentar demonstrar que o derrotado tem apoio popular. No mesmo dia em que seus os apoiadores invadiam o Capitólio, os democratas comemoravam a vitória na Geórgia que lhes dará o controle do Senado. Ou seja, Trump foi derrotado nas urnas pelo voto popular, pelo número de delegados eleitos, na Câmara dos Deputados, no Senado e nos tribunais de apelação.

Além do apoio daqueles que detém o monopólio dos meios da violência, os militares e policiais, para se concretizar um golpe é essencial o apoio do capital.

Muito embora o presidente Trump tenha recebido elogios frequentes das grandes corporações, durante seu mandato,  – devido aos cortes de impostos e tarifas – a balbúrdia recente assustou o grande capital.

 

A poderosa Business Roundtable, uma organização de CEOs de 200 grandes empresas (incluindo Walmart, Amazon, Delta Air Lines, Pfizer e PepsiCo), convocou Trump e seus aliados a “colocar um fim ao caos e facilitar a transição pacífica de poder”. Aliás, de acordo com a Fortune, a organização já havia se reunido ano passado para discutir uma possível ação coletiva contra o presidente caso ele se recusasse a deixar o cargo.

O presidente da Associação Nacional de Fabricantes, importante grupo empresarial dos Estados Unidos que representa 14 mil empresas (incluindo Exxon Mobil Corp, Pfizer Inc e Toyota Motor Corp) foi mais contundente. Disse ele: “Trump incitou a violência na tentativa de manter o poder, e qualquer líder eleito que o defende está violando seu juramento à Constituição e rejeitando a democracia em favor da anarquia … Vice-presidente [Mike] Pence, deve considerar seriamente trabalhar com o Gabinete para invocar a 25ª Emenda para preservar a democracia.”

Conforme avança neste ataque às instituições, Trump deixa de contar com uma base de apoio decisiva para qualquer líder politico que queira se manter no poder, por meios legítimos ou não. Além disso, já perdeu as eleições. O fato é que Trump foi derrotado em todas as esferas e se revelou um aprendiz de golpismo, fazendo jus à perspicaz piada de que “nunca haverá golpe nos EUA porque não existe uma embaixada americana lá”.

Pouca gente deu o devido destaque para o que aconteceu no dia 8 de outubro de 2020, quando o FBI anunciou a prisão de 13 suspeitos acusados de envolvimento em um plano de terror doméstico para sequestrar Gretchen Whitmer, a governadora do Michigan, e derrubar o governo estadual. Talvez  tenha sido um anuncio do que viria acontecer no dia 7 de janeiro de 2021.

É provável que estejamos testemunhando um “efeito boomerang”. As várias estratégias políticas, judiciais e militares que os EUA se esmeraram em aperfeiçoar e aplicar no mundo inteiro, derrubando e promovendo líderes, começa a dar sinais de retorno à sua política doméstica. O problema é que, quando um presidente, no exercício do cargo, faz uso da violência política, cria um precedente para o futuro.

Independentemente do que será o governo de Joe Biden, todos os tipos de conflitos devem vir à tona nos EUA, com mais intensidade do que antes. Teremos anos turbulentos…

Reginaldo Nasser

Reginaldo Nasser
Professor de Relações Internacionais da PUC-SP

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